Opinião

“Memorial do Convento”, um clássico de José Saramago

POR ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO

15 de abril de 2021

Quando publiquei meu livro em 2017, em um dos textos selecionados expus as experiências que mantive com o extraordinário escritor português José Saramago, recebedor do único Nobel de literatura em língua portuguesa e já falecido em junho de 2010. Eu dizia que, entre meados dos anos 90 e o começo do século XXI, me dediquei à leitura de várias de suas obras, inclusive “o Evangelho Segundo Jesus Cristo” e “Ensaio sobre a Cegueira”, talvez as mais conhecidas.

Naquele início de século, ressurgia entre nós, sob a direção de Paulo Faria e a edição de Arlete Porto e Marco Túlio Costa, o jornal “Gazeta de Passos”, que conseguiu se manter por uns dois a três anos e para o qual tive a honra de colaborar ao lado de expoentes da terra como os escritores Alexandre Brandão, que vive no Rio de Janeiro, e Alexandre Marino, que reside em Brasília e vem publicando seus textos aqui nesta página recentemente.

Inebriado com a criatividade de Saramago, escrevi para a então “Gazeta de Passos” uma resenha sobre “Memorial do Convento”, o livro que começaria a torná-lo mais conhecido no Brasil e que lhe rendera premiação em Portugal. Pois em nome da imortalidade do gênio literário que ele representa e com as costumeiras alterações que o tempo impõe à escrita, compartilho com vocês, nos parágrafos seguintes, aquele texto.

O romance “Memorial do Convento”, a bem dizer, introduziu José Saramago no círculo literário brasileiro. Sem nenhum exagero, o que, a princípio, me aflora é qualificá-lo de excepcional. A obra tanto me absorveu que, após a leitura de aproximadamente 50 páginas, procurei marcar a lápis suas frases e trechos de maior impacto.

A narrativa se reporta à construção de um convento de frades pelo rei D. João V durante o século XVIII. Tal edificação se dera em virtude de uma promessa daquele monarca para que sua mulher, a rainha, engravidasse. Daí advém todo o fluxo do enredo, também sob outras personagens marcantes, como o casal protagonista Baltazar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas, o padre Bartolomeu de Gusmão e o músico Domenico Scarlatti. Muita imaginação.

De se notar, todavia, como sempre ocorre a Saramago, que as personagens e o respectivo enredo sempre se constituem em campo propício para suas frases repletas de sarcasmo sobre os poderes monárquico e eclesiástico. Ateu convicto, destila, no decorrer do romance, todo o seu poderoso verbo em nome das críticas às religiões e ao rei que ordenava a execução daquele empreendimento bizarro por causa de uma promessa.

Ao passo que a obra evolui, Saramago ressalta o absoluto contraste de tais poderes com a situação de penúria da classe operária, cuja mão de obra se fazia necessária para erguer aquele imenso convento num período de mais de dez anos. Em cada um dos capítulos, os acontecimentos adquirem conotações extraordinárias que resultam de sua veia crítica e mordaz. São páginas e mais páginas de seu total de 357 em que explora ao máximo as circunstâncias que envolviam a maluca construção que somente servia aos caprichos do monarca.

Sobram sacrifícios inúteis e ridículos, além de doenças, promiscuidade, miséria, exploração estúpida de animais na realização de trabalhos, esforços hercúleos em tarefas absurdas e mortes, muitas mortes. Nada podia deter a ambição de el-rei para erguer seu convento.

Cabe dizer que Saramago se vale, em “Memorial do Convento”, de sua fecunda imaginação para expor, por meio da estética própria da literatura, os pensamentos que o aborreciam a respeito dois níveis de desigualdade e injustiça que observava nas relações políticas, econômicas e sociais, algo que costumava manifestar sempre em suas aparições nos eventos públicos e na imprensa, voz importante que sempre fora.

Quanto a seu estilo, bom lembrar que é necessário ao leitor se manter atento, pois os diálogos, em todos os seus livros, ocorrem dentro de um mesmo período e sem o recurso dos travessões ou das aspas, apenas com as vírgulas indicando a mudança de interlocutor.

Na realidade, ler José Saramago se constitui em aprendizado para os que amam a língua e se sensibilizam com as várias formas do texto literário. Demais detalhes, serão percebidos na medida em que se evoluir nas obras, que demandam, como normalmente acontece, algum período de persistência para que se possa envolver com o relato.

Por certo, aos leitores mais maduros significará um enriquecimento da cultura literária. Aos mais novos, uma espécie de prova de fogo que pode estimulá-los a aprofundar os caminhos da literatura e, em consequência, fortalecer a compreensão das diferentes características da linguagem. Assim vejo o contato com quaisquer dos livros desse nosso irmão d’além-mar.

O mundo junta no mesmo lugar o grande gosto e a grande dor, o bom cheiro dos humores sadios e o podre fétido da ferida gangrenada, para conhecer céu e inferno não seria preciso conhecer mais do que o corpo humano…

P. S. Registro o apreço que nutro pela associação “Escritores e Cia” e, em especial, pela amiga e escritora Hilda Mendonça, que me concede a obra “Mãos Amigas”, uma antologia de textos em verso e prosa de oito mulheres que integram a associação. Hilda, vocês realizam um trabalho sempre digno de admiração.

ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna.