Opinião

Que Deus se apiede de nós!

POR LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO

29 de março de 2021

Nem tanto ao mar nem tanto à terra”, aponta o dito popular em tempos de agora. Nem ficar em casa fechado, jogado à melancolia, sabidamente não é jogo bom, e nem botar cara na rua para se contaminar pelo Coronavírus, mal que até tem tirado a paz e vidas de nossos irmãos. Um meio termo seria o ideal para evitar o desastre de um e outro. Mas como? Aglomerações, nem ver. Em casa, trocando juras de amor com os mais variados tipos de ácaros, assistindo a filmes nem sempre bons, deixando parentes e amigos ao longe, vivendo de saudades e recordações, noticiários os mais tóxicos, ácidos e azedos. É custoso. Mas vamos lá. Distanciamento o máximo possível. Por pouco. Acreditemos.

As notícias bombásticas da semana começaram com as mentiras do presidente no seu pronunciamento oficial em cadeia nacional de rádio e TV, na última terça-feira (23). Nunca se mentiu tanto. E ocorreu no dia mais difícil de todos os brasileiros: 3.251 vidas perdidas em 24 horas, entre a segunda e a terça-feira. Bolsonaro começou dizendo que “estamos fazendo e vamos fazer de 2021 o ano da vacinação dos brasileiros”. Eu me vi vacinado ali, na hora, bem de frente do aparelho de televisão. E quando entoou no seu português tosco: “sempre defendi as vacinas”, eu me coloquei na condição cívica de inquirir, o que muitos o fariam: ‘sua cara não queima, não?

Os brasileiros sabem que o governo federal nunca – em tempo algum – adotou medidas claras e efetivas para combater a pandemia da Covid-19. Nenhuma campanha estabelecida. Como era de se esperar, após o pronunciamento, houve panelaços e gritos de guerra em regiões do país. Talvez a fala presidencial tenha contribuído para outro episódio no dia seguinte. O Secretário Especial de Cultura do governo federal, Mário Frias, errou feio no português. Em resposta ao deputado Eduardo Bolsonaro (PSL), em post no Twitter, escorregou ao escrever a palavra acesso. Fez com quatro ésses. O contexto: “Muito obrigado, Eduardo Bolsonaro. A luta é diária sem direito a descanso. Vamos trabalhar incansavelmente para que todos os brasileiros tenham assesso a cultura (sic)”.

Jornalistas e analistas políticos caíram de pau e apontaram o erro crasso do Secretário da Cultura (?!) ao cometer a clamorosa falha. Detalhe: o assessor (aí, sim, o vocábulo é com quatro ésses) cometeu não só um deslize, mas dois. O primeiro ao escrever acesso da forma que o fez. Muito feio. O segundo, menos mal e não menos inexato, não inseriu a crase antes do vocábulo cultura. Ao acento indicador de crase dá-se o nome de acento grave. A regência nominal de “acesso” e do artigo “a” diante do substantivo feminino, segundo os bons gramáticos, é preciso. Um pouco de cultura não arranca pedaço. Já dizia o emérito Toninho Grilo.

Cultura é sinônimo de competência, conhecimento… É o que falta na equipe de Bolsonaro. A começar pelo chefe, não há um que se salve. Incluam-se bolsominions palacianos e mesmo em setores da imprensa. Fico pensando: não se envergonham da própria vergonha? O que é isso! Não se trata de pegar no pé. Tomemos então a mão de outro assessor do presidente Bosonaro. Um bem especial. O intrépido Filipe Martins. Ah, esse se estrepou! Na sessão de quarta-feira no Senado (24/3), o valoroso defensor do chefe foi flagrado reproduzindo gesto que evidencia sinais obscenos e ou símbolos utilizados por supremacistas brancos. Numa melhor versão e visão, símbolo de ódio utilizado por quem acredita que os brancos são superiores a pessoas de outras origens.

