Opinião

CPI da Covid: juízo ou benefício?

POR WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA

27 de outubro de 2021

Assistindo ao recente filme ‘A batalha esquecida’ (Netflix), baseado em fatos ocorridos na Holanda, durante a 2ª. Guerra Mundial (o êxito contra os nazistas nessa batalha pouco lembrada foi fundamental para o avanço das forças aliadas na ofensiva final contra Hitler), duas cenas merecem atenção, dentre tantas outras.

Cena 1: Em meio à voragem e ao caos do combate, dois jovens lutando em lados opostos, ambos idealistas da liberdade, um, piloto britânico, outro, holandês, mas entusiasta do nazismo e alistado naquele exército, se deparam, frente a frente, isolados dos demais combatentes, com armas em punho apontadas um para o outro, com a chance de se matarem. Em átimo de tempo, ante a possibilidade da morte iminente, paralisam-se e, por um instante, travam diálogo mudo, de olhares e de pensamentos (talvez se enxergando um no outro, já desiludidos de seus ideais diante da crueza e da insanidade da guerra até ali por ambos experimentadas). Por fim, como que saindo daquele transe momentâneo, optam pela vida e, sem um único tiro, viram-se para lados opostos e cada um segue o seu caminho.

Cena 2: Algum tempo depois, já com o exército alemão batendo em retirada, a ‘mocinha’ do filme, que fora feita prisioneira por colaborar com a resistência holandesa, encontra-se na iminência de ser estuprada e, muito provavelmente, morta por soldado nazista. É salva, então, justamente, por um daqueles soldados que se pouparam da morte no episódio narrado na cena anterior, que a livra das garras do agressor, seu companheiro de armas, em ato de coragem, procurando, desta forma, redimir-se um pouco da culpa que passara a persegui-lo quando exposto às atrocidades praticadas por aquele regime ao qual aderira e que ele, um dia, na ingenuidade própria da juventude, julgara libertador.

Como diria um amigo ítalo-brasileiro: relação de causa e efeito. De forma reversa, como preconiza um axioma jurídico universal: “sublata causa, tollitur effectus”. Em linguagem popular, colhe-se o que se planta e retirada a causa, cessa o efeito.

E a CPI com isso?

Bem, encerrada a CPI da Covid, vários adjetivos lhe podem ser atribuídos. Dentre tantos, variando da sua composição ao teor das suas inúmeras sessões, podemos destacar alguns: hilária (inevitável, esse é o primeiro que me vem à mente… e creio que, também, à de milhões de brasileiros, afinal, quem não se divertiu com o ‘circo’ armado em torno de muitos dos depoentes/depoimentos e com os vários embates entre seus membros, alguns descambando para as agressões verbais e ameaças físicas?), reveladora, dramática, primária, tendenciosa, demolidora, oportuna… (com este último muitos irão discordar, com certeza, mas, há razões que a própria razão desconhece).

Foram seis meses de erros, acertos e de uma condução suspeita e quixotesca que, diretamente, não esteve à altura e nem foi fiel ao seu objeto integral, mas, por vias não pretendidas, e às vezes adversas, produziu resultados de várias ordens, até mesmo indesejados ou onde não almejava (atirou no que viu e acertou no que não viu). Foi assim com a descoberta de esquemas de corrupção para se locupletarem com a venda de vacinas, envolvendo, como suspeitos, de cabo da PMMG a deputado federal, dentre outros tantos agentes da administração pública e de empresas privadas, ameaçando respingar na figura do presidente da República (os holofotes da CPI ajudaram a expor e a desbaratar as quadrilhas antes que o assalto aos cofres públicos se consumasse; de igual forma, foram seis meses em que os integrantes da Comissão se desnudaram e foram desnudados diante da população brasileira, exibindo claramente ou deixando transparecer o verdadeiro caráter de cada um e, até mesmo, a sua falta (retrato nosso, retrato do Brasil); por último, mas não por fim, com ou sem negacionismos, a vacinação contra a Covid-19 avança e já contamos com cerca de 110 milhões de brasileiros totalmente imunizados e 263 milhões de doses aplicadas – com certeza, a pressão indireta exercida pela CPI foi uma coadjuvante importante para se alcançarem esses números auspiciosos.

Fim de ano se aproximando, fim da pandemia que se prenuncia, que possamos, todos, encerrar este ciclo de coisas ruins que se abateram nos últimos tempos sobre todo o globo (não sou terraplanista rsrsrs!) e iniciar um 2022 plantando as sementes de um mundo melhor. Afinal, o mundo que temos é espelho das nossas ações. E não podemos abrir mão da nossa capacidade de decidirmos por nós mesmos, conscientemente, livres de quaisquer amarras, sejam ideológicas, políticas, religiosas… por melhores que se apresentem, pois as suas consequências nos alcançarão, para o bem e para o mal. Por tudo isso, como já disse um sábio em passado longínquo, mas com aplicação universal e atemporal, “Não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos, se não desanimarmos”.
Saúde e paz a todos!

WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA, bacharel em Direito, ex-diretor da Justiça do Trabalho em Passos, escreve quinzenalmente às quartas, nesta coluna.