Opinião

Pot-pourri

12 de Maio de 2021

No regime de segregação social, quase beirando à racial (ou, pior ainda, a ambas), a que se chegou no Rio de Janeiro e em boa parte do Brasil, conter a violência, com os métodos atualmente empregados, é como enxugar gelo. São mortes e mais mortes continuamente e aos borbotões… e a criminalidade só aumenta, como temos presenciado diuturnamente. Que o crime tem que ser enfrentado, combatido, com firmeza, de forma permanente e dentro da ordem legal, não resta dúvida. Mas só isto não basta. Até a recente intervenção das Forças Armadas no Rio não logrou êxito no combate ao crime e na manutenção da ordem. Se portas de oportunidade de ascensão econômica, social e cultural não forem abertas à grande massa de excluídos, a crise só se agravará. É um caldeirão social sofrendo pressão contínua, sem válvula de escape. Pode estourar a qualquer momento.


O que pensa boa parte da elite brasileira (elite pensante?)

Ele olhou, olhou, olhou e não disse uma palavra. Em uma segunda oportunidade em que nos encontramos, eu cobrei: ‘Então, doutor Roberto, o que achou do nosso projeto?’ Então ele disse: ‘Olha, governador, se o senhor quer construir escolas, está muito bem. Mas não precisa disso tudo. Faça umas escolinhas… pode até fazê-las bonitinhas, tipo uns chalezinhos…’.

Trecho de diálogo ocorrido entre Brizola e Roberto Marinho (Organizações Globo) durante o primeiro mandato daquele, como governador do Rio de Janeiro (1983/1987), em citação de Luiz Augusto Erthal – Jornalista e Assessor de Imprensa do governo de Brizola -, quando o então governador fora pedir apoio à Globo para o seu projeto educacional recém-lançado, os Cieps, também conhecidos como ‘Brizolões’, idealizados por Darcy Ribeiro como proposta revolucionária, capaz de mudar a realidade de milhares de cidadãos daquele estado, pelo poder transformador e libertador da educação, com tudo que isso implica, tal como capacitação intelectual e profissional, desenvolvimento da autoconsciência e da capacidade crítica de leitura da realidade, de tomada de decisões… proporcionando a tão almejada ascensão sócio-econômica.

Por experiência própria, Leonel Brizola, órfão de pai, experimentara como a educação é capaz de promover o ser humano, resgatando-o da pobreza e alçando-o a condições de vida mais dignas, ampliando-lhe os horizontes, pois, ainda, segundo nos informa Erthal, “Calçou os primeiros sapatos e usou a primeira escova de dentes aos 12 anos, na casa de um reverendo metodista, cuja família o adotou. Pode, então, estudar até formar-se em engenharia. Fora salvo pela educação.” Daí, sua obsessão em construir escolas de tempo integral, com ensino de qualidade, franqueando acesso à população de baixa renda. Ganhou o tão procurado apoio da grande mídia? Não… ganhou inimigos, principalmente a oposição daquele a quem fora pedir apoio e do poderoso grupo por ele comandado. O resultado, hoje, está à vista de todos. Triste Rio. Tristes Brasis.


Cena do cotidiano

Fazendo compras recentemente em hipermercado passense, deparei-me com senhora com o carrinho cheio de compras, daquelas que se fazem para o mês inteiro, despedindo-se de sua jovem filha, a qual aparentava ter uns dezoito anos, e tratando-a como “meu neném”. Diante daquele “meu neném”, não me contive, brinquei, então: – Que neném bem criado. Parabéns à senhora! Receptiva ao elogio, com um sorriso largo no rosto, respondeu-me: – É minha filha, meu orgulho, passou em primeiro lugar em Medicina. E aí, prosseguindo na conversa, revelou que vieram de Pernambuco, agora em maio, que a filha passara no vestibular da UEMG, e que ela, a mãe, mudara-se para Passos para acompanhar a menina.

E, mais ainda, que a filha fora beneficiada pelo programa do governo de Minas Gerais de cotas sociais para acesso a universidades estaduais (A Uemg e a Unimontes, amparadas pela Lei Estadual n° 15.150/04, aderiram ao Programa de Cotas através do qual 70% das vagas são destinadas ao sistema de reserva. A distribuição das oportunidades acontece da seguinte forma: 25% devem ser ocupadas via SiSU; 20% são para candidatos afrodescendentes; 20% para egressos de escolas públicas que comprovem carência e 5% para estudantes com deficiência ou indígenas). “Somos pobres”, disse ela, “se não fossem as cotas, não estaríamos aqui”. Mais, não preciso dizer. Saúde e paz a todos!

WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA, bacharel em Direito, ex-diretor da Justiça do Trabalho em Passos, escreve
quinzenalmente às quartas, nesta coluna