Opinião

Opinião: Crônica da sobrevivência

2 de abril de 2020

Ao longo dos mais de 20 anos em que aqui compareço regularmente, nada tomou de tal maneira minha mente. A causa não poderia deixar de ser ele, o coronavírus.

Um texto, no entanto, há de se construir sob a indispensável coesão entre as ideias que expressa. Tento, pois, juntar os cacos dessa atual profusão de fatos e polêmicas para dar sentido ao que pretendo expor.

Sim, estamos em guerra, e a luta pela sobrevivência é o que surge inicialmente a qualquer um. Não vivi os horrores da Segunda Guerra, mas ouso afirmar que nenhum outro fato, desde então, adquiriu ares de tamanha importância e abrangência.

Rendamos, portanto, louvores à profecia de Raul Seixas. A Terra realmente parou para viver em função do vírus.
Mais grave ainda: estamos todos, sem distinção de raça, cor, sexo, condição econômica ou preferência sexual, perante um inimigo comum e invisível, além de ainda não termos a medicação definitiva para derrotá-lo.

Corremos contra o tempo e contra seus ataques iminentes. Enquanto isso, restam-nos as trincheiras da prevenção.
Como se já não bastasse, porém, o imenso confronto bélico que nos acomete, surgem outros, ao molde de filhotes do que lhes deu origem. À imagem de um átomo, que possui seu núcleo, mas com elétrons que giram em seu entorno.
O pacote é imenso. Não faltam ideias sobre estratégias, receitas de cura, fluxos de conspiração e paranoia, temores vários, controvérsias inevitáveis, o lixo das fake news, excesso de discussões políticas, mensagens cômicas, mensagens de autoajuda e assim por diante.

Tal panorama é tão extraordinário, que se torna realmente um teste de múltiplas faces, inclusive de tolerância, em nossas atuais prisões domiciliares.

Eis que, de repente, temos espécies de desafios íntimos, não só como indivíduos que somos, mas como membros de uma sociedade em que a convivência sempre ditou as normas.

Jamais esqueceremos de todo esse espetáculo de dramas, horrores e terrores, mas também do qual derivam, por ironia, sentimentos de companheirismo, amor, solidariedade e consciência coletiva, além dos exaustivos trabalhos que só o ser humano é capaz de executar em situações-limites.

Apesar das dores, das preocupações com o momento e com o futuro, do desprazer das restrições, do show de vozes diversas, surge-nos, sim, esta oportunidade, por mais dolorosa que seja, de parar um pouco e repensar os rumos que almejamos para nós e para o mundo.

Não há dúvidas, em todo caso, de que reconstruções ou redescobertas são necessidades que se apresentam em todas as áreas. O horizonte de efeitos mais drásticos do que a própria infecção está logo ali, também a requerer medidas prévias que não faziam parte dos planos.

Se o debate gira em função de vida e economia, alio-me a quem defende a tese de que não devem ser entendidas como fatores opostos. Isso já parece claro. A questão maior são prioridades, emergências, dosagens e suportes para agir numa frente sem desprezar jamais a outra. O passar dos dias há de nos oferecer subsídios.

Bom, este texto nada mais é do que um desabafo de alguém que se vale das palavras lidas e escritas, até como forma de sobrevivência mesmo sem coronavírus. Imaginem então a sua importância em época de reclusão.

Por ora, agradeço aos meus livros, aos meus jornais, aos exercícios de inglês, a alguns filmes, ao meu celular, aos canais brasileiros e estrangeiros que tenho visto, a alguns exercícios físicos em casa e às caminhadas isoladas no triste silêncio da cidade.

Sobreviverei. Sobreviveremos.

 

ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente às quintas nesta coluna.