Opinião

Paralelos entre 1964 e 2021

POR ESDRAS AZARIAS DE CAMPOS

17 de abril de 2021

Não resta a menor dúvida que a crise gerada pelas mudanças ministeriais do governo Bolsonaro recentemente, assustou e ainda não passou o perigo de um possível golpe ou auto-golpe com objetivos claros em dar poderes excepcionais ao presidente. Uma palavra resume todo este imbróglio cujo clima político criado seria para dar sustentação ao presidente Bolsonaro, Ditadura. Uma ditadura a exemplo da que aconteceu a partir de 31 de março de 1964. Até porque na cabeça dos golpistas seria um fechamento perfeito aproveitar o dia 31 de março, data esta tida como marco do início da ditadura Civil/Militar que durou 21 anos, ou seja, de 1964 a 1985.

Os analistas políticos da chamada grande imprensa apresentam o seguinte dilema: não existe clima político para golpe e por outro lado está sim se criando um evidente clima político para um golpe. Pelo menos para Jair Bolsonaro e demais amantes de uma ditadura existem as condições para tanto, e se não existe o clima político é só criar, aliás, é o que tem sido alardeado nos últimos dois anos do governo Bolsonaro, convenhamos sem nenhuma surpresa. Afinal de contas o Brasil está a beira de uma aventura ditatorial? Vamos fazer um paralelo do Brasil do ano 2021 em relação ao ano de 1964, talvez possamos chegar a algumas conclusões mais consistentes e mostrar que a fragilidade da nossa democracia esteve lá, como está hoje, sempre sujeita a golpes de Estado seguido de uma ditadura.

O povo brasileiro entrou nos anos de 1960, para usar uma analogia bem estimulante, em uma verdadeira lua de mel com a democracia. Não estou recorrendo à história escrita para afirmar isto, na época eu estava morando em Belo Horizonte desde 1961, trabalhava e estudava e como estudante, portanto, fui testemunha ocular dos fatos. O Brasil acabara de sair da era JK com mudança da capital federal para Brasília e iniciando o governo de Jânio Quadros um político populista que se elegeu prometendo varrer a corrupção e colocar os corruptos na prisão. Como se pode notar, esta questão de corrupção vem de longe. Mas vamos aos fatos que culminaram no golpe civil/militar.

Principalmente com os acontecimentos após a renúncia do presidente Jânio em agosto de 1961. Sem mais delongas sobre as dificuldades que ocorreram para que o Vice-Presidente João Goulart assumisse a presidência, os conspiradores e golpistas civis e militares a serviço da burguesia nacional tentaram todas as formas no intuito de impedir a posse do Jango e chegaram ao ponto de mudar o sistema de governo para parlamentarismo, porque assim poderiam retirar poderes do presidente. João Goulart, herdeiro político de Getúlio Vargas, nunca foi bem visto pelos setores conservadores do país.

Daí, de nada adiantou o parlamentarismo, houve um plebiscito e o povo escolheu o presidencialismo de volta e então o presidente Jango começou a governar formando um ministério de notáveis e progressistas. E de saída colocando em pauta os projetos para as Reformas de Base em todas as áreas tais como reforma agrária, educacional, tributária, bancária, enfim, tudo mais que um país capitalista precisa de fato para se desenvolver. Só que aqui no Brasil, não, aqui reformas de base eram vistas como programas comunistas e daí começou toda a campanha para a derrubada do presidente Jango.

Ao lado dessas questões políticas conspiratórias e golpistas a olhos vistos, no entanto o período de 1961 a 1964 apesar de curto era visível a euforia democrática, eu diria o melhor momento da democracia brasileira de toda a história, exceto pelo dia 31 de março. Explico. Nunca se viu um povo tão interessado por política e até mesmo pelas expectativas de que o país estava mudando ou criando as condições para as transformações sociais e políticas tão urgentes e necessárias. Todos os setores sociais desde as universidades, todos os campos das artes, da música e os seus festivais, o cinema novo brasileiro e o teatro refletiam e expressavam todo um amadurecimento de consciência política dos vários segmentos populares, algo até então inédito no país.

E foi exatamente pelo conjunto desses dois fatores, as propostas das reformas de base mais o crescimento exponencial político do povo brasileiro alertou aos golpistas que era chegada a hora de barrar o processo e assim deram o golpe final, instalaram a ditadura. E colocaram a culpa no risco do Brasil virar comunista! Hoje, passados 36 anos do fim da famigerada ditadura Civil/Militar, eis que os conspiradores e golpistas chegam ao poder da República e mesmo assim, planejam golpes, decididamente não sabem conviver com democracia, porque só conhecem mesmo é o vocabulário do autoritarismo.

ESDRAS AZARIAS DE CAMPOS é Professor de História