Opinião

Uma festa para o professor

POR ALEXANDRE MARINO

5 de novembro de 2021

Em tempos obscurantistas, o livro é uma arma poderosa – a única que os promotores da política armamentista não gostam de ver nas mãos dos brasileiros. Agora, a partir deste sábado, 6 de novembro, até quarta, 10, os passenses têm encontro marcado com esse objeto mágico, que, além de proporcionar conhecimento, desperta emoções e exercita o cérebro. A Feira Literária de Passos, ou simplesmente Flipassos, acontece pela quinta vez, como acontecerá todos os anos, por determinação da Lei Municipal 3.289/2017, que a incluiu como evento oficial no Calendário Municipal. Foi uma grande vitória da comunidade de escritores, artistas e leitores da cidade.

O homenageado deste ano é o escritor, professor e compositor passense Gilberto Andrade Abreu, que teve importante participação no movimento literário de Passos, onde nasceu em 1949. Embora residindo em Ribeirão Preto, onde leciona há 43 anos, nunca se desligou da cidade. A homenagem a ele deveria ter sido feita no ano passado, mas foi adiada devido ao cancelamento da Feira, por causa da pandemia. Este ano, além do bate-papo com Gilberto na quarta-feira, a Flipassos cumpre vasta programação, com eventos diários da manhã até a noite, em que estão previstos lançamentos dos livros “Marte declara paz”, de Marco Túlio Costa (contos), “Vísceras e sonhos”, de Sabrina Moura (poesia), entre outros; contações de histórias, palestras, oficinas, peças de teatro e apresentações musicais de dois dos mais importantes artistas brasileiros, Toquinho e Renato Teixeira.

Gilberto Abreu iniciou sua carreira como professor, no recém-criado Colégio Polivalente, ensinando História. Naqueles primeiros anos da década de 1970, o movimento cultural, não só em Passos mas em todo o Brasil, era muito forte, mas a repressão política, no pior período da ditadura militar, também. O Festival da Canção de Passos, que acontecia anualmente, movimentava a cidade. Na edição de 1971, Gilberto inscreveu duas músicas, parcerias com Raimundo Baldini (“Descompasso”) e Eustáquio Grilo (“Vai, João”). A primeira foi classificada, mas a segunda foi censurada e ficou de fora.

Na semana seguinte, enquanto fazia um curso para professor de primeiro grau, em Belo Horizonte, teve o apartamento invadido e foi preso por subversão. Passou 10 dias numa cela do temível Dops, ouvindo os gritos dos presos submetidos à tortura. Durante a prisão, conviveu com Julian Beck, icônica figura do Living Theatre, companhia de teatro experimental norte-americana, detido, junto com sua trupe, no Festival de Inverno de Ouro Preto. Governos ditatoriais odeiam artistas e qualquer espécie de arte. Beck, norte-americano, não conseguia entender a repressão.

Livre, Gilberto terminou o curso e começou a lecionar no Colégio Polivalente, mas continuou sofrendo perseguições. Teve aulas gravadas às escondidas, que depois eram entregues à Polícia. “Nos ambientes públicos, muitos me olhavam de soslaio, inventavam mentiras, chegaram a dizer que eu obrigava meus alunos a escrever com tinta vermelha. Era um clima muito ruim”, recorda Gilberto. Deixou o colégio para chefiar o gabinete do prefeito Elzo Calixto Mattar, de 1973 a 1976, e no ano seguinte mudou-se para Ribeirão Preto, traumatizado com o clima hostil criado por “algumas figuras marcadamente reacionárias” da sociedade passense.

“Em Ribeirão, encontrei um ambiente de liberdade que ainda não conhecia”, lembra Gilberto. Lá, também foi secretário municipal de Cultura e do Meio Ambiente, chegando a ser eleito vereador por dois mandatos, de 2004 a 2012. De professor perseguido, compositor censurado e cidadão taxado como comunista, sem que o sentido da palavra fosse bem compreendido, Gilberto Abreu retorna a Passos para que a cidade se redima. Agora, ele recebe uma homenagem oficial, prestada pela prefeitura, como um de seus filhos ilustres. Com 11 livros publicados, entre os quais três romances, três de poesia e um de contos, Gilberto acredita que, com a Flipassos, a cidade reconhece seus escritores, dá a eles a oportunidade de se reunir e fortalece uma tradição literária que já existe.

Apesar do clima de negação da Ciência e das Artes, da destruição do meio ambiente mais diverso do planeta, do desprezo pela Educação e do descrédito internacional do país, Gilberto acredita nas forças democráticas e no avanço civilizacional que o Brasil conseguiu desde o fim da ditadura militar. “Os saudosistas daquela época estão assanhados, mas as chances deles são remotas”, observa. Parabéns, Gilberto, e que os deuses te ouçam!

ALEXANDRE MARINO, escritor e jornalista em Brasília/DF, escreve quinzenalmente às sextas nesta coluna.