Opinião

Opinião: Arroz com feijão

6 de abril de 2020

No que diz respeito à importância e representação, caso se pergunte a um sábio a tradução da simplicidade na gastronomia, usando de analogia bem prosaica, a resposta no provável pode não ser tão diferente do que as pessoas comuns pensam e acham: “Arroz com feijão”.

 

Mas como: manicômios fechados pela Lei da Reforma Psiquiátrica há 15 anos, desativados em larga escala, e a resposta vem essa de “arroz com feijão?” Ô, louco, meu!

 

Calma. Não há nenhuma insanidade explícita ou implícita na tese expositiva. Passos adiante, em permitida sofisticação, licença aos veganos, vegetarianos e aos que nada comem que julguem passem pela morte (há controvérsia) – um prato com bife, batatinha frita e um zoiudo por cima, até que vai bem. Muito bem.

 

Some-se a isto, a se colocar requinte na simplicidade gastronômica posta à mesa: salada de tomate, alface, cebola, brócolis… Chega, está bom! Aparece outro e acrescenta ao rega-bofe: abobrinha caipira batidinha, couve artisticamente picada. Eita! Luxo só. Pra lá de bom.

 

Sem nenhuma bravata de ordem, temos em verdade que o simples, o singelo, o básico, o desprovido do complexo, sem nenhuma dúvida é melhor, satisfaz, não engorda, não é caro e não concorre para malefícios alimentares.
O que se quer dizer é que não há engenharia e complicação para se viver bem, sem perder a forma, o jeito de ser feliz com o pouco que se tem. E mais: as pessoas mais felizes do mundo não são, necessariamente, nem de longe, as mais ricas e abastadas. Pelo contrário. Muitas delas habitam em tribos, em comunidades isoladas, nas montanhas, em locais inóspitos, longe da balbúrdia de uma sociedade voltada para a gritaria ensandecida do complexo. E muitas dessas comunidades vivem basicamente do mínimo para a sua subsistência. Da pesca, da caça, do campo, das árvores frutíferas.

 

O simples mencionado aqui é diferente do vulgar. Vulgar nada tem de agradável. Vulgar cheira a porcaria. Aí se tem de encher de temperos como ketchup, mostarda, maionese agridoce, para dar gosto ao que não tem. A própria palavra já provoca arrepio, a imagem do que não é bom. Conotação do não agradável, o que não se destaca. Ordinário, por assim dizer. O simples diferencia-se do misturado, da multiplicidade, do complexo, do confuso.
No contexto, a beleza do simples e ou da simplicidade se confere exatamente por não conter na substância nada referente ao complicado. Não há múltiplas escolhas. No comum, de duas uma. Ou o menos possível. Por exemplo: entre corrimãos de luxo, melhor é optar-se pelo lirismo dos campos e bosques naturais no que há de mais singelo. A esperança do verde e selvagem, que nada tem de feio.

 

O cenário é bucólico, no que há de mais rico em biodiversidade. Para os amantes da natureza, em especial. A priori, ver e gostar com os olhos. No meio o aroma. A posteriori, usa-se a sutileza do paladar, a degustação, e nada mais é do que a percepção fina que se aplica ao paladar.

 

O que fazem os grandes chefes de cozinha, senão ganhar os adeptos pelos olhos e aroma, mediante especiarias naturais para suas magias culinárias? A famosa “cara boa”.

 

Hora, vez e voz ao cotidiano. Certa feita, no trajeto São Paulo/Minas, transporte rodoviário (de ônibus, pois), submeti-me a uma parada obrigatória de 20 minutos para jantar, na altura da cidade de Mogi Mirim (SP). Restaurante razoável, sistema self-service, muitas iguarias.

 

Para um curto espaço de tempo, em vez do alimento leve, o despropósito. Optei por um prato de massa, cujo molho de tão bonito, escondia seus pecados. Comi à farta. Terminado o jantar, ao ser chamado a ocupar o assento no ônibus, a complicação.

 

E precisa explicar? A escapatória, o trono! Pedi ao motorista para deixar minha bagagem para o próximo horário. Eram 3h da manhã, e o próximo carro só passaria às 10h30. Tragédia grega: sem choro e muita água com limão e bicarbonato.

 

Não preciso dizer mais nada. Vítima de violenta disenteria, na origem, não de todo ignorado, atacado por fungos, bactérias e, sobretudo, falta de juízo!

 

A verdade é que não pude seguir viagem. Ficara à mercê do não ambicionado trono para nenhuma realeza, despojado de séquito e coroa. Até então nem precisei levar a sério o ranking de países em que a população vive sorrindo até de fratura exposta. Caso de Finlândia, Noruega, Dinamarca, Islândia e Suíça, locais em que a felicidade se faz presente no todo (whole) e não nos orifícios (hole) de equivocadas famílias inseridas em delicadas situações para redes e contatos sociais.

 

Em sendo assim, o melhor a fazer na vida é viver simples, agir no simples, transformando a composição em partes, na busca do plenamente possível, para a geração do bem-estar e a felicidade das pessoas, para que estas se realizem no satisfatório, dispensando-se os desatinos na complexidade das substâncias.

 

Entre o complexo que dá nó no entendimento geral, melhor é o simples, na objetividade dos enunciados e explicações. O prato arroz com feijão é a combinação perfeita, é preferência nacional, parâmetro que se estabelece de 9 entre 10 brasileiros.

 

Para uma pobre e desassistida criatura, o ato classificatório não ficou inteirado, devido a essa ocasião. Ocasião em que um desajuizado e leviano cidadão se vira subjugado pelos olhos e posteriormente à mercê de um infeliz trono em Mogi Mirim. Cara pálida e macilenta, suando frio, pose pra lá de burlesca. Um autêntico espírito de porco a não dever para palhaço algum no que este tem de mais engraçado para nenhuma plateia ver e conferir.

 

Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho