Opinião

Portas e Janelas da Esperança

Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho

7 de junho de 2021

Minha vida não é tão diferente das muitas que vejo por aí. Vidas correm ao largo, muitas das quais acompanho de perto, outras nem tanto. Sinto-me como personagem coadjuvante, com relativa importância. O inverso é consolidado. Daí que chamo a essas vidas passageiras de vizinhas e co-irmãs.

Existem inúmeras portas e janelas de esperança para todos. Uns aproveitam, outros não. O chão é comum, tal qual o firmamento e tudo que dele emana. Em especial, a abóbada celeste e seus fundamentos. Podemos atingir as estrelas. Delas podemos participar, o voo pode ser feito pelo imaginário. Celebração no campo das possibilidades.

Atropelos e desassossego, aos montes, existem e não há como deles fugir. Ainda assim, essas portas e janelas da esperança estão entreabertas, num convite aos detentores de coragem, fé e otimismo.

À noite, depois de estafante trabalho, constato que a faina diária não apenas dignifica e realiza o homem, mas dou fé: não mata ninguém. Principalmente se exercitada para o bem. É no calor da prestação laboral que o homem se encontra consigo mesmo para a realização pessoal e se firma como membro solene da comunidade humana.

Mesmo quando tentam aporrinhar-me, é assim que me enquadro. Ou pelo menos tento. Não me abalo e me abato por pouca coisa. De jeito algum. Aliás, é assim que há muito tempo ajo. Na verdade, estou indisponível para cargas negativas. Vou navegando vida afora, sem sair de mim mesmo. Ainda que sob a pressão de ameaças naturais, vou adiante. Problemas aqui e acolá. Se algo de concreto ocorrer, melhor é o enfrentamento. Se este sugerir que se resolva na difusa orla do subjetivismo, deixo-me estar na reflexão. Algo mais complicado, num indispensável pragmatismo, entre o desviar constante de pedras, retiro-as do caminho. Se der tempo, faço do seu conjunto – como dizem – um belo templo para tempo de orações.

E é assim. Tem sido assim. Na engenharia da imaginação, penso nos irmãos, amigos, companheiros e desafetos. E faço por desenhar um mundo melhor na magia do faz-de-conta. Os problemas sempre estarão pelos caminhos, às vezes em acenos e apelos. O importante, no mais das vezes, deles tirar proveito, rumo a objetivas avenças. Se existem desavenças, melhor as avenças. Os ajustes, em coalizão, podem se ajustar. A imagem do acordo em triplicidade é válida.

Como ser humano, no inevitável, sempre em rota de colisão com algo ou alguém, muitas as vassouras, me sujeito a sentimentos de melancolia. Emergentes as lágrimas da alma. À noite, no silêncio do prazeroso ócio, dou-me ao desfrute de não fazer nada a não ser ensimesmar-me. Quando repenso a vida. Em decorrência, dores lancinantes pelas perdas. E são muitas. Não param. Os números aviltam. Então a explicação: é o mistério da vida se movimentando em desígnios. Mesmo na morte há adornos. Quem sabe o aroma do bolo de aipim um dia volte. Assim como o cheiro do mato verde e da terra fresca molhada. Sem se esquecer das delícias do café deliciosamente coado. Se pelas mãos da Dinha, melhor ainda. O cheiro penetra fundo, no formato de vivificante seiva. Como que a noticiar a precisão da primeira marcha para os compromissos do dia que começa.

Bem ao depois, cumprida a lida, o jargão americano “happy hour” vem à tona. Saudade vem e faz doer. Gente bonita. À base de bons papos, fraterna amizade e muito afeto. Com direito a cantinho reservado. E vamos levando. Sonhando. Quem sabe volta.

Institui-se no espaço, a solene celebração informal. Palco a servir de disputa saborosa para brilho próprio de encantadora figura. Já faz tempo. A figura de Eugenie François Khouri. O menos francês e sírio-libanês dos brasileiros. Lembro-me quanto o visitei em Formiga.

Recebeu-me com fidalguia de cavalheiro. Na ocasião, serviu-me um sorvete de brigadeiro com refrigerante. Na ocasião, deparei-me, com um “meninão crescido”. Surpresa impetuosa em mudanças súbitas de assunto. A forma briosa como os conduz. Inteligência fina e rapidez no raciocínio. Fala tudo e de tudo. Na ocasião, dele me fiz ouvinte. Valor do bom jornalista que é. Filho e irmão bem-aventurado.

Compleição humana mesclada com a vontade de viver. Homem que vive para servir. Seu prazer: servir ao asilo, os velhinhos. Instantes de beleza que não têm preço. Apreço, sim.

