Opinião

Prova de vida pela hora da morte

1 de março de 2021

E continua a saga. Quando penso que vi tudo, ledo engano. Entre aventuras e desventuras, a fonte é inesgotável.
Então é assim: pela hora da morte, deve-se fazer prova de vida. Noutro giro, mortes anunciadas por obra de insensatos e inconsequentes. Questão de apreciação e arremate. Para os poucos avisados – ou despossuídos de saber – a sigla INSS significa Instituto Nacional do Seguro Social. Veja-se que na abreviação do nome está embutido, incutido – ou enfiado – o vocábulo ‘seguro’. Consideremos o fato de num único dia o número de mortos pela pandemia apontar o recorde de 1582 pessoas, segundo veículos de comunicação. Mais que preocupante é alarmante.

Para quem não ama tanto assim a vida, atente para o calendário e anote o dia, para contabilidade pessoal: 25 de fevereiro de 2021. Vamos de novo: 1582 mortos! Caso o número não possibilite abalo sísmico moral, que tal um pouco de sensibilidade humana? Hoje é assim que se fala entre os comuns. Ainda que no contexto da tragédia, o Coronavírus, originário da China, vem se constituindo no único produto chinês com durabilidade garantida. Pois é. E o que vemos no Brasil senão homens públicos agindo e atuando como se nada houvesse de anormal?

Numa providencial mesóclise, a pergunta: na altura de macabro campeonato cuja meta é saber quem morre primeiro (quando em fase crítica, quatro entre cinco idosos morrem de Covid-19) caber-se-ia fazer prova de vida presencial, pondo-se a própria vida em risco? Tão grave quanto um convite nada misericordioso ao genocídio. “Se cada indivíduo é, ao mesmo tempo, o Estado e cidadão”, segundo Rousseau, por que não conferir ao cidadão direito acima do que vem apregoando e aplicando o primeiro mandatário da República e seus asseclas?

Nem de longe consigo entender o que anda acontecendo neste país. Parece governo em meio a brumas escarlates. No instantâneo da impossibilidade me pego desassossegado e me mordendo para avaliar se estou vivo e para saber se estabeleceram no alto grau da incompetência e disso não sabem ou não querem saber. O despropósito é gigantesco.
Exigir o comparecimento de pessoas idosas à agência ou banco em que são correntistas para provar ao Estado que estão vivos, e em não o fazendo, o pagamento é bloqueado?

É isso mesmo que diz a lei, as normas, num período em que os idosos têm que se resguardar ao máximo quanto ao distanciamento social? Não se pode fazer diferente? Não há alternativas? Volto a dizer: não é um convite à morte, mas uma determinação expressa ao processo seletivo para a morte. Vejo a cena. Velhinhos trôpegos, despojados de suas funções motoras, na ótica do despautério, meros espectros da sociedade humana capitalista, deixar o recôndito de seus lares, já trucidados nas dores e incômodos de todos os dias, para, presencialmente, dizer: “eis o que nos resta!

É tão imbecil quanto inconveniente. Vão dizer os tecnoburocratas que muitos poderão estar mortos e outros estão recebendo em seu lugar. Sim. Pode ser. E os que restarem vivos, ou os que ainda resistem à passagem do tempo a trancos e barrancos, não contam? É preciso parar com babaquices sem eira e nem beira. O momento exige coragem, lucidez e determinação. Pague a quem de direito, aos inconvenientes infratores depois se dá jeito. É de menos. É fichinha para quem da noite para o dia erra e gera prejuízo bilionário no jogo da contabilidade estróina. A Petrobras perdeu por volta de 100 bilhões em valor de mercado por decisão amalucada do presidente Jair Bolsonaro ao mudar o comando da estatal.

Noutro leque e guinada, em pleno ápice da pandemia – muitos disso não tomam conhecimento – vemos Bolsonaro dizer em costumeiras insanidades que usar máscara faz mal à saúde e nada contribui para a felicidade de quem a usa. Então fico naquela: pensando e matutando. Estarei vendo e ouvindo bem ou sonhando sonhos impossíveis, desses também conhecidos como pesadelos a toque de perturbação mental? Quando vão parar de brincar de matar pessoas inocentes e desassistidas?

Pelo visto, quando o ministro da Saúde Pazuello receber a quarta divisa por relevantes serviços prestados à pasta da Saúde e ao INSS em especial, hoje autarquia do ministério da Economia, ligado ao regime geral da Previdência Social. Quando vez mais se questiona: querem enxugar as contas públicas eliminando as forças não produtivas do Estado, também conhecidas por abate e eliminação de velhos e aposentados? Pois estão no caminho certo.

Certa feita, em outro lugar, por iguais conceitos, usaram dessa metodologia. E foram para o inferno. Não propriamente do inferno de Dante Alighieri. Muito pior. À verdade incontestável da consciência histórica, hoje contada e recontada pela humanidade. E a tenebrosidade dessa história será cobrada de forma tétrica e avassaladora.
E, entre ativos e passivos, a conta certamente ficará no vermelho de uma vergonha que jamais será sanada por personagens e instituições que não tinham que estar onde estão e nem participar de um jogo para o qual jamais estavam preparados.

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta
coluna.