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Cássia terá o maior roteiro de turismo de caminho com a rota das Causas Impossíveis e das Rosas

Por Adriana Dias / Redação

30 de agosto de 2021

Josimar da Silva Azevedo ,proprietário da empresa Sacrum Brasilidades./ Foto: Divulgação.

Faltando nove meses, tal qual um filho desejado, Cássia aguarda pela inauguração, em 22 de maio de 2022, do Santuário de Santa Rita de Cássia – o maior dedicado à Santa no mundo. Prevendo a visita dos mais variados tipos de peregrinos a administração municipal está preparando uma série de iniciativas para fazer uma boa acolhida a todos que chegarem na cidade de Cássia MG.

Dentre as mais diversas ações está a instalação de um Plano de Turismo Religioso, a partir do conceito inovador “Turismo de Caminho”. Para isso, está em Cássia a equipe do professor doutor e proprietário da empresa Sacrum Brasilidades, Josimar da Silva Azevedo, 55 anos, natural da Ilha de Marajó, no Pará, consultor responsável pela coordenação do processo de criação e instalação do projeto. Entre as ações estratégicas sugeridas está a criação do “Caminho de Santa Rita de Cássia”, com uma rota, com roteiro, conectando os dois santuários, uma rota conectando os dois santuários com os bens culturais da cidade, ramais conectando Cássia com municípios do entorno e duas grandes rotas, a “Rota das Causas Impossíveis”, interligando a região com o Santuário Estadual Nossa Senhora da Piedade, em Caeté-MG, e a “Rota das Rosas de Maio”, que integra o Santuário Nacional Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida-SP.

O Caminho de Santa Rita de Cássia, com suas rotas e ramais, será a maior rota de Turismo Religioso do Brasil. Para explicar o “Turismo de Caminho” e as ações em andamento em Cássia, a reportagem conversou com Josimar Azevedo, que é Teólogo, com estudos em filosofia e pesquisas nas áreas do catolicismo, cultura popular, patrimônio cultural imaterial e turismo religioso.

Mestre e Doutor em Teologia, com dissertação e tese dialogando religião e cultura. Atuou, por mais de 20 anos, como professor de teologia. Foi vice-diretor de Instituto de Pastoral Regional – IPAR, coordenador e um dos fundadores do Curso Ecumênico de Teologia do Conselho Amazônico de Igrejas Cristãs – CAIC, do Instituto Universidade Popular – UNIPOP, com sede em Belém do Pará.

Coordenou a pesquisa do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural Nacional – IPHAN, que inventariou o Círio de Nazaré de Belém do Pará para reconhecimento como Patrimônio Imaterial da Cultura Brasileira, hoje patrimônio mundial. Colaborou, como assessor do Setor Cultura da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, na instalação da Pastoral da Cultura em nível nacional.

Foi o primeiro Coordenador Geral da Pastoral PUC Minas, responsável pela instalação do programa nos vários campi e unidades da Universidade. Atuou, como apoio à chefia, da Secretaria de Assuntos Comunitários – SECAC PUC Minas, participando da criação e coordenação de vários projetos culturais como “MPBQuarta”, “Sexta de Música Erudita”, “Concertos Dominicais Peter Lund”, entre muitos outros.

Foi fundando e coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Pastoral da Cultura – NEPAC PUC Minas, onde criou e coordenou uma série de projetos significativos de intervenção social nos campos da cultura e do turismo religioso, entre eles, a Plataforma Digital para cadastro de bens culturais das comunidades locais “Santuário Digital” e o Programa “Guardiões do Patrimônio Cultural”, que habilita jovens para atuação na área da conservação preventiva do Patrimônio Cultural, produzindo emprego, renda e cidadania.

É membro fundador do Instituto Casa Comum – ICC, onde atua, como parceiro, em vários projetos nos campos da arte, da cultura e da formação para cidadania. É um dos fundadores da Empresa SACRUM Brasilidades, especialista em consultoria e gestão em Turismo e Cultura, com foco em Turismo Religioso de Caminho, com expertise na instalação e desenvolvimento de Rotas e Roteiros que valorizam o Patrimônio Cultural, a Religiosidade e o Turismo de Base Comunitária, integrando comunidades locais, turistas e empresas em um ambiente de negócios e de desenvolvimento social.

