Opinião

O povo e sua cultura

Por Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho

23 de agosto de 2021

Provérbio usado no comum aponta que santo da terra não faz milagre. De origem bíblica o significado é de que as pessoas de sua terra não costumam ser valorizadas pelos seus, especialmente em relação a fatos e feitos.

Pude comprovar no início da semana que não é bem assim. E nem pensem tratar-se de bairrismo a ponto de sair da linha e me enquadrar no ufanismo de Afonso Celso, lembrando uma de suas obras: “Porque me Ufano do Meu País”.

Na terça passada, a confirmação: santo da terra não só pode fazer milagre como pode, sim, dar o ar da graça e exibir preciosidades que possui. E as mostre e revele a partir do berço nativo para o além-mar, sim senhor.

Foi no programa do ciclo “O Charme do Violão Mineiro”, projeto do violonista Celso Faria, ele que vem promovendo importantes encontros e entrevistas num belo trabalho realizado de forma remota, com transmissões semanais pelo Youtube, com apoio participativo da Folha da Manhã. Induvidosamente, sucesso garantido para a alegria de webs telespectadores.

Desta feita, para o conforto de quem ama o berço esplêndido, o convidado de número 15 foi Denilson Reis, entre outras qualidades, violonista, cantor e também produtor musical.

Natural de Passos, Denilson demonstra capacidade artística multifacetada. (Eles industriam vocábulos e a gente traduz). Multifacetado indica o “que tem muitas faces, ângulos e lados”. Muito mais do que o artista faz e produz e mais ainda do que julgam crer sobre seu talento. Um ‘up’ em qualificação e quantificação.

Quando as qualidades artísticas ultrapassam os limites do que convencionam chamar-se de bom e acabam na inserção do ótimo. Em suma: um privilegiado no segmento artístico.
E por que escrevo isso é simples.

Cada povo tem suas raízes culturais. Num bom mergulho de caráter social é o conjunto de conhecimentos no qual envolve tudo que se relaciona a valores de uma realidade histórico-cultural. E nisso entram símbolos, tradições, ideias, costumes e práticas que se tornam características de um grupo, quer seja familiar, social, étnico, religioso, e assim por diante.

As entrevistas de “O Charme do Violão Mineiro”, a bem dizer, são intrinsecamente mineiras. Cheiram a café no bule no rabo do fogão a lenha. E a pão de queijo, com bastante queijo da Canastra. A juntar-se goiabada cascão, a homenagem merecida ao mineiro João Bosco, no seu O Rancho Da Goiabada.

Foi assim com Denilson, como tem sido com os demais, desde sua origem, ocorrida em maio deste ano. E vem pouco a pouco criando raízes mundo afora, graças a um conjunto de fatores, que vão desde a qualidade do apresentador Celso Faria – um predestinado no setor musical, como pela influência e celebração dos entrevistados.

No ciclo das entrevistas, notáveis participantes vêm corroborar que Minas é muito maior do que se pensa. E os baluartes vêm desfilando em grande estilo nas passarelas do que temos de melhor. E não à toa a nota histórica afinada de que o violão “deriva-se da ‘Cítara Romana’, tendo seu uso – pelo que se sabe – se expandido com a dominação do império romano.

Se ao projeto edificante atribui-se ao violão um protagonismo todo especial, a ideia central é fazer valer a capacidade artística voltado à arte na supremacia do que esta representa em termos de efeitos modificativos e transformadores na educação e cultura de um povo.

Quanto ao instrumento violão, um detalhe a ser apreciado: um cantinho, um banco e um violão. Se houver uma voz – como a de Cássio Vasconcelos e a flauta de Silas das Mercês – aí, então, a festa se originaliza para dizer: vamos ao ‘Studio Alfa’ para, quem sabe, homenagear o Senhor dos Passos. Pela frente, o alvo: a canção que tornou-se símbolo da paz, harmonia e espiritualidade. E o povo, ainda mais aceso na crença, insiste acreditar na possibilidade de que dias melhores virão.

Em ardência febril de rara felicidade, alguém em meio à apresentação da entrevista com Denilson Reis, invoca o poder da instituição. O de sacramentar a iniciativa da criação e instalação de um Conservatório Artístico-Musical em Passos, em nível regional.

Quando surge a figura de Júlio Verne e suas mirabolantes visões futuristas. Ele que disse: – “Tudo que um homem pode imaginar outros poderão realizar”.

Sendo assim, o que seria o Conservatório Regional de Música senão uma academia bem diversificada: da música instrumental ao canto; da arte dramática à declamação. E demais segmentos artísticos. Belas-artes exaltando um povo feliz de alto poder criador, inobstante tormentosas agruras no campo social e econômico.

A arte da música enaltecendo o que há de bom, rico e valoroso. Muitas façanhas a serem exibidas, tocadas, cantadas e contadas a toques de muito talento.
Salve!

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado, escreve aos domingos nesta coluna. ([email protected])