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O papel da imprensa séria

POR LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO

5 de abril de 2021

Há fortes motivos para governantes gostarem ou não da imprensa. Há os que aprovam e lhe rendem homenagens. Há os que nem de longe apreciam o seu papel, com o perdão do trocadilho.

Nisso entra uma das funções primordiais da imprensa: o de informar. E se deve fazer com lisura e sem partido. Com responsabilidade, sobretudo. Também o de fiscalizar a gestão e a conduta dos governos, o que fazem ou deixam de fazer.

Não pode haver subserviência e nem obediência aos comandos da comunicação política, como sói ocorrer por aí. Bom que se guarde distância do referencial político e ideológico. Não importa o governo e sua linha de ação. Que seja em benefício do povo.

Caso não esteja afinado com o jornalismo sério e independente, sedimentado na liberdade de imprensa, na fina transparência (um dos pilares da democracia), a sociedade por inteiro fica a descoberto no seu direito de tomar conhecimento das pautas e assuntos importantes que diretamente lhe dizem respeito.

Preocupante a forma como o atual governo da República vem tratando a imprensa em geral. No desvario beneficia certas áreas de comunicação e, noutra medida, ataca e menospreza outros segmentos, simplesmente porque não concorda com sua linha editorial, não aceita críticas e observações que lhe são desfavoráveis.

E no uso de incomodadas metáforas, a torto e a direito, logo surgem retaliações sórdidas a golpes de balas, cassetetes e coronhadas, sem o mínimo de constrangimento.

Outro objetivo dos meios de comunicação é o entretenimento. Para tanto, a liberdade de expressão é fundamental. A liberdade de imprensa foi uma conquista adquirida no Brasil no fim do século XX, exatamente com o fim da ditadura. E era para ser utilizada para o bem. Vale para a imprensa como um todo. Na chamada “grande mídia”, as fake news são um horror, e não só atrapalham como são lesivas a ponto de levar à morte. Temos de combater as notícias falsas a todo custo.

Assim como temos o dever de abrir espaço ao jornal local, a mídia mais presente em nossas vidas, que nos ajuda nas informações, nas valiosas formações, e diretamente nos dizem respeito. São notícias, enfoques, dados, em favor da comunidade. Instrumentos em forma de janela imprescindível, a fazer frente ao excesso de informações disponíveis e nem sempre confiáveis no sistema digital.

Neste caso, é de capital importância o jornal da cidade e região. Mão amiga pronta para o abastecimento de notícias fresquinhas, sem as quais não há como manter-nos com os pés firmes e mentes sintonizadas no cotidiano, por mais desagradáveis venham a ser. Sim, é verdade. Há quem assina e lê o jornal pelos obituários. Fazer o quê?

Constata-se, no entanto, em relação ao governo federal, que, em não sendo do agrado a livre manifestação das opiniões, pelas vias até mesmo da diversão e entretenimento, ainda que de maneira simples e jocosa, acaba por impor atos que geram desconforto na sociedade civil organizada. E haja bombas do guandu como efeito de deletérias cascatas! E chegam a falar em leis de segurança nacional para determinadas situações, o que não deixa de ser piada de mau gosto. Estado de sítio, nem há se falar.

E quanto a fazer acepção de pessoas e órgãos da imprensa, qual seja tratar de maneira diferente usando métodos diferentes para julgar, quantas vezes ouvimos do próprio presidente Bolsonaro, em suas lives de quinta-feira: – “Você é de qual veículo de comunicação? Da Rede Globo? Não respondo”. – “E você… É da Folha? Também não respondo”.

É preciso avisá-lo de que ele se elegeu presidente do Brasil, de todos os brasileiros. Não só das Forças Armadas. Ou de desavisados terraplanistas.

Mas o problema é mais grave. Não raro as perguntas incomodam, machucam, atrapalham. Fatos procedem. E não há como escamotear, esconder. Então o desespero. A irritação. Fosse do agrado, responderia e faria as fanfarronices de sempre. Do costume, não fugindo das brincadeiras tétricas e macabras. Quando não, no uso de inverdades. Quem participa das lives são ele e sua patota. [Live é uma transmissão ao vivo na Internet, normalmente por meio das redes sociais]. E o que se vê na frequência é o governo federal armando discussões inócuas e desnecessárias com as instituições, como o STF, os governos estaduais e os prefeitos, com os quais não se identifica.

Ridícula a atitude do presidente na live (1º/04). Referiu-se a setores da imprensa com ironia, referenciando-os ao Dia da Mentira. Esqueceu das suas. Muitas e horrendas. Em quantificação, para se ter ideia, segundo a colunista da Folha de São Paulo, Igor Carvalho, “desde que assumiu a presidência em 1º de janeiro de 2019, em 820 dias de governo, foram 2.662 declarações falsas. Uma média de 3,2 declarações falsas por dia”. Fonte: ‘Aos Fatos’. É mole ou quer mais?

Aprendemos desde tenra idade: para desarmar quem objetiva tirar-nos do sério, seja com chacotas, caçoadas, brincadeirinhas bobas, o melhor é rir com os tais. Tomemos como algo não relevante. A graça logo desaparece. Perde-se no vazio.

Tão simples quanto o ar que se deve correr livre, leve e solto nas cercanias de momento, é quando nos chamam por apelidos e não queremos que se firmem. “Eu? Rato Branco? Que bom! Mais um para a coleção!” Não dá BO, desarranjo intestinal, não vai adiante. Perde-se no desencanto, no singelo. Porque aparentemente não incomoda.
Caso haja exorbitância e passe dos limites, hipótese de bullyng, difamação e ofensa moral, é outra coisa. À vista disso, cabem medidas sérias. Até mesmo na esfera judicial.

Governantes populistas e suas hostes – de péssima lembrança o presidente americano Donald Trump, quando das eleições em 2016 – não aceitam e apelam de forma escandalosa quando incomodados. Sabem por quê? Elementar. Não têm classe e tampouco jogo de cintura. Não são diplomatas. Não dispõem do mínimo de traquejo. No duro da cebolinha, não gozam da boa educação.

Há muito se diz e não há como não concordar, “a mentira e o diversionismo político, que se espraiavam como vírus em tuítes presidenciais, precisam sair de cena”. (Revista “Veja”, in O Papel do Jornalismo, 25 de março de 2020).
Mera curiosidade, naquela ocasião, a revista trazia a notícia do primeiro caso de paciente com Covid, atendido no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Recebeu o paciente número 1. Infelizmente, passado pouco mais de ano e mês, o Brasil registra, no lamentável, mais de 328 mil mortos por Covid.

O papel da imprensa é tão importante quanto responsável. É informar com responsabilidade e credibilidade. Nessa época em que cidadãos do mundo ficam estocados em casa, sem poder sair, mais do que nunca precisam de informações, formações e entretenimento.

Quando entram a postura e o compromisso dos veículos de comunicação com a transparência, clareza e verdade. Sem estardalhaço. É agradável, por acaso, informar que a média diária de mortes está acima dos 3 mil? Não.
Nesses tristes e dolorosos momentos pelos quais vivemos, devemos enaltecer o papel da imprensa. Especialmente os órgãos que se reafirmam no caráter profissional do jornalismo sério. Veículos de comunicação imbuídos do esforço maior que é levar a notícia (na velocidade e transmissão de informações) onde quer que o povo esteja, ainda que cercados de dificuldades que a própria vida oferece. Saudação a todos, indistintamente, homens e mulheres que compõem a imprensa neste mundo, tão conturbado mundo!

Incentivar a imprensa é enaltecer a democracia. Pontos de vista diferentes, sim. Troca de ideias e acesso ao debate, idem, pelo bem da liberdade social. E, acima de tudo, pela prevenção de conflitos que geram o caos.

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado, com escritório em Formiga, escreve aos domingos
nesta coluna.