Opinião

“O último dia de um condenado”, de Victor Hugo

Alberto Calixto Mattar Filho

10 de junho de 2021

Reli, no fim de semana, uma obra que havia me sensibilizado muito em março de 2014. O título em si já se apodera da imaginação do leitor: “O último dia de um condenado”, do escritor francês Victor Hugo. Coloquem-se no lugar de alguém que aguarda semanas, dias e minutos para o fim prenunciado. E da pior forma possível: ao oferecer obrigatoriamente o pescoço e a cabeça à guilhotina. Basta isso.

A carreira de Victor (1802-1885) Hugo é bastante vasta, com incursões por diversos gêneros literários, como a poesia, a dramaturgia, a filosofia, as novelas e os romances. “Os miseráveis” e “O corcunda de Notre Dame”, no caso dos romances, são os de maior fama.

Integrante do movimento romântico na França do século XIX, sua atuação política, tanto quanto a literária, também não deixou de ser intensa. O objetivo que lhe movia eram os ideais republicanos, democráticos e até liberais, todos como uma forma de diminuição das profundas desigualdades.

“O último dia de um condenado” não resulta em uma obra longa. Em aproximadamente 160 páginas, Victor Hugo dá voz a um prisioneiro condenado à morte na guilhotina. Naqueles anos da França de meados do século XIX, morrer na guilhotina representava fato corriqueiro. Inúmeros crimes até menores acabavam no cadafalso sob o ato derradeiro de um carrasco, após rápidos processos judiciais apenas para garantir a aparente capa de legalidade da truculência.

Os eventos eram públicos e até festivos. Em analogia a um jogo de futebol nos bons tempos, não faltavam nem os vendedores ambulantes, que utilizavam a barbárie para oferecer seus produtos à massa de espectadores. Os urros da multidão, ávida pela crueldade, davam a coloração de verdadeiro esporte às execuções que ocorriam em curtos intervalos de tempo entre uma e outra.

Se à literatura cabe o poder de transportar o leitor para a vida dos personagens, não há como sair inerte da leitura de “O último dia de um condenado”. Ao contrário, suas frases nos transmitem uma das piores sensações que podem acometer o ser humano, a da injustiça.
Sobram momentos em que o relato do condenado – cujos nome e delito nem surgem no enredo – esparge indignação e críticas aos calabouços insalubres, às condenações em trabalhos forçados nas galés e, acima de tudo, à pena capital, com muitas alusões a exemplos de vários atos do mesmo teor e com métodos sempre bárbaros no decorrer dos séculos.

Não faltam nem a ironia, nem o sarcasmo, nem o repúdio às estruturas legislativas que davam suporte a tal pena, simples trâmites sob a caneta de juízes e procuradores frios, impiedosos e que, por isso, mandavam executar pessoas como se apenas estivessem batendo, com desleixo, um carimbo em um documento qualquer. Já os carrascos, espécies de servidores do reino, ali estavam para cumprir o horror do ofício também de forma meramente burocrática.

Emergem das páginas confissões e lamentos pungentes do condenado, que, além de seus questionamentos à atrocidade de que logo seria vítima, revela ter mulher e filha criança. Quando retrata as relações com a filha, a dor atinge o ápice e toca mais ainda o leitor.

As descrições logo avançam para o fim, para a apoteose da execução, para os detalhes do transporte do condenado, pelos carcereiros, ao lado do padre e em meios ao molde de carroças com grades. O terrível transcurso engloba também esperas em salas, degraus e corredores que antecedem o ato final no cadafalso, tudo ao dispor dos olhos do grande público.

Em todas as circunstâncias, seu pensamento ainda existe, e sua esperança, por mais ínfima que já estivesse, clamava, no fundo da alma, por um perdão régio ou de alguma outra natureza, já que os recursos processuais haviam sido rejeitados, como sempre ocorria com os condenados à morte. Mas tudo se esvai em esperanças vãs.

“Um juiz, um comissário, um magistrado, não sei de que tipo acaba de vir. Eu lhe pedi a graça juntando as duas mãos e rastejando de joelhos. Ele me respondeu, sorrindo fatalmente, se era tudo que eu tinha para lhe dizer.” (pág. 151)

Toda época possui suas palavras predominantes. Atualmente, empatia possui lugar de relevo em razão da tragédia que vivemos há mais de um ano. Ler “O último dia de um condenado” representa, sim, um verdadeiro exercício de empatia.

E ao se ver de tal forma, no posto daquele infeliz que só sabia enxergar seu trágico fim, o leitor há de compreender as reflexões de Victor Hugo contra a pena de morte, que vêm separadas e em forma de libelo argumentativo, assim que a ficção se consuma. (págs. 157/184)