Opinião

Só acontece com os outros?

POR LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO

19 de julho de 2021

É duro admitir. Mas é sempre assim. Por mais que se tente, não há como mudar o enredo e o curso da história. O ser humano tem a péssima mania de achar que os fenômenos trágicos só acontecem com os outros, longe dos olhos e das emoções, em outras famílias. Com ele e os seus, não. E a banda não toca e age assim.

Em decorrência, chega a fazer troças e provocar convulsão de risos ocos, ao tempo de achar graça do que não tem. Pelo contrário. E faz por usar as mais diferentes artimanhas e manifestações no campo do burlesco e do ridículo. E deita falação e propaganda como se fora vírus de messiânicas abobrinhas em desfavor dos irmãos terrenos.

Ah, mas o castigo não vem a galope. Nem se espera o cruzar de esquina. Vem num passo dado. Tacanho. A meio passo, até. Melhor dizendo, à distância alguma. De repente, eis que os tentáculos da desdita (a palavrinha que começa com dê e tem cedilha no meio é descartável) vêm bater à porta, bem à frente, de forma incômoda e explosiva.

Boom! Acontece a bomba! Aí, à brincadeira, dá-se lugar e vez à descrença e ao desespero. Em cena, a pergunta: “Por quê? Como? Não é possível! Logo comigo? Entre os meus? Não!” Retumbantes e tonitruantes trovoadas demonstram a falibilidade dos seres vivos e componentes da linhagem dos mortais. Pobres mortais!

Nessa hora, tanto o cético quanto devoto, tanto o otário quanto o malandro, não importa, em ocasiões tais se juntam em conta e quantia. E, como que guarnição de Corpo de Bombeiros, Deus é lembrado e aclamado como Senhor Todo-Poderoso. Não diferente, com a mesmice dos tolos e imbecis de plantão: – “Ó, céus! Por que isso? Eu mereço? Por que Senhor? Por que permite tal coisa em minha vida?

Explicação rudimentar, na logicidade do espetáculo do tempo que o tempo tem: todos os seres humanos – indistintamente – fazem parte da comunidade dos mortais, a qual, em pé de igualdade, de modo igualitário, detém a suas narrativas históricas! E têm suas cruzes para carregar.

E não há, por qualquer dessas estranhas e enigmáticas circunstâncias e acasos, quem possa duvidar. Nem o figurão que anda em camionete de tamanho proporcional à desvairada opulência, nem o modesto caboclo de singeleza explícita de pés descalços. Todos, nessa hora, são iguais perante a lei e a ordem.

Diante disso e de todos os elementos constantes, não há por que haver vantagem ou desvantagem entre indivíduos em seus respectivos grupos. Como certo afirmar, não há como entender como pode haver atos discriminatórios entre os povos, já que a vulnerabilidade das pessoas – como bem preceitua a Declaração Universal de Direitos Humanos, no seu artigo segundo, trata da independência de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política, ou de qualquer outra natureza, e descreve que todos passamos pelas mesmas condições de sorte nas estradas da vida desse mundão de nosso Deus.

O verbo doer pode ser, e é, um verbo defectivo, sendo conjugado apenas na 3.ª pessoa do singular e na 3.ª pessoa do plural. Entretanto, por se tratar de algo que vincula a atos falhos e imperfeitos, a dor desconhece qualquer tipo de discriminação. E assim é. Quem disso duvidar, passe um e-mail para, quem sabe, se possa chegar a um consenso. Por enquanto, fica o certo pelo incerto, o sim pelo não. A dor, de fato, ininterruptamente, incomoda. E há de incomodar muito mais e por muito mais tempo. Per saecula saeculorum!

PS: Mais um que se vai, um amigo que nos deixa. Dr. Marcos Antonio Batista, brilhante advogado passense, disse adeus e se foi. A dor da perda ocasiona muitos distúrbios. Entre tantos atropelos, gera confusão emocional. Sentimentos à família enlutada.

Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho, advogado, escreve aos domingos nesta coluna.