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‘Bafômetro’ detecta tumor, nova arma contra o câncer

SAÚDE

18 de janeiro de 2022

A advogada Alessandra Lacerda testa aparelho usado para detectar tumores de estômago pela respiração./ Foto: Divulgação.

Com um sopro indolor de dez segundos em um aparelho parecido com um bafômetro, a advogada Alessandra Lacerda da Silva Santana, de 28 anos, ajudou a ciência do câncer a dar mais um passo em direção ao surgimento de métodos de diagnóstico precoce mais simples e acessíveis. Essa é uma das principais necessidades dos mais de 625 mil brasileiros surpreendidos pela doença a cada ano, segundo estimativa do Instituto Nacional de Câncer (Inca).

Alessandra tornou-se uma das primeiras voluntárias brasileiras a testar um aparelho criado pelo Instituto de Tecnologia de Israel para detectar câncer no aparelho digestivo por meio da respiração. O estudo clínico iniciado nesta semana no A.C. Camargo Cancer Center, em São Paulo, deve envolver 300 participantes (com e sem câncer) até o final do ano.

A advogada não tem a doença, mas ela e a irmã fazem acompanhamento genético e endoscópico preventivo porque a mãe morreu de câncer de estômago há três anos, o pai teve no intestino e o avô materno não resistiu a um tumor de pâncreas.

“Espero que o estudo do aparelho seja positivo e ele ajude a salvar outras pessoas”, diz Alessandra.

O hospital é o único do país a participar do projeto Vogas (uma sigla em inglês para rastreamento de compostos orgânicos voláteis), esforço internacional de desenvolvimento de um método acessível e não invasivo de detecção precoce de tumores de estômago. A pesquisa tem participação de centros da Colômbia, Chile, Ucrânia, Letônia e financiamento da União Europeia.

Por meio da respiração, o aparelho é capaz de detectar compostos voláteis (fenóis, álcool, gorduras, açúcares) liberados pelas células tumorais e também por outras alterações. A máquina é tão sensível que os voluntários não podem usar desodorante, perfume, cigarro, chiclete e outras substâncias capazes de interferir no resultado do exame. O objetivo é comparar os perfis de compostos exalados por pessoas com e sem a doença.

Quando chegar à rotina dos centros de diagnóstico, o aparelho pode se tornar uma poderosa ferramenta de triagem de pacientes. Nos estudos iniciais, a capacidade de detectar tumores pelo “bafômetro” ultrapassou os 70%. Quando ele aponta alterações, a pessoa é encaminhada à endoscopia para confirmação do diagnóstico.

“Incorporar essa ferramenta diagnóstica no dia a dia seria fantástico porque hoje o exame mais precoce para câncer de estômago é uma biópsia endoscópica, exame desconfortável, que exige jejum e sedação, análise patológica e nem sempre está disponível a quem mais precisa”, afirma o biólogo molecular Emmanuel Dias-Neto, do Centro Internacional de Pesquisas do A.C. Camargo Cancer Center.

“Em grande parte dos casos de câncer de estômago, os sintomas só aparecem quando a doença já está avançada. Com essa triagem fácil de fazer, esperamos salvar muitas vidas”, diz.

A expectativa dos pesquisadores é que, no futuro, o “bafômetro” seja detecte também outros tipos de tumor. Entre os desenvolvimentos recentes na pesquisa e no tratamento do câncer, um dos mais notáveis é o avanço da imunoterapia. Esse é um conceito amplo, que envolve várias formas de estimular as células de defesa do organismo a combater os tumores com mais facilidade.

Uma das técnicas em alta é a infusão de linfócitos T geneticamente modificados. Essas células, as CAR-T na sigla em inglês (receptor de antígeno quimérico), são extraídas da corrente sanguínea do próprio doente e reprogramadas em laboratório. Um vírus modifica o DNA do linfócito para torná-lo capaz de reconhecer o câncer por meio de um antígeno tumoral (uma proteína expressa pelas células malignas) e atacá-lo.

Essa modificação genética não é um produto pronto, disponível nas prateleiras como um medicamento qualquer. Ela é personalizada de acordo com o organismo de cada paciente e só pode ser feita em laboratórios específicos, dentro de centros acadêmicos ou em instalações ligadas à indústria farmacêutica, como acontece nos Estados Unidos, na Europa, na China e em outros países.

Depois de modificadas para reconhecer o antígeno tumoral e combater a doença, as células do paciente voltam ao hospital e são injetadas de volta no doente. Antes da infusão, o paciente precisa fazer quimioterapia para que o sistema imune não ataque as células geneticamente modificadas. Só assim elas podem exercer sua ação contra o tumor.