Opinião

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25 de agosto de 2023

ALEXANDRE MARINO

A cidade e as palavras

Quando os queridos e eventuais leitores estiverem lendo esta coluna estarei a caminho de Paracatu, simpática cidade mineira a 230 km de Brasília, para participar do Festival de Literatura Internacional, o Fliparacatu. Trata-se da primeira edição desse evento, que já a insere entre as cidades que se destacam em Minas Gerais e no Brasil por abrir suas portas a escritores e outros artistas e oferecer à população a oportunidade de um contato mais íntimo com os livros e a arte literária. Paracatu está em festa.

Com uma população de 94 mil habitantes, Paracatu preserva suas tradições e sua cultura, o que inclui um conjunto arquitetônico de alto valor, com 230 imóveis tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Todo o centro histórico é protegido também por lei municipal, e as manifestações culturais afro-brasileiras são apoiadas e estimuladas pela Lei Orgânica do Município. A população é 80% negra ou parda, e a cidade tem cinco comunidades quilombolas reconhecidas pela Fundação Cultural Palmares.

Além do Fliparacatu, que a prefeitura promete incorporar ao calendário da cidade, são realizados vários eventos culturais ao longo do ano, como o Festival Internacional de Cinema, o Festival do Patrimônio Cultural e festas religiosas, entre outros. A gastronomia também é um ponto forte: o Modo de Fazer do Pão de Queijo, em 2015, e o Modo de Fazer das Quitandas, em 2018, foram registrados pelo município como patrimônio imaterial.

De acordo com o Iphan, o arraial que originou a cidade surgiu entre 1690 e 1710, quando era pouso para os tropeiros que transportavam ouro entre Goiás e Minas. O tráfego de bandeirantes, a escravização de indígenas e africanos, a descoberta de ouro na região e a vocação para a agricultura moldaram a cultura da então Vila de Paracatu, elevada a cidade em 1840.

O modo de fazer quitandas é uma tradição de 300 anos. Existe até um projeto de lei no Congresso Nacional, de autoria do deputado Zé Vitor (PL-MG), que concede a Paracatu o título de Capital Mundial do Pão de Queijo.

O Fliparacatu é realizado sob a curadoria de Afonso Borges, que fez de algumas cidades de Minas, como Itabira e Araxá, importantes promotoras de festivais literários. Além de escritor e jornalista, Borges é gestor cultural experiente, criador do Projeto Sempre um Papo, que começou há 37 anos levando a Belo Horizonte escritores importantes para lançar seus livros e hoje promove diversos eventos culturais na capital mineira e outras cidades.

Tendo como tema “Arte, Literatura e Ancestralidade”, o Fliparacatu homenageia o escritor moçambicano Mia Couto e a mineira Conceição Evaristo, e leva à cidade mais de 60 escritores, do Brasil, Portugal e África. Afonso Borges divide a curadoria com Tom Farias e Sérgio Abranches.

O Fliparacatu conta com o apoio da Lei Rouanet, que no atual governo volta a cumprir sua função de viabilizar eventos que oferecem arte e cultura à população. Os cinco dias de palestras, leituras e íntimo contato com o livro serão profundamente saudáveis aos paracatuenses e a quem mais estiver por lá. Isso não tem preço. A literatura estimula o pensamento crítico, a empatia e a liberdade. Eventos literários formam cidadãos mais conscientes e informados.

Além da literatura, outro destaque do Fliparacatu é a exposição “Portinari Negro”, formada por 42 reproduções de obras do artista plástico Candido Portinari que retratam a realidade de grande parte da população negra do Brasil à sua época. Exibidas em estruturas de dois a três metros de altura, dão a ideia de um museu a céu aberto.

Um ciclo de debates virtual sobre essas obras será realizado durante o festival. Outro item da programação é o Prêmio de Redação, dirigido a crianças e jovens, de 4 a 18 anos, do sistema educacional da cidade. A tarefa é escrever sobre o tema geral do evento, com inspiração na obra de Portinari. Haverá prêmios em dinheiro para os estudantes e livros para seus professores.

Em meio a tantas atividades, estarei no sábado, 26/8, ao lado da poeta Luiza Romão, conversando sobre o tema “Tempo de Poesia”. Luiza, nascida em Ribeirão Preto, é também atriz e performer, e venceu o Prêmio Jabuti do ano passado com seu livro “Também guardamos pedras aqui” (Editora Nós).

Seus poemas fazem um paralelo entre o Brasil de hoje e a “Ilíada” de Homero, clássico grego de 2.700 anos. Ao colocar lado a lado o seu livro com o meu “Terra Sangria”, que traça um panorama poético sobre o massacrante período de pandemia e governo fascista, só podemos chegar à conclusão de que todos os tempos são tempos de Poesia.

Agora que atravessamos os limites do suportável, a Poesia há de nos arrancar da inércia porque sua linguagem não é a da banalidade, ela atua sobre outras sinapses. Se as notícias sobre a chacina de crianças, os feminicídios em série, o massacre de indígenas, os gestos de ódio e de racismo, o mundo em desconstrução, o impasse a que a humanidade se conduziu, se nada disso é assimilado em seu cerne, então é o momento de dar voz à Poesia. Como disse Octávio Paz, “é preciso inventar as palavras, como nos criamos e criamos o mundo todos os dias”. As palavras da Poesia são as vozes do mundo, às quais ela dá sempre um novo sentido.

ALEXANDRE MARINO, escritor e jornalista em Brasília/ DF, escreve quinzenalmente às sextas nesta coluna