Opinião

Você já disponibilizou hoje?

Alexandre Marino

5 de junho de 2021

Você já disponibilizou hoje? Lancei essa pergunta nas redes sociais como uma provocação, na esperança de que as pessoas comecem a se tocar de uma das maiores aberrações da língua portuguesa falada no Brasil. Como as minhas atividades profissionais são ligadas à escrita e à leitura, tenho a oportunidade de observar esses vícios. E fiz uma lista que, até o momento, reúne nada menos que 30 verbos que podem ser empregados com maior propriedade, dependendo do contexto, no lugar do famigerado “disponibilizar”.

O hospital disponibilizou 50 leitos para o tratamento da covid, quando deveria tê-los destinado. O Corpo de Bombeiros disponibilizou 30 soldados para ajudar nas buscas, quando o correto era cedê-los. Se a empresa disponibilizou um aplicativo, deveria ter liberado ou franqueado. E se a polícia forneceu, ou divulgou, os nomes dos criminosos, por que dizer que disponibilizou? Como se vê, o verbo “disponibilizar” é uma espécie de coringa que cabe em qualquer frase, mas é impreciso e leva à preguiça mental. Um vocabulário amplo nos oferece maior horizonte de conhecimentos.

Isso pode parecer uma discussão menor para aqueles que não lidam diretamente com a linguagem em suas atividades. No entanto, é importante lembrar que o idioma é um código, e a comunicação entre as pessoas depende desse código, tanto para quem emite quanto para quem recebe. Quando alguém tem um problema de saúde e procura um médico, deve explicar de forma inteligível o que está sentindo, para que o médico faça um diagnóstico preciso. E o médico deverá escolher as palavras certas ao fazer sua avaliação, de forma que também seja compreendido.

Ao falar em público, fazer uma palestra ou prestar esclarecimentos sobre qualquer coisa, espera-se que a pessoa use uma linguagem ao mesmo tempo compreensível e sedutora, sob pena de não atrair atenção e não ser ouvida. Um texto de jornal deveria não apenas conter informações corretas, como também ser redigido de forma clara e precisa, para que o leitor o leia do princípio ao fim e compreenda a notícia. Uma simples mensagem rápida pode ser melhor compreendida se for bem redigida. Escrever é uma necessidade básica, e saber construir um texto correto torna a vida mais fácil, não só para estudantes ao prestar exames, mas para qualquer pessoa, em diversas situações.

Nestes tempos de comunicação sem fronteiras, é inevitável que expressões estrangeiras invadam nosso idioma. No entanto, a adoção generalizada de estrangeirismos enriquece nosso vocabulário? A língua portuguesa é muito mais rica que a inglesa. Mas temos uma mentalidade de colonizados, o que não acontece, por exemplo, na França ou em Portugal, onde há um cuidado de barrar estrangeirismos e preservar o idioma. Nós, brasileiros, temos um certo fascínio por expressões alienígenas. Se necessário, até as inventamos. A expressão “shopping center”, que designa os grandes templos do consumo, não é comum nem mesmo nos países de língua inglesa. Nossas lojas já não promovem liquidações, mas “sales”, onde o desconto é de 50% “off”. O “marketing” da indústria divulga anúncios cheios de expressões em inglês facilmente substituíveis; os restaurantes não fazem entregas, fazem “delivery”, as escolas não promovem seminários ou oficinas, mas “workshops”; em vez de contar o fim do filme, as pessoas dão “spoiler”, e roupinhas infantis, produzidas em qualquer confecção de esquina, vêm com inscrições como “happy”, “love”, “friend”, “sweet”, etc.

Mas é comum o abuso ou mau emprego também de expressões em português, e convido o leitor e a leitora a observar. A imprensa anuncia que “a ideia é vacinar toda a população”, esquecendo-se de que “ideia” não é sinônimo de “intenção” ou “objetivo”. Não se diz mais que “a cidade se esvaziou devido à pandemia, mas insiste-se que foi “por conta” da pandemia. Os políticos não dizem “Nós temos certeza que vai dar certo”, mas afirmam que “a gente tem certeza”.

E os cacófatos? Ah, esses invadiram até a literatura, e, pior, a poesia. Certa vez fui ao lançamento de um livro de poemas. Abri o livro aleatoriamente, e o primeiro verso era: “Nunca gostei de gaivotas”. Fechei o livro e fui embora. Na literatura, no jornalismo ou em qualquer texto, eu considero o cacófato um sinal de desleixo. Se o poeta tivesse dito que “jamais gostei de gaivotas”, eu teria comprado o livro.