Opinião

Mobilidade mental

POR GILBERTO ALMEIDA 

4 de novembro de 2021

“É impossível progredir sem mudanças, e aqueles que não mudam suas mentes não podem mudar nada” – George B. Shaw. O Brasil tem empreendido muitas discussões sobre mobilidade urbana. As cidades a medida que crescem, passam a sofrer com graves problemas de transporte e em geral não conseguem resolver os problemas de infraestrutura e trânsito que a cada dia se agravam mais, seja por omissão, por incompetência ou mesmo por não se sentirem atraídos por projetos que revertam a curva descendente caótica que transforma as cidades em uma verdadeira colcha de retalhos.

Passos não é muito diferente disso. Tudo começa na aprovação de novos loteamentos e área de expansão urbana, que nem sempre conseguem imaginar o crescimento da cidade exigindo grandes corredores de trânsito, sinalização e controles efetivos de velocidade e seletividade de veículos de acordo com a região e zoneamento. Louve-se a iniciativa do então Prefeito Carlos Renato Lima Reis de elaborar uma proposta do novo plano diretor que certamente tratará desses temas e que contou com a incontestável assessoria da Fundação João Pinheiro. O atual governo municipal só fez atrasar, quando recolheu de volta o projeto do Legislativo e na reta final do primeiro quarto do mandato, só então o projeto volta ao legislativo, sem que sejam divulgadas alterações relevantes em seu texto. Se foi apenas pela vaidade da autoria e o velho “embromation” confesso que não me assustarei.

Outro aspecto fundamental da infraestrutura urbana para garantir a mobilidade, está diretamente ligada à manutenção do pavimento das vias públicas, em especial dos corredores de trânsito e a implantação de uma efetiva sinalização de trânsito incluindo aí fiscalização eletrônica de velocidade ao invés dos tenebrosos quebra-mo

las. Em 1997 o então secretário de Planejamento Dr Roque Piantino, iniciou um inteligente plano diretor de sinalização de trânsito, onde era medido o impacto de uma alteração em toda a microrregião, mas tudo foi abandonado e acho que nem mesmo arquivado pelos governos posteriores, continuando o arcaico modelo de mudar a mão de uma rua atendendo pedidos políticos locais.

O rodoanel que vai retirar o movimento de caminhões que hoje obrigatoriamente passam pelo centro da cidade, é outro tema que precisa merecer toda a atenção de nossos gestores. O fluxo de caminhões que vêm da Rodovia Deputado Humberto de Almeida, seja da cidade de São João Batista do Glória, seja da Usina Açucareira e fábrica de fermento ou mesmo do distrito Industrial 1, chega a atingir a marca de 50 mil caminhões de carga por ano, sacrificando não somente o pavimento urbano e o trânsito do centro da cidade, como principalmente o sossego e a segurança dos moradores.

Que o digam os moradores da Avenida Amazonas! A iniciativa de pelo menos uma alça do rodoanel, ligando diretamente a Passos/Glória à MG 050 foi idealizada quando da construção do distrito industrial há mais de 40 anos. E onde estão nossas lideranças, nossa capacidade de mobilizar para conquistar obras verdadeiramente transformadoras e que nos permitam alcançar o nível de desenvolvimento que desejamos? Passos está cansada de receber pequenos mimos do governo e de emendas parlamentares, enquanto assiste outras cidades menores conseguirem rigorosamente 10 vezes mais, o que ficou provado na visita recente do governador Zema à nossa região.

Finalmente, é impossível pensar em mobilidade urbana sem tratar dos transportes coletivos. Este assunto, uma verdadeira pústula nas gestões públicas passenses, parece que não merece nenhuma atenção dos gestores. Desnecessário mencionar os desacertos passados que até hoje provocam ausência de soluções e de planos que possam garantir ao povo de Passos condições de locomoção. Sucessivas prorrogações de uma licitação que deveria ser realizada em seis meses e nada acontece e tudo cada vez mais apodrece. Ninguém contesta o argumento do governo atual de que a licitação deve ser precedida de um estudo para estabelecer o novo sistema, entretanto, não são conhecidas medidas concretas neste sentido e lá se vai um ano de governo.

Os responsáveis pelo governo municipal que se mostram compromissados com a geração de empregos, precisam saber que novos empreendimentos focam muito na questão da mobilidade urbana, saúde pública, educação., segurança e habitação. É necessário que nossas mentes brilhantes encontrem maior “mobilidade mental” e o caminho da mudança, a não ser que desejem, como cartão de visitas a empresários, mostrar o vergonhoso estado do PSF São Francisco, enquanto o povo “comenta mas não inventa”, que há muito dinheiro nos cofres municipais.

GILBERTO BATISTA DE ALMEIDA é engenheiro eletricista e ex-político, escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna.