Opinião

Ruínas e ruínas

POR ALEXANDRE MARINO

30 de julho de 2021

Reconheço que tenho certos gostos estranhos, que nem sempre consigo explicar. Gosto, por exemplo, de visitar ruínas. Gosto de papeis velhos, de ler cartões postais com dedicatórias de um século atrás. Guardo comigo objetos que adquirem valor à medida que o tempo passa. Gosto de caminhar por alamedas de cemitérios, que revelam a força da Natureza diante de nossas crenças vazias e nossa ilusão de poder.

Em meados dos anos 1980, quando trabalhava na sucursal do antigo Jornal do Brasil em Brasília, fui conhecer Alcântara, histórico vilarejo do Maranhão. O lugar era famoso pela quantidade de ruínas de mansões e casarões, e eu era atraído pela ideia de caminhar em suas ruas e ver tudo aquilo de perto, tocar em velhas paredes que atravessaram séculos e permaneciam de pé. Fundada nos primeiros anos do século 17, Alcântara entrou em decadência no final do século 19, devido à queda de produção da cana-de-açúcar, algodão e ao fim da escravidão. A cidade sofreu uma diáspora de suas elites, que se mudaram para outras regiões do Maranhão e do Brasil.

Mas nos anos 1980 Alcântara passava por uma transformação histórica, porque a Aeronáutica estava concluindo a construção de uma avançada base de lançamento de foguetes, o Centro de Lançamentos de Alcântara. Embora houvesse um plano de preservar os sítios históricos, manter a população em seus lugares de origem e não agredir suas ricas tradições, era evidente que o movimento de militares e autoridades, em função da base, traria grandes mudanças.

O aeroporto era de uso exclusivo da Aeronáutica, e por isso os visitantes, vindos de São Luís, a 18 km, tinham que encarar uma rápida, mas assustadora viagem de barco através do Canal de São Marcos, de águas agitadas, que separa as duas cidades. Após o desembarque na Praia do Barco, uma curta caminhada leva ao Largo da Matriz, onde estão as impressionantes ruínas da Matriz de São Matias, ainda hoje preservadas. Ali perto fica a Rua da Amargura, de onde as famílias abastadas, cuja riqueza foi construída graças ao grande número de africanos escravizados, se despediam de seus filhos que iam estudar na Europa. A rua é, ainda hoje, cheia de mato e de esqueletos de casarões, abandonados pelos moradores, que levavam pedaços de mármore, portas e fechaduras de prata. Outras ruínas se espalham em vários pontos da cidade.

A maioria dos países europeus tem grande número de castelos, construídos há 700, 800 anos ou mais. São, na maior parte, abertos ao público para visitação, e portanto lucrativas atrações turísticas. Em 1995, passei três meses na Europa e consegui visitar um castelo que estava, de fato, em ruínas, como assim permanece até hoje: o Castelo de Tantallon, localizado em North Berwick, norte da Escócia. Era possível caminhar por suas dependências, tomadas pelo mato, observar suas grossas paredes e subir algumas escadas, com cuidado, por falta de corrimões ou qualquer artefato de segurança. Os pontos mais altos ofereciam privilegiada vista para o mar, onde se destacava a Bass Rock, gigantesco rochedo de 107 metros de altura localizado a 2 quilômetros da praia, onde funciona um farol cercado por uma colônia de aves marinhas.

Monumento histórico do Reino Unido, o Castelo de Tantallon foi usado em 1944 pelas Forças Aliadas para a preparação de uma estratégia para enganar os radares alemães da Normandia, pouco antes da invasão da extensa praia francesa que definiu a derrota dos nazistas. A Segunda Guerra deixou a Europa em ruínas, mas eram ruínas da destruição pelas bombas e pelas armas, do aniquilamento físico e moral provocado pela mais irracional das invenções humanas.

Algumas ruínas prestam um testemunho da passagem do tempo e do caminhar da História, revelando transformações culturais e deixando viva a memória de um outro contexto social. Os moradores de Alcântara conhecem sua história, exposta pelas ruínas. Mas o Brasil vive hoje um processo de arruinamento de nosso presente, nossas riquezas e nossos valores. A Amazônia, o Pantanal, o Cerrado e a Mata Atlântica estão se transformando em cinzas. Normas legais que protegiam esses ambientes, que criavam mecanismos de inclusão e organização social, estabeleciam direitos, são revogadas. Nossas instituições democráticas estão em risco.
O Brasil não aprendeu nada com as ruínas de sua História.