Elucidação apropriada: juntando o polegar ao indicador, o assessor presidencial manteve os demais dedos esticados e fez movimentos com a mão ao lado do paletó. No esperado, provocou protesto de senadores, demais autoridades presentes e ausentes e incontáveis cidadãos de bem não aprovaram. Na esteira do que se entende por emenda pior que o soneto, a explicação esdrúxula, sem sentido e moleque de Filipe Martins é de causar ânsia e mal-estar. Caradurismo regencial explícito, disse em seguida que “estaria ajustando seu terno, e que o gesto não foi feito com nenhuma intenção política”. Imagens indeléveis continuam valendo por mil palavras. Mais um clichê para a enfermaria.

Pelo grau de molecagem do personagem traquinas, dentro dos conformes e ante a insensata forma de provocação, temos que no seu crachá, ajustar-se-ia, sem tirar e nem pôr, o vocábulo “açeçôr”. Lembro-me de um cidadão da cidade de Arcos. Carregava consigo um cartão de visita, dizendo-se assessor de um parlamentar mineiro, com assemelhado erro ortográfico. Não levei a sério.

Tal e qual, o governo Bolsonaro parece gostar de colecionar gafes. Formas do realismo grotesco. De todos os lados. Prato cheio, variado, para todos os gostos. Predominante o mau gosto. E quem estava presente na solenidade? O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Outro que sabidamente nada faz de concreto. Ficasse calado e estático, prestaria menos desserviço à pátria mãe gentil. Possibilitaria, por exemplo, que o tamanho, a importância e a história do Brasil falassem por si. Especialmente quanto à ajuda externa necessária de outros países para o combate à pandemia – no envio de insumos e vacinas – caso específico da China e dos Estados Unidos.

Ele só faz atrapalhar. Fatos e dados apontam para o trágico. Disse: “não somos perfeitos, mas eu tenho certeza de que estamos fazendo tudo pelos interesses do Brasil, tudo de maneira constitucional”. No mínimo, deve ser banido do país e enviado pelado para Oymyakon (45° C) – sabidamente o local mais frio do mundo. E que utilize só as águas correntes dos canos. Quem melhor sintonizou o drama diplomático foi o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco. Aliás, o Canal Livre da Band (21/3) recebeu o senador para falar sobre o enfrentamento da pandemia e os desafios no comando do Congresso Nacional. Saiu-se bem. Aplaudi. Corajosa, proveitosa e profícua sua postura. E agora não só pede mudanças na condução das relações diplomáticas, como avalia que “houve muitos erros no enfrentamento da Covid-19”.

Com os botões de pensantes, não foi muito do agrado de negacionistas. O termo chegou a ser ventilado, utilizado e não deglutido pela ala executiva do governo federal. E em estado de letargia e desalento, energias físicas e morais abatidas, vamos nós brasileiros neste imenso barco. Pobre e triste embarcação. Padecendo com as incertezas. Conduzida por mãos frias, tacanhas, insolentes, atrevidas e incompetentes. Ao estilo Camões, estamos em pleno mar de medonha agitação. Juntando forças que ainda nos restam. Sob os escombros amargos de vidas perdidas, rumo às ribeiras de uma possível chegada. O momento é de luta, a evitar-se o luto. Agigantar-se perante o inimigo. O fator ‘impossível’ deve ser descartado. Os atos devem ser de coragem, esperança e fé. Sobretudo, resiliência. O apelo à salvação não só é preciso. É fundamental.

Por último, faço minhas as palavras de Gilberto Almeida. Na coluna Opinião da Folha da Manhã (25/03), o filho do saudoso Humberto Almeida cita o mestre Roque Gioachino Piantino. Certeza aristotélica, kantiana ou não, Deus ama o ex-secretário de Planejamento na sua infinita bondade, por tudo que representa como ser humano em qualificação. Na lembrança, César Lattes (11-07-24/08-03-2005), destacado cientista brasileiro, o do Píon – igualmente se declarava agnóstico. Tenho comigo: o estimado Gioachino acredita não menos intensamente na versão bíblica de que Deus criou a matéria. Amém!

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta coluna