Destaques Dia a Dia

Verdade ou Mentira?

POR SEBASTIÃO WENCESLAU BORGES

30 de setembro de 2020

Éramos uma turma de garotos com idade entre 13 a 14 anos. Num sábado à tarde, depois de encerrado o serviço semanal, com o dinheirinho sagrado no bolso, um falou: ”Ei turma, vamos amanhã curtir uma pescaria?” Todos toparam a ideia. Éramos seis, meu primo Roni, os irmãos Louro e Alemão, o Dão, o Olímpio que pouco tempo depois fez história no atletismo como o melhor corredor em Passos e região, e eu. O local combinado para a nossa pescaria era um poço nas imediações onde é hoje a sede da AABB.

Essa época, nas rodas de conversa, o assunto era o primeiro homem a entrar no espaço rumo a lua, o Russo Yuri Gagarin e a renúncia de Jânio Quadros. Entre Passos e Itaú estava sendo preparado o asfalto, que foi feito no início do governo de Magalhães Pinto. Com a terraplanagem, formou-se ali naquelas imediações, abaixo de um barranco, um poço com pouca correnteza, com uma árvore oferecendo uma confortável sombra com várias pedras servindo de assento, e uma grande vegetação de arbustos escondia eventuais pescadores da vista de quem passava pela recente rodovia a ser asfaltada.

Conforme combinado, no domingo pela manhã, fizemos a lista dos necessários para uma boa pescaria. Vara com pequena chumbada e anzol olho de mosquito, um canecão cheio de iscas “minhocas”. Fizemos uma vaquinha, “caixinha”, e enchemos um embornal de pão com salame e algumas garrafas de Tubaína, uma pequena frigideira e um vidro com óleo. O Dão que, mais tarde viria ser funcionário do Saae, levou seu bonito e afiado canivete para abrir e limpar os Carás e Lambaris para uma fritada.

Almoçamos e, em pouco, já estávamos sentados no local da pescaria sentindo os beliscões nos anzóis, fisgando os sonolentos Carás e os espertos Lambaris, para mais tarde ali fazer uma boa fritada. Fogão improvisado com pedras e uns gravetos, muita isca, tudo estava perfeito. Até que num determinado momento, sem que percebêssemos, surgiu a nossa frente um senhor forte, bem trajado, de chapéu, com um revólver na mão dizendo: “Sou delegado e vocês estão presos!” Silêncio geral. E ele continuou nos assustando: “Houve um roubo aqui nessas imediações e eu estou investigando.” Deu uma busca geral em nós e com o revólver em punho, tirou todo nosso dinheiro e nossos relógios.

O Olímpio tinha acabado de comprar um Mondaine “zero bala”. O meu, uma beleza de relógio, um Lanco modelo Onze com pulseira Champion comprado do Loide Cigano. E assim nos tomou os relógios, todo o dinheiro, e colocou tudo em seu bolso. O nosso colega Alemão, tremendo e chorando, entregou a ele o embornal com a matula. Ao ver o que tinha dentro do embornal, tudo foi jogado no chão. O Dão tentou com o pé esconder seu canivete na terra e o malandro, que se passava por delegado com o revólver em punho, viu: “Não estou falando, são todos bandidos, e você aí do canivete, vai ser o primeiro a levar um tiro.” Todos tremiam de medo. O Alemão, o mais medroso, chorava sem parar. O suposto delegado que na verdade era um ladrão, fez a cata dos relógios, do dinheiro de todos, subiu o aterro e, a pé, ganhou a rodovia rumo a Itaú apontando a arma e dizendo: ”Se vocês voltarem aqui para pescar vão todos presos”.

Voltamos sem os relógios, bolsos vazios, sem o dinheiro, com as varas e alguns Carás e Lambaris nos embornais e, cada qual depois do susto, mostrava sua valentia: “Eu não enfrentei ele por causa do revólver”! “Teve uma hora que quase pulei no seu pescoço”! “Eu só não lutei com ele de medo do revólver disparar”… Sempre que encontro com algum desses amigos lembramos emocionados dessa nossa pescaria, e desse nosso susto que tivemos daquele assalto à mão armada que para aquela época, há mais de 60 anos atrás, era uma coisa muito alarmante.

Enfim, quando contávamos sobre esse assalto, o povo ria achando que era uma brincadeira, uma invenção, uma mentira de pescadores… mas nós sabemos que nesse caso, foi verdade de pescador!
É o tempo passando e a gente “Memoriando”!