Podemos ser e somos lados distantes. Diferentes no tempo e espaço. Na descoberta do íntimo, somos parecidos. Pessoas, pensantes e carentes. Uns dos outros muitos precisados. Fome premente de vida. Embora saibamos que não é preciso muito para se atingir, no estimável, os bons momentos. Não raro, fazemos muito em direção oblíqua. Por vias tortas. Talvez omissão ou covardia. Ou, no convívio elementar, por descuidadas negligências. Não damos chance e nem nos permitimos ao que chamam de felicidade. Ainda que por limitado tempo. A fugacidade temporal impõe. O drama do ser humano: buscar falsas alegrias e promessas vãs, onde exatamente não há.

Para os incrédulos tomem a magia de um simples “bom dia”, ou, quem sabe, um “olá”. Ou, então, um “como vai”. Também, em conta, um singelo diálogo, que muito supera a categoria dos neurotransmissores, tidos pela ciência como endorfina. Ou algo que o valha. Para a ciência, substância transportada pelo sangue, natural do sistema cerebral. Na química orgânica, pelos neurônios, atua como estimulante do sistema nervoso central. Objetiva relaxar, dar prazer, desperta a sensibilidade humana. Melhora o estado de espírito. Aumenta a resistência. Inclusive na restituição da disposição física e mental. Para completar, bloqueia as lesões dos vasos sanguíneos, ao tempo que tonifica e tem efeito incrível contra o envelhecimento precoce, exatamente por combater os radicais livres.

Por que digo isso e onde aprendi isso? Lendo, claro. Procure um médico da área para maiores e melhores explicações. Quando me pergunto: por que os médicos em geral não cuidam de ensinar a cartilha do bem viver na singeleza? Complicam muito. E viver no simples é sabidamente bom e salutar. Abaixo, pois, os elementos complicadores!

E não é só. A endorfina, em suma, melhora o sistema imunológico, ao tempo que alivia as dores. Este segredo está sendo passado de graça, pela magia da graça, a quem quiser. E unido na amizade pura e sincera, o santo remédio é encontrado como que nas boas casas do ramo. A prática de servir ajusta bem esse fenômeno.

Estamos presentes no fluir do tempo, das coisas, em vagos e profundos sentimentos. E podemos e devemos ser felizes. Ficar de bem com a vida. Com os nossos semelhantes. Entre alegrias para sempre – utopias à parte – a sorte é lançada. Mesmo porque a vida não foi encontrada a laço e a esmo. Ou achada em algum latão de lixo. É opção, bênção, que precisa de ação firme e permanente. E está em nós como que a dizer, enfaticamente: “Estou aqui! Viva bem! Não me jogue fora!”

Viver sisudo e carrancudo não justifica. Ódio, mágoa e rancor são traças da alma. Gesto de burrice viver assim. Reviver fatos danosos do passado é retrocesso. Saudade, sim. E entre perdoar e ser perdoado, melhor o primeiro estágio. Descobriu-se a pólvora. Não. Viver e envelhecer sem preocupação não é somente uma questão de inteligência, mas de sobrevivência pacífica e ordeira.

Que bom saber que existem pessoas com capacidade preventiva e que sabem como operar as mudanças necessárias. É ato contributivo da reengenharia da vida. A onda do mal veio. Faz doer, chorar. Uns tempos há de ficar. Temos muito pela frente. Tudo muito confuso, opaco, desordenado, obscuro.

Não permitamos, com todas as forças, que sonhos de luz deem lugar à obscuridade impetuosa. Lutemos com garra e força por sonhos construídos ou a serem construídos ao longo de toda uma existência. Se tempo é relativo, sejamos absolutos nos cuidados.

Afinal, somos especiais. E, por igual, responsáveis pelo corpo físico, mental e social, em louvação ao místico, pelo bem de um sagrado templo que nos foi outorgado pela glória de um poder maior que é o nosso próprio corpo, feito à imagem e semelhança do autor de tudo e de todos.

E estamos conversados. E conservados fiquemos todos. Na berlinda da sorte, por exercício de valoração da própria vida, o desafio aos que optarem pelo bem-estar coletivo e pela justificável qualidade de vida sustentável. Podem até chamar de “insustentável leveza do ser”, às avessas. Observando-se, é claro, o processo da relatividade.

Na lembrança, o escritor checo-francês, Milan Kundera, autor de “A Insustentável Leveza do Ser”, 1984. Entre outras coisas, Kundera disse: “Quando não cuidamos do corpo, tornamo-nos mais fácil vítima dele”. Pelo que encerramos: o fardo, sim, porém, que tal carregarmos com galhardia e responsabilidade?

PS: Para Issa Gonçalves Farah, o amigo que partiu rumo às estrelas – rumo à sua estrela – e deixou-nos tristes com um amargo sabor de ‘até breve’.