Destaques Dia a Dia

Súplica

POR MÁRCIO NOGUEIRA

17 de dezembro de 2020

Meu Deus, sozinho no meu quarto, já quase meia noite, que vontade me deu de saber rezar! Que vontade saber de conversar com o Pai de todos nós. Fico frustrado por não saber o que fazer. Estou sofrendo por muitos. Minha vida continua muito boa! Não sei se mereço tanto. Sabe o que é meu Pai?

Estou vendo tantos sofrerem! A covid19 é que está me trazendo uma amargura imensa, como deve estar fazendo a tantas outras pessoas. A mim pouco importa ficar de quarentena, no isolamento ou que outro nome der a essa situação.

Minha angústia é com as pessoas pobres. Como o Senhor sabe, Pai Nosso, eles vivem em lugares insalubres, sem água tratada, sem rede de esgotos, em aglomerados precários. Eles não reclamam. Não sabem como reclamar. Não sabem a quem reclamar. Acredito até que eles não sabem nem pedir.

Hoje, na rua, encontrei pais chorando, mães suplicando sem saber o quê, crianças com olhares distantes e com mãos estendidas implorando migalhas. Que tristeza! Será que tem que ser assim mesmo? Estou me sentido culpado. O que já fiz por eles é muito pouco, quase nada.

O muito que posso fazer será ainda muito pouco perante essa pandemia. Tomei coragem. Mudei meu comportamento. Quero rezar, quero orar, quero conversar com o Senhor. Não sei o que falar, não sei como pedir. Deitado na minha cama, no conforto de um colchão macio, luz apagada, sem sentir frio nem fome, acredito que não serei escutado.

Reagi. Ajoelhei, como minha mãe sempre fazia. Continuei sem saber orar. Acendi uma vela. Talvez ela ilumine minha mente e ponha palavras certas na minha boca. Chorei. Não consegui proferir qualquer oração. Minha esposa chegou de mansinho, pensando estar respeitando meu sono. Ouviu meus soluços. Questionou meu choro. Me viu ajoelhado, percebeu a vela acesa. Passou suas mãos delicada pelos meus cabelos, branqueados pela vida e questionou:

–– Porque choras.
–– Porque eu não sei rezar! Estou tentando falar com Deus e não consigo.
–– Como não? Entrei aqui no nosso quarto e senti que Ele está aqui. Está com você. Está conosco. Você não está sentindo paz?
–– Estou. Respondi segurando o soluço.
–– Essa paz é Deus ao seu lado! Peça o que quiseres ele vai te atender.

Voltei para a cama, apaguei a vela. Pedi perdão por não saber rezar. Confessei meus pecados. Pensei nos pobres. Pedi luz para os nossos cientistas. Agradeci pela bela família que tenho. Pedi que perdoe nossos governantes irresponsáveis.

Pedi perdão por aqueles que não obedecem às determinações das autoridades sanitárias. Pedi perdão por aqueles que não acreditam na pandemia. Pedi perdão por aqueles que propagam essa doença. Pedi força e saúde para os médicos, enfermeiros e enfermeiras, motoristas de coletivos e para todos aqueles que tem que deixar seus lares para trabalhar por nós. Agradeci a vida saudável que temos. Adormeci.

Amanheceu. Acordei em paz e feliz. Minha esposa acordou em seguida. Me desejou bom dia.

­–– Dormiu bem? Perguntou ela.
–– Sim. Respondi e completei: Você passou as mãos no meu rosto e falou comigo enquanto eu dormia?
–– Não! Dormi profundamente e só estou acordando agora.

Então foi Ele! Concluí em pensamento. Durante o sono senti uma mão suave e afetuosa afagando o meu rosto por longo tempo e uma voz forte e meiga que me sussurrou:

–– “Você aprendeu a orar. Vamos conversar sempre de agora em diante. Dê amor e carinho aos excluídos, reparta o que puder com eles. Fique em paz.”

Duas lágrimas escorreram na minha face. Eram lágrimas de felicidade. Reparti esse segredo com a minha mulher que também derramou várias lágrimas de alegria.

MARCIO NOGUEIRA, sociólogo e escritor em Belo Horizonte. E-mail: marcio@brazilresearch.com.br