Opinião

Opinião: O homem que queria ser biografado

Por Luiz Negrinho

13 de abril de 2020

Não o conheço, embora assegure não ser bom fisionomista. Também sou péssimo guardador de nomes. O que o cidadão quer é simples e muito pouco. Foi o que garantiu.

O pretendente não usa nenhuma esquisitice, embora pareça. Quer que eu conte, em crônica, algo sobre sua vida. O que fez, deixou de fazer, o que fará se Deus permitir. Em resumo: sua biografia, a sua história.

Naquele instante, sem raciocinar, fui direto ao ponto. Não sou a pessoa ideal para falar sobre sua vida nos veículos de comunicação nos quais me atrevo a escrever.

Puxa, pensei, e disse a ele, sem meias palavras. Não sou biógrafo. É muito difícil escrever sobre aquilo ou alguém que não se conhece. Não sei nada do senhor. De duas, uma: teria de ter acompanhado passo a passo sua existência, pelo menos parte dela, ou teria de ouvir suas narrativas, meter bronca e passar para o papel.

Levaria um bocado de tempo, fator desagregador de minha ínfima presença neste mundo que, efetivamente, julgo não ser relevante e tampouco objeto de interesse para terceiros.

Esqueci-me da terceira via. Escrever para agradar o interlocutor. Simplesmente, usando de frases feitas e não afeitas ao sabor e perfume do encanto da verdade. Fantasiar. E foi este acesso e comando que encontrei para aqueles vinte minutos de prosa, sem verso e nem métrica. A história de uma pessoa, sob o prisma de um desconhecido e pelas palavras e desejos de alguém que quer ver estampado em uma página, num simples, mas histórico pedaço de papel, aquilo que lhe é essencial: a sua vida. A designação do nome, feitos, relatos na simplicidade de uma roda-viva.
Exercício de paciência no início, depois, na química universal do amor fraterno, processo de empatia, no espaço de tempo solicitado e concedido, ouvi uma breve exposição de um homem sofrido.

Criou seis filhos, perdeu um e os outros cinco filhos estão bem, pouco contato, e a esposa, segundo ele, já está com Jesus. É aposentado, mal alfabetizado, recebe um salário mínimo do INSS, gasta metade com remédios, tem uma casinha feita com adjutório e vive como Deus manda. Vida comum, dura, e faz questão de dizer: digna e honrada.
Ganhara a vida, se é que se pode dizer assim, como carroceiro. Já fez mudança até de bacana. E gostaria de ter alguma coisa, ser ou ter sido alguém. Acha impossível qualquer operação de mudança àquela altura, pelo andar da carroça.

Pedi licença para discordar. Falei que ele é alguém muito importante. Que Deus sempre desejou o melhor para a sua vida. E esta já é um milagre. Nós fomos feitos para o amor, poder, prosperidade, sucesso, progresso, unidade na complexidade e dignidade a qualquer tempo e hora. Foi o que pude arranjar na circunstância para elevar o seu moral e auto-estima.

Num relance, contei-lhe sobre uma particularidade da vida de um personagem de Charles Chaplin, o conhecido Carlitos. Personagem marcante e que vale para todas as gerações e épocas. Texto lido em algum lugar do passado, numa dessas barraquinhas de camelôs, não me lembro onde e o teor. E mandei ver.

Carlitos estava sentando com a tradicional roupa, bengala em punho e um cachorro ao lado. Em tradução livre, Carlitos não era rico, famoso, não conhecia outros países, não comia em mesas fartas, não tinha nenhuma Gisele Bündchen em sua alcova. Enfim, era um homem comum. Entretanto, sentia-se imensamente feliz, pois tinha um cachorro.

Após ouvir minha narrativa, o “biografado” abriu um sorriso do tamanho da felicidade. Disse chamar-se Sebastião da Silva. Morava sozinho, isto é, mais ou menos, já que a partir daquele instante estava muito satisfeito e podia considerar-se mais afortunado do que o tal de Carlitos, já que tinha não um, mas três cachorros muito bonitos e levados: Bolinha, Rex e Lulu. E abaixo de Deus, eram os únicos e verdadeiros amigos e companheiros. “E o senhor, agora”, disse-me ele, “principalmente se escrever direitinho o meu nome no jornal: Sebastião da Silva, às suas ordens, também vai ser meu amigo de verdade”.

Agradeci. Que eu me lembre, algo ficou no ar. De repente, ele com olhar fito no horizonte. Não me ocorreu de fazer referência a nenhum de seus filhos. Nem sequer fez questão de mencionar-lhes os nomes.

Já o de Sebastião Silva, esse está aqui, com as honras de estilo. Publicado a um só fôlego, em única etapa e de inestimável valor e dedicado a alguém que quer ver parte de sua vida historiada, impressa, em boa homenagem.
Provavelmente, e creio, não para mostrar a quem quer que seja. O mais certo é para massagear-lhe o ego, com o apreço e ventura, caráter de idílio, na sensação de, em “Luzes da Ribalta”, se sentir “Um Rei em Nova Iorque”, ladeado de “A Condessa de Hong Kong”.

“Chorar o que passou”, prosa ou verso, é facultado somente pela semente das alegrias vividas. “Lamentar perdidas ilusões” é desaconselhável. E “o ideal que sempre nos acalentou”, ao contrário do original, poderá voltar a qualquer tempo e hora, não “em outros”, mas em todos os corações.

Depois de tudo, sem fraque, chapéu e nem bengala, sem mais nem menos, me pego sorrindo e solfejando a música “Smile”.

E havia luzes por toda a cidade.