Opinião

Ressurreição

POR WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA

31 de março de 2021

Sem conseguir respirar, em agonizante falta de oxigenação sanguínea, nem um gemido de socorro pode-se ouvir de seus lábios como última manifestação de vida… apenas um sofrido suspiro final”.  Este bem que poderia ser o breve enredo de um conto dramático, mas tem sido a realidade de muitas, de milhares de vidas ao nosso redor, neste infindável túnel no fim da luz que se tornou a crise pandêmica que nos assola a todos.

‘Rigor mortis’

Sem oxigenação, sem a metabolização dos alimentos e a troca saudável de energia, o corpo perece e, em um primeiro momento, algumas horas após a morte, torna-se rígido como resultado da intensa contração muscular então consequente. É o popular “o defunto já estava duro como pedra”. Podemos, de forma mais amena, experimentar esta contração e rigidez muscular ainda em vida. É a dolorosa cãibra, causada pelo desequilíbrio hidroeletrolítico que nos acomete, geralmente, após exercícios físicos extenuantes.

A saúde do corpo pressupõe, também, uma constante troca entre os meios externos, tais como o ar que respiramos, a água que bebemos, os alimentos que ingerimos, e os internos, gerenciados pelas células, moléculas, hormônios… em processo bioquímico complexo que nos mantêm vivos e saudáveis. Quando essa ‘troca’ é interrompida ou prejudicada, experimentamos ou a morte ou o desconforto das cãibras.


Espírito e vida

Como seres complexos que somos, a nossa vida não se limita, apenas, ao aspecto material. Para os ateus e agnósticos, admitamos, ao menos, a dimensão moral e ética do homem. Aos que creem, habitamos e somos ‘habitados’, também, pela realidade espiritual.

Dentro da tradição cristã, esta semana é a chamada “Semana Santa”, em que se celebra a paixão, morte e ressurreição de Cristo. Jesus, exemplo maior de solidariedade, na dor e na alegria, viveu e conviveu com o povo nas suas angústias e, também, nas suas celebrações, assumindo a sua identidade de messias e o protagonismo em todas as circunstâncias, favoráveis e desfavoráveis, até a morte cruenta na cruz.

Mas sua história não se findou há dois mil anos. A ênfase não deve ser a do Jesus martirizado e crucificado, mas a do que venceu a morte, que ressuscitou, que nos legou alimento para a alma, sem o qual, igualmente ao do corpo, perecemos. Não, não é o seu corpo que devemos comer, nem seu sangue que devemos beber.

Ele nos convida a todos a nos alimentarmos da sua palavra – “Bem-aventurados os humildes de espírito, os que choram, os que buscam justiça, os que exercem misericórdia, os puros de coração, os que promovem a paz…”. Na liturgia, Ele é “o pão vivo que desceu do céu”, mas as suas palavras são espírito e são vida, e estão entre nós! Saúde e paz a todos!

WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA, bacharel em Direito, ex-diretor da Justiça do Trabalho em Passos, escreve
quinzenalmente às quartas, nesta coluna