Opinião

Pensamentos sobre as palavras e a literatura

POR ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO

14 de outubro de 2021

Lembrei-me do grande poema “O lutador”, de Carlos Drummond de Andrade, em que ele, sabiamente, diz “Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã. São muitas, eu pouco. Não me julgo louco. Se o fosse, teria o poder de encantá-las. Mas lúcido e frio, apareço e tento apanhar algumas para meu sustento num dia de vida.” Nesses célebres versos, Drummond nos transmite a ideia de que o exercício da escrita costuma ser um trabalho bem mais árduo do que de inspiração momentânea e fluência fácil. Não há como discordar.

Na realidade, quem escreve se vê sempre diante de um dos exercícios que mais exigem concentração. Sim, escrever é fruto da luta por palavras, por ideias, por necessidade de compartilhamento do que se pensa. Escrever representa um desafio muito maior do que ler. Escrever é estar extremamente só diante de si para tentar se oferecer ao mundo. Não faltam ocasiões em que as ideias são tão intensas que a confecção do texto brota fácil como os desejos de comer, andar, amar. Noutras e muitas vezes, segundo a linguagem tão bem arquitetada por Drummond, temos que sair à obsessiva caça das palavras que o constituirão.

No transcurso dos anos, aquele que se dedica à escrita passa a nutrir suas preferências por algumas em vez de outras e também tenta aprimorar o estilo de escrever. Num texto de jornal, a busca da clareza, da concisão, das palavras mais compreensíveis, do dizer o máximo com o mínimo de frases me parece ser um norte para quem arrisca a se expor. Claro que os jornais se compõem em geral de fato/notícia e opinião. A pura escrita dos fatos sempre foi mais simples do que apresentar o pensamento. E trazer a opinião, além da procura das palavras ideais para expressá-la, significa ainda um exercício de empatia, momento em que quem escreve precisa se imaginar no lugar do leitor.
Será que fui claro? Será que o texto foi bem recebido? Será que consegui atingir o público para fazê-lo ao menos refletir sobre o que eu escrevi? Será que adquiro mais leitores ou somente escrevo para um certo limite dos que já gostem dos meus textos?

Creio que são questões que acabam ocorrendo com quem escreve. Mesmo que normalmente nem paremos tanto para pensar nisso, não há como negar que são reflexões subjacentes ao ato da escrita. Ao longo de mais de um ano e meio, já durante a trágica crise sanitária, tenho conseguido sustentar os temas literários, na esperança de tornar os livros partes do cotidiano da maioria das pessoas ou torná-los sempre mais acessíveis e, assim, diminuir os eventuais limites que o assunto literatura possa impor.

Ler sempre mais significa um alcance inegável em termos de conhecimento, de capacidade de expressão, de desenvolvimento da escrita e do pensamento num mundo em que as comunicações são tão instantâneas e fragmentadas. Enquanto as polêmicas do dia a dia se esvaem numa rapidez geométrica, os grandes escritores permanecem, as grandes obras permanecem. A eternidade da literatura se transforma, então, em um privilégio perante tantas controvérsias que terminam no limbo do descartável. A literatura consiste em retratar a nossa essência, em nos transmitir a fundo o que nutrimos de virtudes, defeitos, prazeres, dúvidas, angústias, num retrato o mais fiel da complexidade humana, ainda que em circunstâncias diferentes de tempo e espaço.

A literatura nos permite estar séculos atrás, sob os delírios de Dom Quixote, no romance monumental de Miguel de Cervantes, cujos dramas transpassam épocas. A literatura nos transporta para o Rio do século XIX, com o estilo único de Machado de Assis e as perspicácias de Manoel Antônio de Almeida. A literatura nos leva à atraente Rússia e à alma de seu povo nos conflitos espetaculares narrados por Dostoiévski e Tolstói. A literatura nos oferece o realismo fantástico da Colômbia de Gabriel Garcia Márquez, as críticas mordazes de José Saramago, mas também nos apresenta a sabedoria universal do sertanejo de Guimarães Rosa e o verbo cáustico, seco e direto de Graciliano Ramos.

A literatura nos oferta o sarcasmo de Eça de Queiroz, “Os cus de Judas”, de Lobo Antunes, os contos malucos de Rubem Fonseca e os horrores do “Arquipélago Gulag”, de Alexandre Soljenítsin, nas terríveis décadas de Stalin.
A literatura nos faz embarcar no impressionante “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, nos brilhantes “Sermões”, do Padre Antônio Vieira, em “A Última Tentação de Cristo”, de Nikos Kazantzakis, e na violência urbana dos romances policiais de Patrícia Melo.

A literatura nos traz tanto a sabedoria clássica de Shopenhauer, quanto os ensinamentos do submundo da prostituição de Bruna Surfistinha. A literatura nos faz imersos nos absurdos de Kafka, no existencialismo filosófico de Albert Camus e nos faz aportar na cultura da Bahia raiz de Jorge Amado. A literatura nos conduz às análises dos adultérios de Emma Bovary e Ana Karênina, à tormentosa sucumbência do Padre Amaro aos pecados, à criatividade de João Ubaldo Ribeiro, aos verbos profundos de Clarice Lispector e Raduan Nassar e aos belos romances de Milton Hatoum.

ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna ([email protected])