Opinião

Sobre “Chatô, O Rei do Brasil”

POR ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO

4 de março de 2021

Para ser preciso, no dia 03 de agosto de 1995, publiquei um artigo na “coluna do leitor” sobre uma biografia que angariava enorme sucesso nos anos 90, cujo objetivo era retratar a vida de uma pessoa que marcou época na imprensa brasileira durante o século XX, Assis Chateaubriand Bandeira de Melo.

O título do calhamaço de quase 800 páginas do escritor Fernando Morais é justamente este, “Chatô, O Rei do Brasil”. Sim, porque a obra, ao expor tantos detalhes sobre Assis Chateaubriand, faz o leitor realmente concluir que ele reinou na mídia daqueles anos e, em consequência, também nas artérias dos poderes do Brasil por vasto período.

Como meu texto ocupava todo o espaço da “coluna do leitor”, trago aqui somente os principais aspectos para quem deseja conhecer alguns passos da pulsante história de um homem que exerceu enorme influência por onde transitou.
Nascido na distante Umbuzeiro, interior da Paraíba, em 4 de outubro de 1892, o menino tímido, raquítico e gago logo se mudou com a família para o Recife nas primeiras fases da infância, época em que já começava uma verdadeira revolução em sua vida e, assim, surgia início todo um horizonte em direção ao apogeu que viria a atingir.

Passa então, ainda jovem, a devorar jornais e livros, aproxima-se de intelectuais, aprende outras línguas e herda imensa biblioteca. O dinheiro necessário para voos mais altos fazia-se necessário e, para alcançar os anseios, arruma empregos comuns e também em alguns jornais, uma paixão que já alimentava. Além disso, a fim de atender ao desejo do pai, ingressa no curso de Direito e, anos depois, chega a dar aulas de filosofia do direito e direito romano na Faculdade de Direito do Recife.

O Rio de Janeiro acabaria sendo seu destino natural. Ali, advogou com sucesso para famílias importantes. Por outro viés, continuava a nutrir sua paixão pelos jornais ao publicar textos polêmicos, o que lhe permite fortalecer a notoriedade que já alcançava no mundo jurídico. Logo, logo, em virtude de sua aproximação com a elite empresarial e de seus próprios ganhos financeiros, vai em busca de seu antigo intuito de possuir veículos de comunicação.

Do primeiro jornal adquirido, seu patrimônio só faz crescer. Eleva-se, com o fluir dos tempos, a um autêntico império de órgãos de notícias, opiniões e entretenimento. Dentre os mais conhecidos, estavam a revista “O Cruzeiro” e as TVs “Tupi” e “Itacolomi”. Relembre-se que Assis Chateaubriand foi o pioneiro na implementação da TV no Brasil.

O crescimento dessas empresas e sua constante ambição o tornam próximo dos poderes e dos políticos mais influentes. Assim, passa a manter relações de idas e vindas com Getúlio Vargas, ora de apoio, ora de oposição. Na realidade, ambos se relacionavam movidos apenas por interesses de momento.

Tamanha a presença de Chatô durante o “Estado Novo” de Getúlio, que ele consegue alterar a lei de posse de filhos havidos fora do casamento para ficar com a guarda de sua filha Tereza. Sempre inquieto, vivia inúmeras e rápidas paixões. Do casamento oficial, nasceu um único filho, Fernando.

Difícil sintetizar as ações de Chateaubriand sem omitir dados, mas é preciso registrar que o sucesso lhe rendeu inimigos de peso, como Júlio Mesquita Filho, do “Estadão”, além do grande empresário José Ermírio de Morais, do conde Matarazzo e outros. Apesar disso, jamais contemporizou com eles, arrasando-os em seus artigos constantes na imprensa quando julgava conveniente fazê-lo.

A força que adquirira no transcurso das décadas lhe estendeu o prestígio nos governos de Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart. Quanto ao golpe de 64, a princípio, adere, mas, alguns anos depois, torna-se dissidente do movimento e de Castelo Branco. Com Juscelino, há de se dizer, que obteve para si até cadeira no Senado e Embaixada em Londres, ambos os cargos por meio de negociações escusas.

Detentor de uma trajetória repleta de fatos marcantes, até as doenças lhe aparecem. Atingido por uma trombose cerebral no início dos anos 60, acaba tetraplégico, Entretanto, nem isso o abate, e inicia, pouco depois, uma hercúlea batalha pela recuperação, tanto em hospitais do Brasil, quanto do exterior.

Embora não consiga restabelecer os movimentos normais, à exceção do dedo indicador da mão esquerda, sua energia e paixão pela escrita eram tão intensos que a obra registra uma foto excepcional de uma engenhoca que lhe possibilitava escrever os artigos jornalísticos, um tipo de máquina especial em que lhe era possível usar o único dedo recuperado.

Ao final da década de 60, já com a crise financeira batendo à porta de suas empresas, e com a ascensão de Roberto Marinho e as “Organizações Globo”, agrava-se o seu estado de saúde. Após a internação de curto período, falece em 04 de abril de 1969 em São Paulo. O velório se dá no antigo prédio dos “Diários Associados” por dois dias.

Durante a cerimônia, é homenageado pelo então diretor do MASP, que também foi uma de suas criações, já que sempre apoiara as manifestações artísticas. O diretor o circunda então com quadros que, segundo as palavras de louvor que usara naquele instante, simbolizavam as três coisas que Chatô mais amou na vida: o poder, a arte e a mulher nua.

A leitura desta biografia estimula uma profunda imersão na história do Brasil do século XX, sobretudo os eternos conflitos entre poderes e órgãos de comunicação. Se hoje as tensões se mostram tão evidentes, imagine-se a quantas andariam com a presença de um Assis Chateaubriand, que, em nome de alçar os próprios voos, jamais se intimidou perante os que ascenderam aos maiores postos do Brasil.

Depreende-se de toda a obra que os valores republicanos, tão fundamentais e defendidos com muito ímpeto atualmente, nunca fizeram parte da existência de Chatô, nem de tantos que agiam a seu redor, inclusive boa parte dos que exerciam mandatos públicos.

ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna