Opinião

O nome que falta

POR ALEXANDRE MARINO

22 de outubro de 2021

O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp) contém 382 mil entradas, ou verbetes, de acordo com a informação da Academia Brasileira de Letras (ABL), que se atribui, como tarefa essencial, o cultivo do idioma e da literatura brasileira. Dois dos mais importantes dicionários de Língua Portuguesa publicados no Brasil, o Houaiss e o Michaelis, contabilizam, respectivamente, 230 mil e 167 mil verbetes. Entre tantas palavras, não faltam termos chulos ou pejorativos, para se xingar com elegância ou partir para a baixaria.

Não faltam, mas não há como fazer um levantamento de todas as expressões possíveis para se xingar um indivíduo para quem todos os xingamentos parecem brandos demais. Pode-se buscar no dicionário uma coleção de palavras de acordo com sua classificação gramatical – substantivos, verbos, adjetivos – mas não por objetivo de uso. Assim, para se dirigir a uma pessoa vil, abjeta, é preciso usar a imaginação ou deixar que a raiva ative seus neurônios para que surjam, do fundo das entranhas do cérebro, expressões suficientemente intensas ou rascantes.

Em último caso, talvez seja preciso criar uma palavra nova, que nunca foi pronunciada ou ouvida, muito menos dicionarizada, para se descrever com precisão o caráter do elemento. Ele é, certamente, um criminoso, mas se passamos por ele na rua e o chamamos assim, é possível que apenas olhe de lado, dê um sorrisinho, ajeite a gravata e continue em frente. É um cínico, com certeza, mas esse adjetivo só lhe provocará cócegas. Vale o mesmo para expressões como patife, estúpido, calhorda ou crápula.

Dizer que é corrupto é uma acusação grave, mas mentiroso que também é, talvez responda que não e mude de assunto. Ele dará risadas para quem lembrá-lo que seus filhos vivem nababescamente, comprando mansões de milhões de dólares ou fazendo viagens de matar de inveja os sheiks árabes, a Nova York ou Dubai, tudo isso com dinheiro que não é deles. Há uma lista enorme de fatos que comprovam que esse adjetivo lhe encaixa bem, mas a resposta será apenas um muxoxo de desprezo – a não ser que o xingamento venha de uma mulher. Porque, misógino e machista que ele também é, devolverá com uma baixaria, aos gritos e dedo em riste, demonstrando, mais uma vez, o quanto é covarde e violento.

Não vale a pena chamá-lo de dendroclasta, embora todos saibamos que é um destruidor da natureza, ou de futre, homem desprezível, ou mesmo de misólogo, por sua aversão à lógica e à ciência. É preciso usar uma palavra igualmente violenta, que derrube muros, lhe quebre os cornos e provoque uma convulsão. É o mínimo que merece. Energúmeno não seria a palavra adequada, porque ele não conhece o significado e poderia soar muito erudita. Parece mesmo possuído pelo Demônio, mas dá a impressão de que, tendo vendido a alma, está bem pago e protegido.

Como é um adorador de armas, que gosta de ser fotografado portando um fuzil ou uma metralhadora, seria de bom tom descrevê-lo como um assassino, até porque é acusado pelas 600 mil mortes por Covid aqui ocorridas desde que ele tomou conta do pedaço, há pouco mais de mil dias. São 600 mortes por dia. Outro adjetivo que se aproxima do ideal é genocida, ou seja, indivíduo que promove o extermínio deliberado, parcial ou total, de uma comunidade, de um grupo étnico, racial ou religioso.

É público e notório que desenvolve estratégias deliberadas de extermínio de nações indígenas. Sua omissão multiplicou a fome e a miséria. Também é público e notório que ele é admirador de milicianos, torturadores e ditadores. Enfim, um indivíduo do Mal. Por várias razões, ou simples coerência, também poderemos chamá-lo de déspota ou tirano.

Como nomear um sujeito que demonstra absoluto desprezo pelos doentes, pelos miseráveis, pelos idosos, pelos mais necessitados, quando sua obrigação seria a de melhorar a vida dessas pessoas? Há quem o trate por capiroto, cafuçu, maligno, pé-cascudo, satanás, coisa-ruim, mofento, aborto fracassado, castigo de Deus. Mas também há quem o chame de mito, palavra que nos dicionários tem sinônimos como absurdo, devaneio, fantasia, fantasma, lenda, invenção. Portanto, até que a sabedoria popular encontre o termo que melhor o descreva, vamos chamá-lo simplesmente de Inominável. Descartemos a alternativa de dizer-lhe o nome, porque dá um azar danado.

ALEXANDRE MARINO, escritor e jornalista em Brasília/DF, escreve quinzenalmente às sextas nesta coluna.