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Estresse da quarentena pode desencadear transtornos alimentares

22 de junho de 2020

Foto: Divulgação

A ansiedade dos dias em quarentena, com o isolamento social e as restrições para a prática de atividade física, pode favorecer o surgimento de alguns transtornos ligados à alimentação, como a compulsão alimentar, a anorexia e a bulimia. Por isso, é importante estar atento à saúde mental e física, procurando o auxílio de profissionais capacitados quando percebemos indícios de que não estamos lidando bem com nosso comportamento na hora das refeições.

A psicóloga da Unimed Sudoeste de Minas, Mariana Parreira Lemos, explica que o atual cenário favorece a instabilidade emocional, que pode trazer como consequências a ativação dos transtornos alimentares. Assim, as mudanças emocionais advindas do estresse das circunstâncias atuais podem refletir no comportamento alimentar e as manifestações variam desde comer excessivamente, através do aumento da frequência da alimentação (os beliscadores), ou ter compulsão alimentar até impor restrição calórica severa.

As consequências do transtorno alimentar são graves e preocupantes nos dois extremos do comportamento. Diante desse atual momento em que estamos vivenciando, percebo como consequências o medo e a incerteza, que por sua vez tende a aumentar a sensação de não estar no controle que, em pessoas com distúrbios alimentares, normalmente é gerenciado com um aumento de restrições alimentares ou outros comportamentos extremos de controle de peso. Não bastasse agravar quadros de anorexia nervosa, esse comportamento se revela uma frustrada tentativa de permanecer no comando da situação. Por outro lado, sabemos que o estresse da pandemia e da quarentena ocupam um papel preponderante na degeneração de hábitos alimentares anteriormente saudáveis a despeito de se conviver com um transtorno ou não.

Mas, para quem tem a condição, o distanciamento social e as restrições do isolamento podem, de fato, manter ou piorar o problema. E isso se dá por algumas razões: menor possibilidade de se exercitar, o que amplia o medo do ganho de peso ou, no ângulo oposto, favorece o acúmulo de gordura corporal; estocagem de alimentos não perecíveis, o que leva à exposição massiva a bolachas, salgadinhos, pratos congelados, refrigerantes e afins, um potencial gatilho para episódios de compulsão alimentar; redução do relacionamento com outras pessoas ou, na contramão, maior tensão devido ao convívio com outras pessoas da casa e, com isso, usando a comida como um fonte de prazer”, explica a profissional.

Segundo Mariana, o estresse crônico, independente da pandemia, está associado a uma maior preferência por alimentos ricos em energia, com alto teor de açúcar e gordura. Por isso, muitas pessoas preferem pizza, batata frita e chocolate na quarentena.

“Preocupado ou assustado, o indivíduo procura açúcar, carboidrato e gordura para suprir a energia. Daí esses alimentos funcionarem também como uma espécie de tranquilizante natural. Mas o que parece uma solução no curto prazo se transforma em problema no longo prazo. Esse ciclo alimentar que busca conforto para o estresse na comida de pior qualidade abre caminho a desafios físicos e emocionais. Aumenta o risco de obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares, ao mesmo tempo que favorece crises de ansiedade e depressão. A pandemia pelo novo coronavírus é perigosa do ponto de vista da saúde física e mental porque coloca muitos indivíduos em situação de alerta. E o corpo humano não foi projetado para viver em estresse crônico nem para usar os alimentos como conforto”, alerta a psicóloga.

Para ela, o combate aos transtornos alimentares compreende que a pessoa procure ajuda especializada, de uma equipe multiprofissional, que envolva psicólogo, psiquiatra, nutricionista e profissional de educação física.

É preciso encontrar tempo na agenda e estipular uma rotina e, dentro dessa, inserir atividades como exercícios físicos, que possam ser realizados seguindo as determinações de isolamento social, sessões de ioga e meditação, atividades prazerosas e cuidar do cardápio. Uma dica importante é que cuide da mente e das refeições: priorizar alimentos nutritivos, ficar atento ao tamanho das porções, praticar uma alimentação consciente, focando a atenção na alimentação, evitar o ‘comer emocional’, ou seja, é preciso desassociar o alívio das tensões com o conforto da alimentação, exercitar o autocuidado, além da nutrição adequada”, finaliza Mariana.

Estratégias nutricionais

Abordando mais especificamente a compulsão alimentar, a nutricionista da Unimed, Mara Soares Rodrigues ressalta que este tipo de transtorno pode trazer diversos prejuízos para a saúde, tais como a obesidade, esteatose hepática, cálculo renal, quando a pessoa consome muito cálcio, diminuição da capacidade respiratória, apneia do sono, doenças como a diabetes tipo 2, hipertensão, níveis de colesterol alto e triglicerídeos alto, gastrite, hérnia de hiato; infertilidade, insuficiência cardíaca e problemas vasculares e levar a outros distúrbios alimentares, como a bulimia.

É possível prevenir a compulsão alimentar por meio de algumas estratégias simples. Manter um horário fixo para realizar as refeições, alimentar-se a cada três horas, evitando intervalos longos sem alimento, mastigar mais vezes e mais lentamente, manter uma dieta equilibrada aliada às condições saudáveis de sono e exercícios físicos. Ao realizar as refeições em um horário rotineiro, a pessoa consegue comer a quantidade apropriada para aquela refeição.

O hábito de se alimentar a cada três horas evita chegar faminto à próxima refeição e, assim, exagerar nas quantidades e também comer de forma acelerada. Quando estamos com muita fome, o primeiro impulso é comer tudo o que vem pela frente e repetir em seguida. Entretanto, nosso cérebro leva cerca de 20 minutos, a partir da primeira garfada, para registrar que o estômago está cheio”, explica Mara Rodrigues.

Além disso, alguns alimentos podem favorecer a saciedade, evitando que a pessoa coma sem estar com fome realmente.

Optar por alimentos com um teor maior de fibras é uma boa estratégia. As fibras são responsáveis pela nossa saciedade, de um modo geral, além das proteínas também, por exemplo: folhas verdes, como o alface, couve, rúcula e agrião; abobrinha e berinjela; frutas como a laranja, o mamão e a banana; sementes como a chia, linhaça, girassol, abóbora e gergelim; cereais integrais como farelo de aveia, arroz integral e quinoa são opções saudáveis que podem ser integradas às refeições”.