Opinião

Opinião: Reflexões acima de tudo e de todos

31 de março de 2020

Estamos à beira do caos, ou quando é que estivemos distantes do caos? Esta pergunta é apenas para levantar a questão crucial a que chegou a humanidade diante do vírus exterminador. Nesta questão do Coronavírus é provável que alguém já tenha dito o clichê indesejável, sobretudo indevido para o momento, “um mal necessário” ou então aquele ditado mais antigo “há males na vida que vem para o bem. Difícil de aceitar que um mal que atinge toda a humanidade venha para o bem.

A única lição que podemos tirar diante das tragédias, catástrofes e pandemias é reconhecer que os esforços humanos quando imbuídos de solidariedade e de profunda sensibilidade para socorrer os mais necessitados ou atingidos não foram medidos nem contabilizados diante das frias estatísticas da economia ou da burocracia da famigerada visão mercantilista dos lucros e das perdas. Digo isto, no sentido de engendrar a busca de uma reflexão mais profunda, mais abrangente para entendimento do nosso atual estágio humanitário. O estágio humanitário mundial está há mais de cinco séculos atrelado ao que se chama economia de mercado.

Entenda-se, portanto aí, pelas leis capitalistas da produção e distribuição de bens de consumo, serviços e tudo mais o que estiver ligado ao mercado. Onde a acumulação de riquezas cai em poucas mãos e mundialmente para poucos países o que se tornou a regra capital. Por questão de espaço nem vou entrar nas questões se as relações de produção entre capitalistas e trabalhadores são justas ou injustas, até porque existem vários países no mundo, a maioria por sinal, que sequer saíram do estágio selvagem do capitalismo. A questão ontem, hoje e amanhã mais ainda, se resume no seguinte axioma, ou visar a vida ou visar a morte! Quando a sociedade neste caso se vê diante da escolha entre quem vai viver e quem deve morrer, decidir pela morte ainda que das parcelas mais vulneráveis como a dos pobres e a dos idosos, podemos então afirmar que esta ou aquela sociedade sempre esteve à beira do caos e não sabia, ou hipocritamente finge que não sabe.

Este dilema eu diria este drama de consciência coletiva que se abateu sobre o mundo diante das pandemias do Coronavirús nos mostram duas posições governamentais, os que defendem a economia argumentando, que se esta for paralisada, as consequências econômicas serão mais drásticas que as “poucas mortes?” se comparadas com o grosso da população” e já sabendo de antemão que a letalidade maior atingirá os idosos e os pobres, então esta, seria a solução plausível para evitar recessões. Já a outra posição entende ou defende que paralisar a economia por um tempo determinado através da quarentena para evitar a difusão do Coronavírus que é muito rápida e devastadora, evitará o congestionamento nos já saturados meios públicos e privados hospitalares do país, como também evitará maior proporção de óbitos.

Enfim, evitaríamos um mal maior, até porque os danos causados à economia serão inevitáveis em qualquer das posições. E se adotada aquela sensibilidade e solidariedade tão necessárias neste momento não resta a menor dúvida de que a quarentena desde que tomada providências governamentais a exemplo dos países desenvolvidos sejam da Europa ou do Oriente e até dos EUA, buscando os recursos do Estado destinando verbas para socorrer os mais vulneráveis, incluindo até mesmo as empresas, assim poderemos passar por todas as fases da pandemia e no fim sobreviver com dignidade da consciência tranquila de que foi priorizada a vida.

O mais lamentável do ponto de vista político foi levar a nefanda polarização política para o âmbito da questão da pandemia do Coronavírus aqui no Brasil. Já se perdeu muito de tempo diante da inércia tanto do governo Bolsonaro quanto do Congresso Nacional todos eles mais preocupados com suas vaidades de qual dos poderes é o melhor e o mais popular e quem vai ganhar as próximas eleições. Chega de mimimis políticos, a hora é levantar os recursos e as verbas porque para isso existem as reservas e encaminhá-las aos destinatários mais urgentes, ou seja, aos pobres e suas comunidades, aos desempregados e aos setores da saúde pública. Então, toda esta questão se resume em uma ou outra saída: sair da beira do caos ou dar um passo à frente.

 

ESDRAS AZARIAS DE CAMPOS é Professor de História