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Valor maior

POR WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA

30 de setembro de 2020

Saindo agora de quarentena do Covid-19 (duas semanas de confinamento obrigatório em casa), algumas observações se fazem necessárias: (I) o óbvio ululante, mas que ninguém acredita enquanto não é atingido pelo vírus mortal, é que todos somos passíveis de pegar a doença (ou de ser pego por ela), façamos ou não parte do grupo de risco, tomemos ou não os cuidados recomendados pelas autoridades da saúde; (II) todos temos algum parente ou conhecemos alguém próximo que foi acometido pelo coronavirus e, em decorrência, veio a falecer ou padeceu horrores, ou ainda está sofrendo em um leito de hospital. É uma doença muito debilitante e capciosa; (III) pessoas saudáveis e que a contraíram a enfrentam com certa dificuldade. Os que fazem parte do grupo de risco (idosos e com comorbidade) geralmente sucumbem; (IV) não baixemos a guarda. A prevenção recomendada, é o mínimo que devemos continuar observando; (V) amigos são importantes, valiosos. A todos os que nos acompanharam nestes dias de enfermidade, o nosso muito obrigado. Que Deus lhes retribua dez, cem, mil vezes mais!

Caminhando pelas ruas para exercitar o corpo após o período de reclusão, verifiquei que as atividades da cidade vão sendo retomadas aos poucos, retornando à rotina anterior à pandemia, embora de maneira ainda tímida. Este e muitos outros problemas continuam aí. Mas a vida segue… e logo tudo isso vai ser passado (a capacidade de esquecimento do homem é muito grande, principalmente de coisas negativas – talvez seja até um mecanismo de autodefesa psicológica… a memória apaga acontecimentos ruins). Daí, a necessidade constante de se lembrar e relembrar sempre os fatos marcantes da humanidade e que quase nos levaram à extinção ou nos causaram grandes sofrimentos e perdas. E, mesmo assim, com a história sempre presente para nos lembrar disso, ainda há os negacionistas, como, por exemplo, aqueles que negam a existência do holocausto promovido pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial (na própria Alemanha é crime negar tal fato, e em vários outros países, também).

Mas, nem só de eventos ruins devemos ser lembrados, coisas boas também foram construídas ao longo da história da humanidade. E é graças a elas que sobrevivemos e estamos aqui hoje, com quase oito bilhões de habitantes neste planeta azul. Ao longo da trajetória do homem sobre a face da terra, grandes impérios se ergueram, ruíram e sucederam-se . Alguns já se tornaram até mitos, pela sua distância longínqua no tempo, sendo vistos hoje como lendas. Mas, de tudo o que se viveu e produziu, o que permanece até hoje e que prevalecerá enquanto aqui habitarmos, as ‘coisas boas’ que estes impérios todos nos legaram, são os valores, tais como a preocupação com a justiça (Código de Hamurabi – Suméria/Babilônia), a arte, ciência e filosofia (Gregos), leis (Romanos) etc. Aqueles que não prezavam os valores inerentes ao ser humano, mas que pautavam suas conquistas apenas pela destruição de outros povos e por se apossar das terras e riquezas alheias, não legaram contribuições ao crescimento da humanidade e, hoje, caíram no esquecimento, ou são lembrados apenas pelo que destruíram e não por algo bom que possam ter acrescentado à humanidade (como o Império Mongol, só rapinagem e destruição).

De certa forma, esses princípios também se aplicam às nossas vidas e às nossas histórias pessoais. No ‘Novo Normal’ pós-pandemia, ao retomarmos nossas rotinas, que esses dias em que tivemos mais tempo para refletir sobre os acontecimentos e sobre as nossas vidas (muitos até não suportaram, entraram em depressão), sirvam para nos mostrar que não somos como os animais por nós chamados como irracionais, que são guiados apenas pelos instintos, de forma automática e irrefletida. Ou aqueles que andam pelo caminho da destruição. O que nos acompanha de forma permanente, nesta ou em qualquer outra realidade, o que nos leva a prosseguir, a construir, a crescer e gerar coisas boas para a sociedade e para o nosso semelhante, o entusiasmo pela preciosa vida que nos é dada, são os valores pelos quais optamos.

Trago à memória aqui os versos do poeta português Camões, enaltecendo conquista inédita do navegador Vasco da Gama: “Cessem do sábio Grego e do Troiano, As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandre e de Trajano, A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram. Cesse tudo o que a Musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta.” E, ainda, para concluir, as palavras do profeta das Lamentações, em meio ao caos e desesperança: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança”. Coloque em sua vida valores pelos quais valha a pena viver. Que lhe renovem a esperança em tempos difíceis. Que celebrem e promovam a preciosa vida que nos é dada. Saúde e paz a todos.

WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA, bacharel em Direito, ex-diretor da Justiça do Trabalho em Passos, escreve
quinzenalmente às quartes, nesta coluna todos.