Opinião

Pavoroso Meme

Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho

28 de junho de 2021

Ao estilo Bandido da Cartucheira, ele que por um bom tempo em décadas passadas tirou o sossego de muita gente, em três diferentes estados, Minas especialmente – o facínora Lázaro Barbosa continua fazendo proezas. E bote proeza nisso.

O que representa essa figura até certo ponto sinistra ninguém tem posição definida. Foge ao tirocínio até mesmo da polícia especializada. Seu método de esconde-esconde vem fazendo dele uma lenda na imprensa policial.

Há uma força-tarefa em busca de Lázaro Barbosa de Souza. Segundo consta, suspeito de uma série de crimes no Distrito Federal e em Goiás. Nas redes sociais é apontado como “serial Killer de Brasília”.

A verdade é que passou a povoar o imaginário de toda a sociedade brasileira, que quer acreditar em algo palpável, material e corporificado, mas chega a duvidar. Quem segura a imaginação popular? Quando vem a pergunta: será Lázaro simbólica e fisicamente humano ou, quem sabe, algo a ver com o tinhoso, ser que muito tem a ver com o anjo mau?

Até quando escrevo esta matéria, tomo conhecimento de um rapaz com jeito e estilo de Lázaro, que andou apanhando por aí e outros tantos podem vir a sofrer duras penas em razão de mera semelhança com o coisa ruim. E quem anda com sacola preta como a de Lázaro, também corre risco de ser pego, morto e trucidado. E por aí vai. Tenho clientes que carregam consigo o biótipo de Lázaro. Moreno, magro, barba e bigodinho ralos, com o requinte de um par de brincos. Nem um pouco interessante hoje parecer-se com Lázaro.

O incrível nesse imbróglio todo, teoricamente um exagero, é a utilização do contingente de duzentos, trezentos, quatrocentos policiais no encalço de um único homem. Como de resto com a ajuda de dois, três, quatro helicópteros na busca pelo seu paradeiro. E nada de encontrar Lázaro.

Por último, recebo a notícia de que a força-tarefa irá valer-se de imagens de satélites e drones com sensores de movimento, capazes de registrar movimentação a 250 metros de distância, mesmo à noite.

Será fazer pouco da polícia ou muito de Lázaro?

Lázaro então ficou famoso. Um Billy The Kid à brasileira. Vai de um lugar a outro em fração de segundo. Ora está em Goiás, ora em Minas, ora em São Paulo. Está em todo lugar. Ou em nenhum.

Essa semana, a trabalho pericial numa fazenda próximo da White Martins, em Iguatama, ao passar pelo Trevo de Formiga, vi uma viatura cheia de policiais fortemente armados. Faziam sinais para um caminhão baú.

Estariam procurando por Lázaro ou serviço de rotina? Exagero à parte – ninguém segura o pensamento – continuei ouvindo a Prime FM. A canção, lançada ao apreço de boa audição e lembrança, algo a ver, às avessas. Um convite a boas notícias. “Give me a Good News”. Linda e saudosa. Pensei num amor distante, de antigamente, e que insiste tocar forte como antes.

No contexto musical, em parte da letra, embora “não possamos usar armas para construir uma nação”, melhor é uma boa notícia. Pertinente. Apropriada.

E a pergunta martelando: onde andará Lazaro? O que se desconhece. Esconde-se em campos, matas, selvas, matagais. Ser estranho. Será metade homem metade bicho, que, sem muita dificuldade, entrou para o mundo da ficção?

Criatividade é o que não falta a tantos neste país. Essa meninada cria cada coisa nas redes sociais. Tire-nos do atoleiro, querida juventude! – esse o apelo.

E em velhos e desgastados botões: quando é que vão parar de falar em Lázaro? Por todas as injunções possíveis e imagináveis, filio-me àqueles que piamente acreditam: um dia será encontrado, com direito a “wanted” de velhos faroestes: vivo ou morto.

Até lá, permita-me sugerir. O ex-ministro Pazuello não é versado em logística? Ué, bote o homem para bolar um esquema. Com o auxílio de Rambo é uma boa. Por se tratar de missão quase impossível, um Ethan Hunt. Os Mercenários também são ótimos. Ou, então, personagens de Liam Neeson, Bruce Willis… Pensando bem, com a imprescindível ajuda de um Sherlock Holmes, ou até mesmo um Hercule Poirot, dentre tantos que se situam em mentes férteis ligadas ao perigo e mistério.

Com a certeza próxima do real, deixaria de ser incomodado com a apavorante figura de Lázaro Barbosa, ele mais parecendo membro cativo da criação policialesca da escritora do ramo, a britânica Agatha Christie.

Até lá, misteriosas brumas londrinas vão continuar pairando e se misturando a memes e conceitos impactantes. De quando em quando, surgem para emoldurar o nosso cotidiano, já tão sobrecarregado de referências exóticas. Do esdrúxulo ao inimaginável. Eu vi. Há quem tire máscara de criancinha em época de pandemia. A ele, nada?

Não à toa, pelo aspecto evolutivo comportamental, o conceito meme foi criado pelo teórico Richard Dawkins, em 1976, em “O Gene Egoísta”. Intenção e propósito, a imagem instala-se no cérebro, a ideia é que se propague por conta própria. Ela por ela. Assim: “para se manter, morrer ou se transmutar”.

Lázaro Barbosa – incógnita a ser desvendada na configuração nada agradável da marginalidade – que saia da cultura popular e vá para um lugar conferido a delinquentes e malfeitores. Menos o meio social do bem, ainda que através de memes, cujas zoeiras e brincadeiras cheiram a ranço macabro.

Pelo princípio básico, lógico e irreversível, tudo na vida tem começo, meio e fim. Torcemos para que tudo isso acabe e logo. Antes, bem antes da santa e bendita paciência das boas almas de nossa gente tupiniquim.