É o responsável pela instalação e gestão da maior rota de Turismo Religioso do Brasil, o Caminho Religioso da Estrada Real – CRER, colaborador, na parceria com o SEBRAE Minas, na instalação da Rota Nhá Chica e, agora, atuando na consultoria para o Plano de Turismo Religioso da cidade de Cássia MG.

Folha da Manhã – Como você e sua empresa foram ‘garimpados’ para fazer este trabalho em Cássia?

Josimar – Nossa empresa, a SACRUM Brasilidades – termo em latim que faz referência ao osso de sustentação da coluna e vertebral e quer dizer sagrado, foi criada por nós, para desenvolver as comunidades locais através do Turismo. Somos dois sócios, eu e prof. Camilo de Lelis Oliveira Santos Ribeiro, que também é teólogo, uma equipe interna, com três pessoas, e um grupo grande pessoas e instituições que atuam como colaboradores em projetos específicos. A SACRUM Brasilidades é uma empresa de Gestão em Turismo e Cultura, com o olhar voltado para o Turismo Religioso de Caminho. É pelo caminho da vida que a sociedade produz Cultura e é no interior da Cultura que o ser humano produz Religião para dar sentido, significar sua existência, na forma de histórias, memórias e identidades. Toda esta riqueza imensurável está codificada e materializada no Patrimônio Cultural e constitui referência fundamental para o Projeto de Vida das Comunidades Locais. O Turismo faz referência à uma condição fundamental da existência humana, o homo viator, e possui uma relação estreita com a Cultura. Caminho, caminhante e caminhada, constitui um único movimento que faz girar a existência humana e a vida como um todo. Viver é pôr-se a caminho! O Ser Humano é um eterno viajante, sempre explorando novas rotas, buscando novos encontros, novas experiências, infinitamente. A relação entre ser humano, caminho, cultura e religião, codificada no Patrimônio Cultural, material e imaterial, dos diversos grupos humanos, na perspectiva do Turismo, constitui o grande valor e o grande negócio da SACRUM Brasilidades. A Cultura é a base e a justificativa do Turismo! O Turismo dinamiza e monetiza a Cultura! O protagonismo das comunidades locais e a valorização das riquezas de seu ambiente natural e cultural, que constituem a identidade do Turismo de Base Comunitária, serão o ponto de partida para a integração de turistas e empresas em um grande ambiente de negócios e de desenvolvimento humano e social, capaz de conjugar economia e sustentabilidade ambiental, mercado e inclusão social, capital e salvaguarda do Patrimônio Cultural, lucro e justiça social. Este é o grande investimento e a grande causa que estão no radar dos grandes negócios produzidos pela SACRUM Brasilidades. Agora, respondendo diretamente a sua questão, o convite para este serviço é fruto da parceria da SACRUM com o SEBRAE Minas em outros projetos. O Gerente Regional Leonardo Mol foi o grande articulador desta nova empreitada.

FM – Como é formada a equipe que está fazendo o trabalho de levantamento em Cássia?

Josimar – Nossa equipe é composta pela turismóloga e gestora gastrônoma Flávia Fernandes Fialho, responsável, no projeto, pela rede de apoio aos turistas: hospedagem, alimentação, segurança, saúde e atrativos turísticos; Lara Meireles, graduanda em Publicidade e Propaganda na PUC Minas, responsável pela parte de Comunicação e Marketing, e o nosso guia e pesquisador em caminhos religiosos, Paulo Clebis Fernandes Fialho, responsável pelo desenho do caminho de Santa Rita de Cássia. A SACRUM, como consultoria contratada pelo SEBRAE Minas, presta serviço à equipe de Cássia, que é quem protagoniza e é responsável por todo o trabalho, de fato. Entre aqueles que estão diretamente envolvidos nesta primeira fase do projeto estão: Padre Júlio César Agripino, da Paróquia Santa Rita de Cássia; o prefeito municipal, Rêmulo Carvalho Pinto, o Reminho; a secretária de Desenvolvimento Social e Habitação de Cássia, Olga Aparecida Borges Bastos de Oliveira, que é mestre em Desenvolvimento Regional; a secretária paroquial, Adriana Cristina Alves Araújo; a designer gráfico, proprietária da D’Comunicação e Marketing, Maria Auxiliadora Borges; a diretora da DTTV, Andréa Salerno Miguel Sousa; o auxiliar de mídias sociais, Luís Henrique Silva Fernandes Alonso e da assessoria e execução de projetos arquitetônicos, Tiago Antônio de Castro. Estas pessoas diretamente envolvidas já estão se reunindo desde o início do mês de agosto, com o objetivo de apresentar os assuntos referentes ao Novo Santuário, sempre na perspectiva do Turismo de Caminho. Outros atores importantes estão colaborando com informações e orientações, coletadas em uma pesquisa e em reuniões. São estes: padre Leandro José de Melo, da Paróquia Santa Rita de Cássia; Ronaldo de França Paiva, do Conselho de Turismo – CONTUR; o empresário Kairo Lemos, do Villato Café; José Eduardo de Almeida e Kleiber Jorge da Silveira, dos Circuitos Turísticos Nascentes das Gerais e Canastra; a empresária Nilzilane Borges de Andrade, da F. H. Uniformes; Mariangela Pinto de Azevedo Barros, do Conselho do Patrimônio Histórico e Cultural; Haroldo Alves da Silva, do Meio Ambiente; Adriana Cristina Alves Araújo, religiosa; Marcos Alessandro Marquete Barbosa, da Comissão do Santuário; Karina Santos Rocha, dos SEBRAE; Mariangela Batista Silva, da Prefeitura Municipal – Sala Mineira do Empreendedorismo e, ainda, o secretário municipal de turismo Diego Borges Dias e o coordenador da Secretaria de Cultura Dannilo Rodrigues Silveira, todos muito empenhados em construir um futuros melhor e sustentável para a cidade de Cássia e região.

