Opinião

Quem ama cuida, não mata

POR LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO

19 de abril de 2021

Após um mês da morte do garoto Henry Borel, de quatro anos, não se chega a um entendimento pelo menos razoável de como pode acontecer um assassinato frio, cruel e asqueroso, de tal sorte a arrancar asco dos próprios agentes que atendem ao caso. Como começou. Henry foi levado pela mãe e padrasto ao hospital Barra D’Dor, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, já sem vida, com o corpo com sinais evidentes de hemorragia e edemas. Os sucessivos maus-tratos pelo padrasto, com a ajuda macabra (no mínimo por omissão) da mãe do garoto.

Depois de muito investigar, chegou-se à conclusão de que ambos eram culpados pela morte do garoto, ainda que fizessem de tudo para demonstrar o contrário. Foram presos e a investigação prossegue. A cada dia um fato novo. O estranho nisso tudo: a frieza por parte dos acusados. Ponto a merecer atenção nesse imbróglio é que são pessoas aparentemente normais. Padrão de vida superior. Ingredientes para levarem uma vida familiar sem grandes percalços. Em especial no aspecto econômico e financeiro.

No meio de tudo uma tragédia a abalar o mundo: uma criança, um anjo. E o pior dos dramas, à luz da ajuda e complacência da mãe, a professora Monique Medeiros, de 34 anos. Ela que sabia de tudo. Da prática de tortura, ao assassinato de seu filhinho indefeso. Tinha conhecimento dos passos e manias malucas do companheiro. Médico formado e vereador da capital fluminense. Estruturas da compreensão humana abaladas, indo por água abaixo, por obra meramente bestial.

A despeito de aplicar profundos estudos da área, quer seja pela vivência, experiência, anos de vida e de estrada (muito pó, da goela aos pulmões), nada que possa comparar-se a uma análise consentânea no segmento da psicologia comportamental. A que conclusão então se acerca diante de um descalabro dessa magnitude? Possivelmente a algo que beire as raias da loucura. Sandice explícita inexplicável. Conforme se apurou, Dr. Jairinho (como é conhecido) é uma figura patologicamente agressiva. Agredia as companheiras. E já vinha agredindo a criança com chutes e pancadas na cabeça um mês antes do crime.

Em nenhuma hipótese se chega a uma explicação razoável. Viável, por conseguinte, entregue o caso para análise e estudos de especialistas da área. Que cuidem de destrinçar o ocorrido e buscar explicação quanto à natureza do crime. Tipicidade, nexo causal etc. Muitas as hipóteses, as teses. Conjecturas de toda ordem. No entanto as evidências ultrapassam as medidas da compreensão e da própria ciência. Como pode? E a questão há de ficar retida e guardada no cenário da incompreensão e da não aceitação por parte da sociedade humana.

Digamos que a mãe estivesse perdidamente apaixonada pelo padrasto, esse tal Dr. Jairinho. Ainda assim se fica no campo cabuloso. Não há proposição e explicação aceitáveis que justifiquem o ato desumano e cruel. Poderão falar em desajuste emocional do padrasto ao maltratar o enteado. Que mal o garoto Henry ofertara a Jairinho ou a outro ser aqui na terra? Uma criança desprotegida! Em definitivo não dá. Desde os primórdios sabemos que o instinto de sobrevivência e os cuidados maternos falam mais alto. Quem ama não mata. Quem ama, cuida, zela. Não judia. Pelo menos é o que sabemos à luz da consciência humana, pouco importam os fatores externos.

Poderão alguns malucos aventarem a hipótese de existir explicação esdrúxula para o fato. Quem sabe a paixão desmedida, dessas que atingem o ápice da possibilidade de colocarem a sandice próxima do paroxismo desenfreado. Quando a vida de um inocente é colocada em xeque, frente a frente com o inimigo e amigo da maldade? Menos.
Não! Mil vezes não! Não há justificativa. Não há tese que se sustente na escala de valores. Por nenhum postulado na área da especialização psiquiátrica se admite tal aberração na esfera do comportamento. Dr. Jairinho é, em definitivo, um monstro. Como tal deve ficar enjaulado. E a mãe desnaturada a ser vista num plano mais drástico. Em dimensão maior.

Explico-me e faço-o em poucas palavras. Não nego que sou louco pela vida animal. Amo os bichos. Os tidos animais irracionais. Neste particular sou capaz de botar minha mão no fogo. Animais com os quais tive e tenho ligação ao longo da vida – e bote tempo nisso –, só tenho a revelar carinho e bondade pela sua companhia. Tais animais não procedem assim. Defendem as crias com tal zelo e ordem, que ofertam suas vidas no enfrentamento desigual com outros bichos predadores. Infinitas vezes constato esse fenômeno. Encontradiços os embates em selvas, florestas e savanas. Disso sabemos, teoria empírica assente.

O predador chega, atira-se sobre o filhote, a mãe sai em defesa da cria, parte para o enfrentamento com o mastodôntico animal. Mesmo sabedora da desigualdade física, ainda assim enfrenta. Busca e encontra força onde não tem. No geral, resiste. Ainda que oferte a vida em imolação pela salvação do filhote. A situação é essa. E não adianta tentarem esconder a nudez dos fatos com o insucesso de uma minúscula tanga de um Tarzan depois da gripe. Sempre foi assim. Sempre será.

A façanha de Bell é ilustrativa e esclarecedora. Gatinha de raça indefinida. Figura singular na linhagem dos arquétipos. Não tem mais onde ser faceira e sapeca. Andeja ao extremo, agora está com mais uma bela ninhada. Monogâmica. Arranjou-se em cruzamento com o gatão de sempre. Um louro com aço: “louraço”. O que mora no andar de baixo do prédio.

Pelos passeios em noites enluaradas, deu…No que deu. Por descuido do acaso, contraceptivo falhou, o trem pegou. Agora estamos às voltas com cinco gatinhos, que ornam a garagem número dois da residência em Passos.
Com os cuidados necessários, Bell e os filhotes estão num calculado espaço. Guloseimas de praxe: proteína animal e suplementos minerais líquidos na adequação. Tem sido assim. Até que apareçam interessados para a tutela e guarda, nos preceitos legais.

Alto lá! Até então sob a guarda e vigilância da mãe coruja. Bell tem cara de coruja. Um quê de coruja. E ao contrário de seres inumanos, não permite que abelhudos cheguem até as cercanias do seu quadrado. Voltando ao assunto do garoto Henry. Por quê? Qual a justificativa? Não é possível isso. Em toda e qualquer situação a mãe serve de escudo em nível de proteção. Fica assim a indignação de uma sociedade que, por si só, convive com tantos e melancólicos dramas. E, no inexplicável, tem-se que conviver com mais essa estupidez da raça humana. Lobos maus à espreita. Incautas presas à mercê de bestas-feras que se vestem de cordeiros num mundo tão apinhado de problemas de todos os gêneros, jeitos e tipos.

Quando se volta a Henry Borel. Agora num lugar bem distante, no etéreo das alturas, uma linda estrela a nos iluminar. Certa feita, o autor Carlos Perret disse numa canção: “Deve haver um lugar bem distante. Outro céu, outra terra, outro mar. Onde a vida não para e nada se transforma. Onde tudo é paz, ninguém vive a chorar”. (Balada do Homem Sem rumo)

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta coluna.