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Mulheres relatam histórias da rotina na linha de frente contra a covid-19 em BH

10 de março de 2021

Foto: Divulgação

BELO HORIZONTE –Covid, covid, covid”, grita a enfermeira Adileia Pereira de Jesus, a Didi, de 52 anos, quando o neto de 7 anos corre para abraçar a vó que chega de mais um plantão no Hospital Eduardo de Menezes (HEM), em Belo Horizonte. O menino sente saudade do hábito carinhoso que tinha antes da pandemia da covid-19, quando os abraços não representavam um risco à saúde pública.


O que você também vai ler neste artigo:

  • Emoção
  • Dedicação

Didi é uma das milhares de mulheres que atuam na linha de frente do combate à pandemia em Minas Gerais e que devem, mais do que nunca, ser homenageadas neste Dia Internacional das Mulheres, celebrado em 8 de março.
Para a enfermeira, repreender o neto é tão difícil quanto as nove horas diárias que passa cuidando dos 30 pacientes internados atualmente no CTI do hospital. Por lá, ela já atendeu famílias inteiras com a doença e presenciou casos difíceis em pouco mais de um ano de pandemia.

Tinha uma senhora que falava ‘eu tenho que ficar boa, porque meu marido também está doente, eu deixei ele na UPA’. E a gente sabia que ele já tinha falecido”, conta, sem conseguir segurar o choro.

Emoção

Com quase 30 anos de atuação como enfermeira, Didi também viveu, nos últimos 12 meses, o fato mais marcante na profissão: a família de uma de suas pacientes que estava internada e não resistiu foi para cima do viaduto esperar a funerária passar com o corpo. Como os velórios estavam proibidos para preservar a saúde da população, eles pediram para o carro parar, para que eles pudessem dar adeus de longe.

Até hoje, quando eu conto isso, dói. Já pensou ter uma pessoa da sua família doente e você não poder ter contato? Não poder ver a última vez, se despedir? Isso mexe muito com a gente, porque poderia ser a minha família também”, diz.

Na casa da Didi, o novo normal ganhou tons de esperança quando ela recebeu as duas doses da vacina, em janeiro, se tornando a primeira enfermeira mineira a ser imunizada.

A pandemia afetou a nossa vida pessoal, antes mesmo de chegar o primeiro caso pra gente. Afetou como mulher, como mãe, como esposa. Agora, com a vacina, sentimos um acalento, vemos o futuro com mais fé. Mas só vou ficar tranquila quando todos da minha casa tomarem também”, afirma ela, que pela primeira vez, em 30 anos de casamento, não divide mais o quarto com o marido por medo de transmitir o vírus para quem tanto ama.


Dedicação

Histórias como a de Didi no HEM não são raridade entre as mulheres que atuam na linha de frente da covid-19. A técnica de Enfermagem Sandra Prates, também funcionária do mesmo hospital, precisou pedir ao filho mais novo, de 16 anos, que fosse morar na casa do pai para que ela pudesse cumprir os plantões de 24 horas seguidas no hospital, dando suporte ao CTI e à ala de internação.

É difícil. Eu trabalho 24h e folgo 24h, mas quando eu chego em casa de manhã, eu só preciso dormir. A vida pessoal fica parada. Não só a minha, mas a da maioria dos profissionais da Saúde. Uns adoeceram, outros cansaram. Os que estão no mercado hoje são guerreiros. Damos o ombro, o braço, o coração, nossa vida, nossa família”, relata. A longa jornada de trabalho e a distância do filho dividem espaço com situações ainda mais angustiantes.

De repente, a gente se depara com perguntas como ‘Moça, eu vou viver? Eu vou sair do tubo?’. Todas essas histórias que vivenciamos diariamente e a sensação de impotência são a parte mais difícil, porque tentamos de tudo, mas não conseguimos salvar todo mundo”, diz. Há duas semanas, após receber a segunda dose da vacina, Sandra pôde receber o filho de novo em casa.

Agora fiquei mais tranquila, mesmo assim, continuo me isolando. Se um está na sala, o outro vai para o quarto. E mesmo vacinada, só fico no hospital ou dentro de casa, porque tem outras pessoas lá fora e eu não desejo isso para ninguém. Não é uma fase fácil, mas a minha fé é que tudo isso passe e o mundo se acalme”, torce Sandra.


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