Opinião

“Torto Arado”, de Itamar Vieira Junior

POR ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO

13 de Maio de 2021

Ano passado, abordei, neste espaço, um ensaio de Laurentino Gomes, “Escravidão”, volume I, em que o autor nos transmite registros históricos daquele que, sem dúvidas, foi um dos períodos mais bárbaros da civilização e cujas raízes são mais profundas do que as referentes à descoberta das Américas. Impossível não repudiar a crueldade de que foi vítima a raça negra durante os séculos em que esteve a serviço dos objetivos de quem detinha poderes e terras para utilizá-la como bem entendesse, inclusive como mera moeda de troca.

O fato é que, mesmo após a abolição da escravatura, a maior parte dos negros, que vivia da força de seu trabalho na terra em grandes fazendas do nosso território, ainda estava submetida a condições subumanas que não diferiam muito do tempo da escravidão. Era-lhe concedido apenas o necessário para morar e comer em troca de seu trabalho. Livres oficialmente, mas sem nenhum respeito aos padrões de dignidade.

A propósito, cabe dizer que o trabalho em condições análogas às de escravo ainda existe atualmente em alguns lugares do Brasil e é criminalizado pela legislação. Há muitas ações em curso na Justiça para responsabilizar os que aderem a tais artifícios em suas propriedades rurais. “Torto Arado” representa um belo romance, que possui, como tema, exatamente os eflúvios dos trágicos momentos da escravidão em um período que já abrange décadas até recentes do século XX no Brasil.

A obra é bem recente e vem repercutindo bastante nos círculos literários brasileiros. Seu autor, Itamar Vieira Junior, nasceu em Salvador, em 1979. Geólogo e doutor em estudos étnicos e africanos pela Universidade Federal da Bahia, já possui também outras publicações, mas “Torto Arado” lhe rendeu prêmios e o reconhecimento nacional.

Apesar dos pensamentos que tal romance nos impõe em relação às dores de atrocidades inesquecíveis, os ingredientes de “Torto Arado”, como literatura que é, residem, sobretudo, no ato de contar uma boa história, com enredo bem construído, personagens fortes e uma escrita fluida, que mescla a dura realidade com muitos instantes de um lirismo comovente.

Ainda lhe resta o trunfo de que a captura do leitor ocorre logo nas primeiras páginas. Um ato decisivo, que resulta da travessura de duas crianças irmãs, Belonísia e Bibiana, em razão do fascínio que sentiam por uma faca misteriosa da avó, desencadeia toda uma trama repleta de sofrimentos e atos típicos das tradições religiosas e místicas da raça negra, além da luta de muitos de seus membros por direitos legítimos que lhes eram sonegados por patrões impiedosos.

São fartos os momentos em que o amor, o desejo carnal, as injustiças, a ânsia de crescimento pessoal, os atos de violência doméstica, as batalhas agrárias e as mortes de toda natureza tocam as emoções de quem já está, desde o início, tomado por suas frases.

Por outro lado, não deixam de existir a felicidade, a alegria infantil das reuniões festivas e religiosas, o amor ao cultivo da terra, o amor à própria terra em que aqueles negros viviam, o amor à culinária e até os fluxos de amor próprio que lhes induziam a autoestima de ser o que realmente eram.

Da mera curiosidade travessa das duas meninas, nasce, então, o relato das origens de sua família em gerações diferentes, sob vozes narrativas também diversas e com todos os conflitos e demais circunstâncias das trajetórias de seus ascendentes, num lapso de tempo apto a harmonizar atitudes e valores de geração para geração.

Se à literatura cabe transpor para as páginas o que há de mais humano em nossa essência, diga-se que Itamar Vieira Júnior consegue extrair de “Torto Arado” este objetivo. Por se tratar de um tema em que as tendências de vitimização da raça negra costumam ocorrer, percebe-se que Vieira procura criar personagens que fujam ao máximo de rótulos preestabelecidos.

Torto Arado” significa, aliás, um passeio na bela e simples forma como escreve o autor. O belo, muitas vezes, está no simples, e nunca é demais reafirmar que a verdadeira literatura se nutre de conteúdo e forma. Aqui, é nossa língua que está em jogo, inclusive em várias expressões próprias da cultura de seus personagens. Na síntese dos dizeres do grande escritor Milton Hatoum, “um texto épico, lírico, mágico e realista”.

P.S. Para lamentar profundamente a morte da amiga e escritora Hilda Mendonça. Ao terminar o envio do texto à Folha, soube do triste episódio. Hilda, sua generosidade e obra não serão jamais esquecidas. Os livros compensam sempre a inevitável finitude dos corpos. Descanse em paz.

ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna ([email protected])