Opinião

Opinião: A coragem do doutor Mandetta

9 de abril de 2020

Há muito venho falando, neste minifúndio de papel, que atravessamos uma fase do mais ininteligível canibalismo político dos últimos tempos. Vivenciamos em um primeiro momento o fanatismo lulopetista, que fez com que seus adeptos até hoje sejam incapazes de ver os desatinos do “santo” cacique-mor.

Cada dia me sinto mais nauseado por esse teatro político no qual os mentores comandam seus feudos, para lhes defender a qualquer preço.

Quando imaginei, com a brusca queda do prestigio político de Lula, que iniciaríamos outra fase da política brasileira, toma maior vulto, neste momento, grupos também extremados e radicais de apoio a Bolsonaro, que representa apenas o polo oposto ao que existiu nos governos petistas, a outra face da moeda e que comete similar insensatez e pedantice. Também são os donos da verdade incapazes de interpretar acontecimentos, sem reconhecer erros cometidos pelo novo líder da direita.

Eu, que desejo perseguir em minha vida o difícil encontro com a coerência, com capacidade de refletir sobre a realidade sem contaminações passionais, fico no desalento especialmente quando a república acaba girando em torno deste maniqueísmo patético, assistindo, sem sobressalto, “cobras comendo cobras”.

O exemplo dos fatos que envolveram o “futuro ex-ministro” da saúde, Dr Mandetta: ao defender suas medidas de proteção da população contra o covid19 e por ter uma presença de qualidade na mídia, Mandetta contrariou o Presidente. Tal fato não ocorreu por divergências quanto à estratégia de combate à pandemia, mas sim porque Bolsonaro foi picado pela mosca azul e sempre que algum de seus ministros se destaca, trata logo de lhes fritar em fogo brando. Sérgio Moro foi vítima disto, assim como o ministro da Fazenda Paulo Guedes, ambos com desempenho bem avaliado, que fizeram com que o chefe se desgostasse.

 

O certo é que Bolsonaro parece viver o dilema de conciliar suas vaidades com as verdadeiras intenções de seu governo, sabendo que apenas não ter casos de corrupção em sua equipe é muito pouco para um país que precisa da eficácia governamental para sair da crise. É verdade que existem grupos de oposição que usam de artimanhas nem sempre republicanas tentando desestabilizar o governo, mas somente resultados de suas ações poderão vencê-los. Jamais terá êxito produzindo crises internas e externas ao governo e punindo quem quer que seja que ameace seu protagonismo, através de um processo de desmoralização nas redes sociais e finalmente com uma sofrida demissão.

Aliás, nas redes sociais, a tropa de choque bolsonariana, que muitos admitem ser comandada pelo tal “gabinete do ódio”, tratou logo de viralizar publicações as mais estapafúrdias tentando desconstruir o Ministro da Saúde, até que na última terça-feira aconteceu uma reunião no Planalto para que este fosse demitido pelo Presidente.

Nunca acompanhei a vida política de Mandetta, mas sua postura, revelada por pessoas que assistiram ao encontro, confirmam minha impressão a seu respeito: parece-me uma figura politica admirável, capaz de se colocar em risco e corajosamente defender suas convicções sem se ajoelhar frente ao poder.

Algumas nuances da participação de Mandetta em tal reunião, quando foi firme em sua fala de cerca de 20 minutos:

– “O senhor quer tocar de outro jeito. Pode tocar! Qual a marcha que o senhor quer, pois vamos passar num desfiladeiro. Como o senhor quer passar: acelerado ou devagar?”

– “Agora, não pode brigar com quem você nomeia. Toda a semana tenho que ficar encontrando um jeitinho de arrumar as coisas”.

– “A questão não é se vou ficar. É quando você vai ter condições para me tirar. E quando vou ter condições para sair”.

– “Não vou tirar a autoridade dos governadores e prefeitos. São eles que executam na ponta”.

– “Médico não abandona paciente. Eu não vou abandonar”.

– “Vocês vão me dar licença que eu preciso trabalhar. Cuidado para não colocarem o presidente em uma gelada.
Bolsonaro se sentiu obrigado a recuar, mantendo seu destemido ministro e vive um momento crucial: se perder ouvindo pessoas ineptas e filósofos de araque e persistir encontrando teoria da conspiração em tudo e em todos, ou procurar ouvir quem tem a coragem cívica de se posicionar, usando de franqueza, como foi capaz de fazer o surpreendente Dr. Luiz Henrique Mandetta, dando mostras de como deve agir um verdadeiro e leal ministro, deixando o exemplo de postura de invulgar homem público.

Já tivemos um presidente que no passado falou da “marolinha” e gerou milhões de desempregados; agora Bolsonaro desafia a comunidade científica internacional classificando a pandemia como uma “gripezinha”.

Porém, Senhor Presidente, corremos o risco de que o improviso, o “achometro” e a priorização de valores econômicos resultem na perda de vida de milhares de brasileiros, em especial de nossos ancestrais, a quem devemos tanto e que estamos obrigados pela Lei Divina, a lhes honrar e a lhes dedicar toda a solidariedade do mundo.