Opinião

Ofranei do Brasil

24 de abril de 2020

“No meio da confusão, encontre a simplicidade. A partir da discórdia, encontre a harmonia. No meio da dificuldade reside a oportunidade.” – Albert Einstein

Eu nunca consegui compreender bem no processo político e econômico, qual seria a verdadeira razão para que o Estado se imiscuísse pelo setor secundário e terciário, passando a possuir empresas estatais de segmentos os mais esdrúxulos possíveis como produzir adubo sem nenhuma finalidade social, ou até mesmo hotéis de luxo ou fábricas de asfalto.

É assustador constatar que, ao final do regime militar, a euforia nacionalista dos generais-presidentes fez o país chegar a ter 382 estatais sob o controle da União e hoje, após as privatizações das últimas décadas, o Governo Federal é dono ou tem participação majoritária em 154 empresas. Na era petista, tais estatais passaram a ser a galinha dos ovos de ouro de gatunos e corruptos que fizeram a maior quadrilha de desfalque a cofres públicos que se tem notícias, basta verificar o que ocorreu nos Correios, Petrobrás e muitas outras empresas públicas comandadas pelos discípulos de São Luiz Inácio.

Sempre defendi o livre mercado e a presença do Estado fazendo o papel de regulamentados, garantindo regras que empreendimentos privados estejam de acordo com a lei e com as necessidades da nação, sendo detentor de atividades econômicas apenas e tão somente de segmentos essenciais. Entretanto, deve também o Estado, e talvez isto os liberais ortodoxos não consigam enxergar, atuar firmemente para eliminar as desigualdades e atendimento a demandas sociais mais prementes e que ameaçam a dignidade humana dos trabalhadores e principalmente atue em favor dos excluídos e marginalizados no processo social capitalista. É, por exemplo, inaceitável que em tempos de desemprego estratosférico, que se permita o poder dos geradores de emprego de impor condições de degradação do emprego silenciando os trabalhadores face ao temor de perderem suas atividades de sustento, assim como não atuar não somente fomentando a geração de novas oportunidades de trabalho, como também acudindo suas necessidades básicas com políticas chamadas assistencialistas, mas que, embora não sejam solução permanente, oferece condições mínimas de dignidade àqueles que padecem talvez do maior flagelo de todos que é o de não conseguir trabalhar.

E somente quando uma pandemia mundial paralisa a economia nos ameaçando duramente de uma seríssima convulsão social pelo desmantelamento econômico em virtude do necessário isolamento social, somente quando o vírus agride a todos indistintamente, veio a baila a preocupação social e despertou no governo a responsabilidade de tirar, sabe se lá de onde, recursos, ainda que limitados e insuficientes para amparar aqueles que passam por privações. É preciso de reconhecer que o governo Bolsonaro acertou ao criar o auxílio financeiros para famílias carentes, mas sobretudo isso não pode jamais ser um mero “sonho de verão”, precisando de lembrar que o Brasil possuía mais de 11 milhões de desempregados mesmo sem a devastação do covid19. Estávamos acostumados a não voltar os olhos para tantos pais de família que não tem sequer o seguro desemprego e que as “bolsas” definitivamente não são solução para este problema.

Mas existe um contraponto da mesma forma cruel neste contexto todo, oriundo das mazelas de um país que ainda não compreendeu que educar não é alfabetizar e muito menos ideologizar pessoas, mas sim erigir a cidadania e implantar valores e virtudes que o mundo moderno não valoriza mais. Digo isto porque tive a oportunidade de conhecer desde já pessoas usurpando recursos do auxílio financeiro em socorro aos flagelados do Coronavírus, não somente mascarando declarações para obtenção irregular dos seiscentos reais, como também para não os utilizar com finalidades de promover necessidades mínimas de suas famílias.

Felizmente existem milhões de pessoas justas e honradas que atuam de forma correta, revogando em definitivo a malfadada lei de Gérson.

Para mostrar isto, enalteço aqui um brasileiro humilde, do Estado do Pará, o Sr Ofranei de Souza Andrade, que diante que passa, publicou vídeo que viralizou nas redes sociais, explicando que usou os recursos recebidos para suprir sua família de alimentos e com uma parte do dinheiro, adquiriu pintinhos que adquiriu pintinhos que vai criar e utilizando desse expediente, ao final dos 90 dias de socorro financeiro, estará com 210 franguinhos, criando uma oportunidade de conseguir, por mais tempo suportar a grave crise que vivemos.

O exemplo do Sr Ofranei é um alento a brasileiros que conseguem priorizar uso do pouco dinheiro que tem, e mesmo na simplicidade de sua atitude, demonstra que definitivamente não somos um país de Macunaímas e haveremos de mostrar ao mundo que enganadores e gatunos sempre serão uma minoria inexpressiva.

 

Gilberto Batista de Almeida, é engenheiro eletricista e ex-político