FM – Sua equipe já realizou a instalação de dois outros roteiros de caminho?

Josimar – Sim, somos responsáveis pela instalação de dois roteiros religiosos, que são o Caminho Religioso da Estrada Real – CRER, atualmente, a maior rota de turismo religioso do Brasil, que vai do Santuário da Piedade, em Caeté MG, ao Santuário de Aparecida, em Aparecida SP. Este caminho foi inaugurado em 3 de setembro de 2017, e a Rota Nhá Chica, onde participamos, como consultores do Sebrae Minas, na organização dos eventos de instalação do caminho, em 2018. Esta rota vai de Tiradentes, passando por Santo Antonio do Rio das Mortes MG, lugar de nascimento da Beata, Baependi MG, onde a Nhá Chica viveu e se tornou Santa, seguindo até São Lourenço.

FM – Como pode ser definido o conceito Turismo Religioso de Caminho?

Josimar – É comum pensar a viagem turística a partir do destino final. Em muitos contextos desta abordagem do turismo é o destino final, em geral associado à um lugar, que dá a identidade e a qualidade da experiência vivida pelo turista e, mesmo, as referências para mensurar os impactos deste como atividade econômica. Turismo é muito mais que uma experiência no destino final de uma viagem. Seus impactos e resultados alcançam toda a viagem, todo o Caminho. Turismo é pôr-se a caminho. O Destino é o caminho, o caminhante e a caminhada. O Destino é o caminho com tudo que o caminho tem (pessoas, natureza e cultura, Patrimônio Cultural). O Destino é o caminhante com tudo que o caminhante é (a humanidade construída e a humanidade desejada, esperada). O Destino é a caminhada com tudo que a caminhada impacta sobre o caminho e o caminhante. Cada passo que damos impacta sobre as pessoas, a natureza e a cultura. No Turismo de Caminho estão as origens das peregrinações e romarias, que estão na base do Turismo Religioso.

FM – Como funciona esta construção do caminho? Quais são as etapas?

Josimar – Nesta fase inicial, nós fazemos reuniões com a comunidade local e com todos os envolvidos na construção deste caminho. O guia de caminhos e pesquisador Paulo Fialho faz a parte de visita às localidades para o desenho e a construção das rotas. Nós construímos uma proposta de turismo religioso baseada em rotas, que serão percorridas pelos peregrinos, com toda a sua existência. A dinâmica é primeiro conectar as pessoas de Cássia – do templo tradicional com o Novo Santuário e os dois com a cidade, com a escola de música, com os artesanatos, com as associações, com as oficinas, tais como de olaria, capoeira, congada, música erudita, os equipamentos culturais, Câmara Municipal – onde foi a primeira capela da cidade -, o antigo cemitério, os bairros, integrando os bens sagrados e os peregrinos com as riquezas da cidade. A cidade interliga, por rotas e roteiros, acessa a região, por ramais, retroalimentando o turismo regional e depois conecta-se com o santuário estadual e o santuário nacional.

FM – E quais são as próximas etapas?

