Opinião

Tempos estranhos II

POR WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA

21 de julho de 2021

Deparei, dias atrás, com notícia de que um partido de esquerda havia entrado com ação direta de inconstitucionalidade, no Supremo Tribunal Federal, contra decreto do governo de Santa Catarina que proibiu o ensino da linguagem neutra nas escolas daquele Estado – a linguagem neutra, em poucas palavras, é aquela que utiliza termos como “todes” e “todxs” em substituição a “todos” e “todas”, dentre outras tantas proposições, para, supostamente, não representar discriminação de gênero e ser inclusiva. Interessante notar que a deputada federal que protocolou a ação (presidente do referido partido), até pouco tempo atrás verberava e reverberava, em uníssono com a sua agremiação política, que a então presidente da república à época fosse tratada como presidenta. Sim, presidenta, gênero feminino, sendo que o substantivo presidente, comum de dois gêneros, é muito mais abrangente. Só isso já basta para derrubar a tese supostamente inclusivista da ação e para denunciar a má-fé de quem a propõe. Lembrei-me, então, de artigo escrito por mim aqui nesta coluna, há três anos, tratando da mesma temática, o qual, com a licença do caro leitor, reproduzo abaixo.

“Com o tema deste artigo em mente, preparando-me para iniciá-lo, deparei com vídeo compartilhado por um amigo no Facebook que ilustra bem os tempos em que estamos vivendo. Tempos de contestação a tudo e a todos. De ataque às instituições e ao que representa autoridade. De desconstituição, desconstrução e destruição de valores. É como enxame de abelhas que ataca por todos os lados. Busca-se atingir os vários aspectos da vida em sociedade, quer culturais, políticos, religiosos, econômicos…, fragilizando-os, para, em seu lugar, estabelecer (na realidade, impor) a vontade e a visão de mundo de determinada corrente ideológica e política. O vídeo em questão retrata bem isso, de forma concisa (duração de apenas 6 min.), trata da escrita e da forma como nos comunicamos, da nossa língua, e de como querem ‘rever’ o seu ensino nas escolas, implantando a forma popular da escrita e da fala, tal como “nóis foi”, “é bão dimais”, “a gente vamu” e nessa linha segue, sob a alegação de que a língua culta, patrimônio construído ao longo de séculos, seria instrumento de opressão dos mais pobres pelas elites. Tudo bem, este linguajar, o popular, tem o seu lugar em contexto próprio, mas não em ambiente escolar, de formação cultural e da comunicação formal. É a pretensão de nivelamento por baixo. Não a da promoção a valores mais elevados.
Pode parecer pouco relevante a questão, porém, para se estabelecer o novo, o que é vigente precisa ser removido. Mas como afastar conceitos, princípios, costumes, comportamentos arraigados em um povo e em suas instituições sem encontrar forte resistência e oposição? Atacando-se os pilares que sustentam essa sociedade que se pretende mudar (“Se não podemos enfrentá-la diretamente, vamos enfraquecer suas bases e ela ruirá sob o seu próprio peso.”). Logo, se um dos fatores fundamentais de identidade e de coesão de um povo é a sua língua, vamos desconstruí-la. Se não concordamos ou nos enquadramos no modelo tradicional de família, então, vamos destruí-lo, atacando, indiscriminadamente e das mais variadas formas, tudo que o representa. E o mesmo se sucede na cultura, na política, na religião, na economia… e em todos os demais aspectos que os caracterizam. É a política do ‘quanto pior, melhor’. Os exemplos estão aí, fartamente, no nosso cotidiano.

Manifestar opinião divergente ou contrária ao que pretende o pessoal dessa ‘nova ordem’ (ou seria desordem?) é, no mínimo, correr o risco de ser rotulado por seus ativistas de retrógrado, homofóbico, fascista e outros pejorativos mais. É a ditadura do politicamente correto, a ‘amebização’ do pensamento. Paradoxal, eles, os ideólogos da destruição, acabam sendo a personificação do que alegam pretender combater. É de se reconhecer, no entanto, que certos grupos ideológicos, políticos e sociais que lhes fazem oposição, usando principalmente as mídias sociais, não agem de forma muito diferente. São extremos que se tocam, igualam-se, alimentam-se mutuamente e não produzem nada de bom.

Defendemos o Estado democrático de Direito, com tudo o que representa, tais como a liberdade de ir e vir, de expressão, de religião, de organização política, direito à saúde, à educação, à propriedade etc., o que está consagrado na nossa Constituição – e que devemos lutar para ser preservado e aperfeiçoado -, no entanto, o que se observa são ataques contínuos aos valores e princípios da nossa cultura judaico-cristã, os quais não nos chegaram prontos repentinamente, de forma gratuita. Foram construídos ao longo de milênios, num processo evolutivo de lutas, debates, sofrimentos, onde muitos pagaram com a própria vida para que tivéssemos, hoje, a sociedade na qual vivemos, com suas qualidades, defeitos e imperfeições. Dela não devemos nos envergonhar. Urge, sim, aprimorarmos o que de bom alcançamos como sociedade humana. Discursos raivosos, histéricos, e atitudes radicais, sejam de quaisquer matizes, não vão nos levar a isso.”
Saúde e paz a todos!

WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA, bacharel em Direito, ex-diretor da Justiça do Trabalho em Passos, escreve quinzenalmente às quartas, nesta coluna