Opinião

Um tratado sobre a escravidão

14 de Maio de 2020

Os livros. Sempre os livros. Desta vez, uma obra de cunho histórico, “Escravidão” (volume I), do professor Laurentino Gomes. Agradeço ao Dener o presente. Procurarei dar livros de presente. Os livros são a nossa salvação, sobretudo em tempos árduos como os resultantes da Covid 19.

Vale dizer, por oportuno, que os livros, os estudos, inclusive os científicos, e o verdadeiro jornalismo se revestem de importância ainda maior num momento em que o compartilhamento de inverdades vem ocorrendo de maneira voraz.

Seu autor, o catedrático Laurentino Gomes, nos oferece um extenso panorama desse que provavelmente tenha sido o período mais trágico da história da civilização, que não abrangeu apenas a época das descobertas na América. São mais profundas suas raízes.

No primeiro volume até agora publicado, temos um período de 250 anos, que vai desde um leilão de escravos, em meados do século XV, na região do Algarve, em Portugal, até o fim do século XVII, quando da morte de Zumbi dos Palmares, a quem Laurentino dedica capítulo exclusivo. Há outros dois em curso, que abordarão períodos mais recentes, dentre estes o abolicionista.

Como se trata de livro histórico e fruto de intensa pesquisa, as 441 páginas do volume I se apresentam repletas de dados, nomes, informações e relatos de circunstâncias daqueles anos.
Há de se perceber não só os aspectos degradantes do ato de escravizar, mas também os invólucros políticos e econômicos da mercadoria representada pelo escravo. Diga-se, à semelhança dos dias atuais, que este infeliz significava o que hoje denominamos comodities. Em razão disso, todos eles eram espécies de matéria-prima a ser comercializada em grande escala por países e aventureiros que recebiam a empreita dos respectivos governos.

Ao sabor dos mercados, riquezas e falências ocorriam, tudo a se levar em conta a sua oscilação de preços, que também dependia das condições físicas daqueles cativos, além das políticas em torno das disputas pelos fluxos da colonização. Escravos eram, enfim, a maior moeda.

O início da narrativa menciona as próprias raízes da escravidão, com a sua marca em monumentos como as pirâmides do Egito, as ruínas do Coliseu em Roma e a tantas outras edificações históricas. O passeio se estende entre as Idades Antiga e Média, com o desfecho já na modernidade das grandes navegações. À pagina 64, afirma Laurentino, “o uso da mão de obra cativa foi o alicerce de todas as antigas civilizações, incluindo a egípcia, a grega e a romana.

Em meio a tantas informações, um dos capítulos merece enfoque especial. A mim me tocou. Não por imaginar alguma outra situação mais branda do que a que o autor expõe, mas por sentir, em seu decorrer, toda a sorte de suplícios que aconteciam nas embarcações dos escravos. Refiro-me ao capítulo “Navio Negreiro”.

Isso me trouxe à lembrança alguns dos versos de Castro Alves, em seu clássico poema de mesmo nome. Mas a estética ou o estilo aqui são diferentes, sem a lírica construção poética, mas com vários detalhes da rotina naqueles tenebrosos navios, com o acréscimo de circunstâncias anteriores ao embarque, quando se detinham os escravos em fétidos barracões à beira mar.

Tal capítulo representou, para mim, aquele instante em que os leitores costumam ser capturados mais intensamente pelos textos. Impossível não imaginar os horrores tão bem expressos por Laurentino Gomes. Um certo estômago se faz necessário.

Importante penetrar leituras de teor histórico para tentar compreender um mínimo que seja a trajetória humana em suas múltiplas faces, das positivas às negativas, das negativas às positivas, não importa a ordem.

De alguma maneira, apesar dos problemas que ora vivemos e também dos que virão, posso afirmar que evoluímos muito. Ler obras sobre período tão funesto como o da escravidão nos proporciona tal certeza.

Para ir além, é obra que nos incomoda o espírito para repudiarmos sempre, em qualquer hipótese, todas as formas de barbárie.

ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente às quintas nesta coluna.