Josimar – Captar recursos para instalar as ações estratégicas, seguir na construção coletiva de um bom plano que dê conta da inauguração do novo Santuário e um ano de atividade de Turismo Religioso. Cássia está em uma região estratégica, aos pés da Serra da Canastra e ao lado da Serra da Mantiqueira, tem tudo para ser uma referência em turismo religioso, uma referência de desenvolvimento regional sustentável. Para conseguir este resultado é preciso uma boa governança. Neste sentido, estão previstos encontros formativos que desenvolva expertise na gestão para as pessoas e instituições envolvidas, bem como ações que desenvolva sentimento de pertencimento em toda a comunidade cassiense. O Turismo Religioso de Cássia é patrimônio e responsabilidade de todos os cassienses. São eles os sujeitos e protagonistas das ações e da história que está sendo construída aqui. Cada cassiense é responsável por colocar por colocar Cássia no mapa dos grandes “destinos” de turismo religioso. Ainda sobre as etapas, é necessário fazer um levantamento do patrimônio local, o georreferenciamento das áreas, a criação do mapa do caminho, a elaboração de passaporte e mecanismos de gestão que possam possibilitar retorno financeiro aos empresários, investidores e mesmo para a manutenção dos santuários.

FM – Quais são estas rotas e como surgiu a ideia dos nomes?

Josimar – São duas as rotas maiores, não necessariamente as mais importantes, a “Rota das Rosas de Maio”, que interliga Cássia com o Santuário de Aparecida, no Estado de São Paulo, em torno de 500 km, e a Rota das Causas Impossíveis, em torno de 600 km, até o Santuário da Piedade, em Caeté MG. Estas rotas correspondem a um caminho na mística de Santa Rita de Cássia, mas ainda precisam de validação e recursos para serem instaladas. Com relação aos nomes eles nasceram naturalmente por conta da história rica de Santa Rita de Cássia, sua relação com as rosas e, claro, por ser a santa das causas impossíveis.

FM – Quando vieram para Cássia?

Josimar – Esta nossa primeira visita, mas já nos sentimos em casa. Não conhecíamos Cássia e ficamos muito surpreendido coma as pessoas e riquezas culturais da cidade, uma receita básica para construir um case exemplar de sucesso em turismo religioso. Estamos vivendo um momento de pandemia, de crise política, econômica e civilizatória, mas aqui experimentamos um futuro promissor, animador e esperançoso não só para Cássia, mas para toda a humanidade. Maio de 2022, quando da inauguração do Santuário de Santa Rita de Cássia, será instalado, em Cássia, um Turismo Religioso inovador, baseado no movimento, na mobilidade e não na aglomeração. Este é o Turismo de Caminho. Os peregrinos vão acessar os santuários, percorrendo a cidade, chegando aqui por uma das rotas regionais. Estes peregrinos podem ser orientados a chegar na cidade, desde o início de maio, a pé, de bicicleta, off road, saindo de vários locais e chegando em tempos diferentes. É preciso organizar os eventos, distribuindo-os ao longo do mês e do ano. São as pessoas circulando pelo caminho. Esta foram as ideias apresentadas, nesta primeira visita, à comissão. A receptividade foi excelente e estamos todos muito animados e esperançosos.

FM – Estes caminhos representam recursos financeiros ao município?

Josimar – O Brasil é um país especialmente religioso, e, por isso, não é de se surpreender que os pontos turísticos religiosos atraiam milhares de viajantes todos os dias. Segundo o Ministério do Turismo existem mais de 500 festas religiosas cadastradas no órgão, além de dezenas de atrações, com motivos religiosos, na maioria dos municípios brasileiros. Também, de acordo com a pasta, o turismo religioso é um segmento que movimenta 20 milhões de viagens por ano e injeta R$ 15 bilhões em nossa economia. Então, sim. Os roteiros representam recursos financeiros e geração de emprego e renda para todos os municípios do caminho. Apresentamos, no workshop, um panorama projetando 2033, apontando para grandes oportunidades de trabalho e geração de diversos negócios. São pernoites em hospedagem domiciliar, ao longo do caminho, formação de cidadãos conscientes do papel do turismo, receptivos treinados e engajados, além de empresas parceiras. Tudo isso envolve retorno financeiro, gerando emprego e renda, além, é claro, um trabalho de evangelização refinado, uma pastoral bem organizada, com trabalho dedicado de padres, freiras e, especialmente, muitos…. muitos… peregrinos.