Opinião

Visita à Espanha

4 de Maio de 2020

Em paralisação geral – ‘urbi et orbi’ – resolvo visitar a Espanha, na península ibérica. Lá como cá, problemas mil há! No afã, a busca por novos ares para petrificados e combalidos pulmões.
Tão instigante quanto aproveitável, vou à Terra de Miguel de Cervantes, célebre autor de Dom Quixote de La Mancha.

Como que autêntico cavaleiro andante, nuances de romântica paixão, me entrego à fidalguia pela importância da situação. Não propriamente na capitania da conversão do melhor ante a decadência econômica.

Em agradável temperatura de primavera, tomado por ímpeto de hóspede de ocasião, ao chegar às cercanias de Madrid, paro num belo e aconchegante espaço artístico-musical. No alto, uma placa em reluzente madeira evidencia: “El Sueño”.

Vozerio e alaridos de copos e corpos em oportunidades de encantamento e festa. No frêmito, assíduos frequentadores – a maioria casais – brindam a vida. Olé!
Ao fundo, ambiente alegre e festivo, uma banda musical em apreço no aguardo da apresentação. Não sei como e por que me descobrem.

Não entendo. Eu? Mas… Pedem para cantar algo.
Efeito hipnótico – espanto, arroubo, fantasia… – acedo ao convite.

A canção é “Spanish Eyes”. De bom e conveniente repertório. Do poder criativo do alemão Bert Kaempfert.  ‘Ja!’ Na paridade, um costureiro de outras tantas, como “Strangers in the Night”. Quem não a ouviu na interpretação e sonoridade de Albert Francis Sinatra? “The Voice” (A Voz), “Blue Eys” (Olhos Azuis)… Ou, simplesmente, Frank Sinatra. Conhecido dentre todos os ases, o maior ‘cantante’ do século XX.

Àquela altura, a estrela da vez um latino-americano de meia pataca. Não me furto. Na fala de bom português: ora pois! Também sou gente! E quem sabe!
Entre brumas e névoas, vislumbro dezenas de olhos à espreita. Olhos que perscrutam e perseguem; invadem. Atordoam.

Ainda assim me ponho a cantar ao escrutínio de pontos orbitais de faiscantes luzes.
No relevo do acerto, e apontaria Osmar Brasileiro Filho, oftalmo de costados Alpes: são ‘ojos negros’, castanhos, verdes, azuis, amarelados, cor de mel – até de burro fugido havia em campesinas delícias.

Trazem contornos incisivos, insinuantes… Não menos questionadores e enigmáticos. Ao tempo que lânguidos.

A melodia, então, soa na complacência de atrevidos moinhos ao vento, com a deixa do falante criado Sancho Pancho, que a tudo vê e assiste. E, se não aprova, também
não desdém.

Ao término da canção – aplausos, na observância grata por meneio de bardo de não aceitável penetra. Diriam por certo Engelbert Humperdinc e Willie Nelson, esses sim: “Intrujão, usurpador!” O que, de fato, não estariam no todo errados.

No mistério do recolhimento, não distante de lantejoulas pratas e douradas, miríades estelares continuam perseguindo.

Em seguida, após o espetáculo em delirantes ‘olés’, delibero seguir adiante. Recolho-me, por assim dizer, em nostálgica cápsula de falso dever cumprido.

Deixo o espaço artístico desconcertado. Reservo-me o direito de carregar a sensação do desconexo. A invasão do oculto na subjunção de aliciantes pálpebras do poder da visão.

Quando me dou por contente e envaidecido por olhares que não só enternecem, mas aliviam a alma solitária de um obstinado e pouco inconsequente sonhador.

Ces’t la vie!
Na decência do apropriado: ‘es la vida!’

Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho, advogado trabalhista e previdenciário, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta coluna.