Opinião

O clássico “A peste”, de Albert Camus

POR ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO

18 de março de 2021

Quando, dia desses, escrevi sobre “O estrangeiro”, um dos clássicos de Camus, anunciei que logo o faria em relação a seu outro grande clássico, “A peste”, por sinal, uma obra que vem muito ao encontro do que estamos vivendo há um ano, embora aborde uma epidemia circunscrita a uma cidade e não uma pandemia que abrange o mundo.

Não há como lê-la sem se deixar levar a fundo, e, de tal forma, que o imaginário do leitor acaba capturado pelas várias relações com a atual crise sanitária, o triste fato que determina os rumos de nossos passos desde os primórdios de 2020. Pleno encaixe entre ficção e realidade.

Circunstâncias como quarentena, isolamento, restrições de circulação e de liberdades individuais, medo, inseguranças quanto ao futuro, a presença de uma espécie de soro em função de vacina, além de inúmeras mortes, também integram esta obra extraordinária, o que justifica estar tão em pauta nos últimos tempos.

Sua leitura não é simples. Há um narrador onisciente, que a tudo conhece, mas que almeja contar os fatos, no decorrer de sus quase 300 páginas, sob o máximo de objetividade e uso da razão em meio a uma terra devastada pela doença. As primeiras, como bem expressa, são mais áridas, já que servem ao propósito de esclarecer como se dera o início da peste. É preciso um certo estômago, diga-se, para a exposição de alguns detalhes.

No entanto, quando vai evoluindo, oferta ao leitor não somente as dores dos habitantes de Orã, a cidade da Argélia utilizada, durante os anos 40, na construção do enredo, mas também lhe possibilita o envolvimento com os conflitos e visões de mundo de cinco personagens que conduzem o texto. Assim, não se limita ao mero relato de tantas perdas, pois vai adiante e nos induz a pensar junto com eles.

O protagonista é o médico Bernard Rieux, que se incumbe, ao lado de outros médicos, de estudar a doença e tentar incessantemente a cura dos atingidos. Cria-se então um comitê de diretrizes para a crise. Próximos a Rieux, no comitê, há o burocrata Grand, o cronista Tarrou, um emigrante que costumava escrever sobre aqueles acontecimentos, e o jornalista Rambert. Já em outras situações, surgem os episódios do estranho Cottard, que vivia à margem da lei, mas com os quais se relacionava de uma maneira ou outra.

Ficamos, portanto, expostos não somente às agruras da peste que matava em larga escala, mas às angústias de todos, que também estavam condicionadas por aquelas dramáticas batalhas pela sobrevivência. Há momentos de diálogos excepcionais em que Albert Camus os utiliza para expor a profundidade de suas meditações filosóficas. No caso, ao valer-se de tais personagens, realiza seu intuito por intermédio da literatura, este gênero fabuloso, que tenta retratar a essência humana em suas dores, prazeres, incertezas e paradoxos.

Em suas trajetórias individuais, imperam as circunstâncias que os moviam, os seus interesses próprios e os fatores que os levaram a ser o que eram naquele terrível momento. Se a epidemia representa o fio condutor da narrativa, os instantes de cada um se tornam espécies de enredos paralelos que empolgam o leitor.

A morte sempre foi um tema que norteou as criações de Camus, como expus no texto sobre “O estrangeiro”, um livro em cuja trama isso aparece com clareza. Agora, a questão do fim inevitável ressurge ainda mais evidente, já que sob a tragédia de uma epidemia. Mas a certeza do fim e as sombras do desconhecido não nos impedem de lutar pela vida. Eis a sina nossa sina. Eis sua mensagem.

Esta obra inesquecível nos estimula, enfim, a refletir sobre nosso eterno dilema entre vida e morte, morte e vida. Com ápice nos atos do protagonista, o médico Rieux, a luta incessante pela razão e pela vida no transcurso de perdas iminentes nos posta diante de dilemas sempre complexos.

Simplesmente não me habituei a ver uma pessoa morrer. Não sei mais nada.” Palavras de Rieux, em denso diálogo com Tarrou, quando tentava explicar ao amigo o seu empenho em salvar vidas.

ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna.