Opinião

O mundo acabou, mas a vida continua

Washington L. Tomé de Sousa

9 de junho de 2021

“Nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia, tudo passa, tudo sempre passará, a vida vem em ondas, como um mar, num indo e vindo infinito…” (Lulu Santos – 1983)

Após duas grandes guerras mundiais, ‘guerra fria’ e tantos outros conflitos militares que grassaram pelo planeta até meados do século passado, ceifando milhões de vidas e causando muito sofrimento, queda do muro de Berlim e da URSS, caminhava o mundo para um relativo período de paz e de liberdade até que, inesperadamente, em 2001, nos Estados Unidos, desabaram as Torres Gêmeas sob um inusitado ataque terrorista de radicais islâmicos, atingidas por dois aviões de grande porte. E, então, acabou-se aquele sonho de que caminhava o mundo para um período de distensão política e de maior entendimento entre as nações. Instalou-se a paranoia da segurança pública em detrimento das liberdades individuais e acirrou-se a luta contra um novo inimigo eleito, agora não mais o comunismo, mas o islamismo, com toda sorte de consequências, mormente na monitoração das pessoas, física ou por todos os meios eletrônicos que a tecnologia proporciona, devassando a vida e invadindo a privacidade de todos. Adeus liberdade!

“Esta noite eu tive um sonho… com o dia em que a Terra parou… foi assim… no dia em que todas as pessoas… do planeta inteiro… resolveram que ninguém ia sair de casa…” (Raul Seixas – 1977)

Com esta música/profecia (“O dia em que a Terra parou”), Raulzito superou Nostradamus e suas previsões, acertando na mosca (não a da sopa, rsrsrs!) da pandemia da Covid-19, com quatro décadas de antecedência. E cá estamos nós, em 2021, caminhando já para quase dois anos dessa praga que nos atingiu a todos indistintamente, com novas ondas de surto de suas variantes, sabe-se lá até quando.

Ao que tudo indica, não haverá retorno ao que considerávamos normalidade antes dessa pandemia. O coronavirus é uma presença com a qual devemos conviver doravante, mesmo com a vacinação em massa. Incorporou-se ao nosso cotidiano. Não haverá mais “novo normal”, mas a incerteza. A anormalidade instalou-se, e, certamente, outras crises de caráter global e diverso continuarão a surgir, agora em espaços de tempo mais curtos. Estejamos preparados.

“No balanço de perdas e danos, já tivemos muitos desenganos, já tivemos muito que chorar, mas agora, acho que chegou a hora, de fazer valer, o dito popular, desesperar jamais…” (Ivan Lins – 1979)

O médico psiquiatra Viktor Frankl (1905-1997), austríaco de origem judaica, fundador da Logoterapia (também chamada de “Terceira Escola Vienense da Psiquiatria”) foi prisioneiro de guerra em vários campos de concentração nazistas (aos quais sobreviveu) e teve o ‘privilégio’ de ter um laboratório vivo (os próprios campos de concentração, com todas as ‘cobaias humanas’ presentes e uma variedade de situações), onde pode observar, intima e pessoalmente, ele próprio debaixo das mesmas condições que os demais companheiros de prisão, por longos três anos, o comportamento de todos diante da morte iminente, da violência como rotina, da desesperança de tudo (de manutenção da própria vida, de liberdade, de justiça, de futuro…).

Finda a guerra, a partir dessa experiência, com os seus conhecimentos médicos e científicos, pode, então, o ex-prisioneiro de campos de concentração lançar os fundamentos de sua respeitada Escola, que tem relevo até os dias atuais. Eis algumas de suas conclusões, expostas na obra ‘Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração’, que desnudam bem a natureza humana:

– a maior parte das pessoas que sobreviveram aos campos de concentração era constituída daqueles que tinham esperança, que alimentavam um sonho de liberdade, de rever familiares, que sustentavam valores da dignidade do ser humano, independentemente das condições desumanas a que estavam submetidos (quem desanima da vida, já está previamente ‘morto’ – um zumbi);

– que a vontade humana não está limitada às circunstâncias (“o homem é o meio”). Nesse aspecto, dois tipos de comportamentos ficaram claros, nas palavras de Frankl: “as pessoas acentuavam suas diferenças individuais. Vinha à luz a natureza animal do homem, mas acontecia o mesmo para a santidade. A fome era a mesma, mas as pessoas eram diferentes”. Constatou-se que, apesar das circunstâncias nefastas, foi possível, mesmo naquela situação, tomar uma postura pessoal de inconformismo, intimamente ou factualmente, ainda que por uma minoria (a coragem de pagar o preço da decisão, até à morte… ou a pusilanimidade);

– que a grande maioria dos prisioneiros, com o passar do tempo, se entregava a um conformismo fatalista diante das circunstâncias; mas uma minoria, mesmo contra todas as possibilidades, continuava sustentando valores e mantendo fé na sobrevivência;

– que duas coisas se intensificaram no comportamento dos prisioneiros, em contraste com a apatia pelas demais: o interesse na situação política fora dos campos de extermínio e o profundo espírito religioso;
– … somos nós!?

Diante de um quadro assustador e de incertezas que se apresenta no presente e que sinaliza prosseguir no futuro, alimente em seu coração algo que lhe dê alento, esperança, e trabalhe por isso. A vida continua!
Saúde e paz a todos!

 

WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA, bacharel em Direito, ex-diretor da Justiça do Trabalho em Passos, escreve quinzenalmente às quartas, nesta coluna