Opinião

O homem que queria ser biografado

15 de fevereiro de 2021

Não o conheço, embora assegure não ser bom fisionomista. Também sou péssimo guardador de nomes. O que o cidadão quer é muito simples. Muito pouco. Foi o que garantiu. Naquele instante, sem raciocinar direito fui direto ao ponto. Não sou a pessoa ideal para falar sobre sua vida nos meios de comunicação nos quais escrevo.

O pretendente não usa nenhuma esquisitice, embora pareça. Quer que eu conte, em crônica, algo sobre sua vida. O que fez, deixou de fazer. E, se Deus permitir, o que ainda fará. Em resumo: sua biografia – a sua história. Sim, direito lhe cabe. Cada um tem uma história para contar. Existem histórias bonitas; outras, feias. As passáveis. E existem histórias de vida escabrosas. As impublicáveis.

Puxa – pensei – disse a ele, sem meias palavras: – Não sou biógrafo. É muito difícil escrever sobre alguém que não se conhece. Não sei nada do senhor. De duas, uma: teria de ter acompanhado passo a passo a sua existência. Pelo menos parte dela. Ou ouvir suas narrativas, meter bronca e passar adiante para o papel. Levaria um bocado de tempo.

Esqueci-me da terceira via. Escrever para agradar o interlocutor. Usar de metáforas, frases feitas e não afeitas ao encanto do perfume da verdade. Enfim, fantasiar. E fora este acesso e comando que encontrei para aqueles vinte minutos de prosa, sem verso e nem métrica.

A história de uma pessoa. Sob o prisma de um desconhecido e pelas palavras e desejos de alguém que quer ver estampado em uma página escrita, num pedaço de papel, pelo menos em porção, aquilo que lhe é essencial: a sua vida. Dádiva de Deus. Pelo menos, foi o que depreendi quando da designação do seu nome e imagens de um tempo passado e vivido.

Exercício de paciência no início, depois, na química universal do amor fraterno, processo de empatia. Naquele espaço temporal solicitado e concedido, ouvi um breve relato de um homem sofrido. Em síntese, assim. Criou seis filhos, perdeu um e os outros cinco estão bem. Sua esposa, segundo ele, está com Jesus. É aposentado, mal alfabetizado, tem casinha própria, recebe um salário mínimo do “INPS”, gasta a metade com remédios e vive como Deus quer. Uma vida simples, comum, mas boa. E que gostaria de ter alguma coisa, ser ou ter sido alguém. Acha difícil – senão impossível – qualquer operação de mudança àquela altura.

Falei-lhe que é uma pessoa muito importante. Deus sempre desejou o melhor para sua vida. A vida em si é um milagre. Não está aqui por acaso. Nós fomos feitos para o amor, glória, poder, prosperidade, sucesso, progresso, dignidade – a qualquer tempo e hora. Foi o que arranjei para agregar e alevantar o moral e autoestima de um homem que queria a atenção de alguém que julgava importante.

De relance, contei-lhe sobre a particularidade da vida de um personagem de Charles Chaplin – o conhecido Carlitos. Figura marcante da história. Brilhante, por sinal. Texto lido em algum lugar do passado, numa dessas barraquinhas de camelôs. Não me lembro bem o teor. Carlitos estava sentando com a tradicional roupa: terno, sapatos pretos, camisa branca, chapéu-coco, bigode, bengala em punho e um cachorro ao lado.

Em tradução livre, fiz ver ao bom homem. Carlitos não era rico, famoso. Não conhecia outros países. Não comia em mesas fartas. Não tinha nenhuma Gisele Bündchen em sua alcova. Enfim, era um homem comum. Entretanto, sentia-se imensamente feliz, pois tinha um cachorro. Situação de momento, não me cabia transmitir ao interlocutor o apelido de Carlitos: tramp – tradução de vagabundo. Isso não. Omiti.

Após ouvir o meu relato, o homem que pediu para ser biografado abriu um sorriso do tamanho da felicidade. Disse chamar-se Sebastião da Silva. Ganhara a vida como carroceiro. Hoje, doente, morava sozinho. Isto é, mais ou menos. A partir daquele momento estava muito satisfeito e podia considerar-se mais feliz do que o tal de Carlitos. Não tinha um, mas três cachorros muito bonitos e levados: Bolinha, Rex e Lulu. Abaixo de Deus, eram os únicos e verdadeiros amigos e companheiros. Em seguida, emendou: “E o senhor agora. Principalmente se escrever direitinho meu nome no jornal: Sebastião da Silva, às suas ordens”.

Não me lembro bem. Com certeza ficou reticente no quadro familiar, aspecto filhos. Também não perguntei. Não houve referência. Nem sequer fez questão de mencionar-lhes os nomes. Já o de Sebastião Silva, este sim. Está aqui, pomposo, com as honras de estilo. Publicado a um fôlego. Em única etapa. E de inestimável valor para alguém que quer ver sua vida historiada, publicada e homenageada.

Provavelmente, para mostrar a uma ou outra pessoa. Talvez. Não se sabe. O mais certo é massagear-lhe o ego. Com a ventura e caráter de um idílio ou sensação de Um Garoto, em Tempos Modernos, ladeado de A Condessa de Hong Kong – sob as Luzes da Ribalta – sentir-se Um Rei em Nova Iorque. Ah, e bem longe de ser O Grande Ditador Em Busca do Ouro. Jamais! Para quê? Conseguiu o seu intento. Queria ser biografado! Já imaginou?

Em prosa e verso, chorar o que passou é facultado. Contudo, somente pela semente das alegrias vividas. Lamentar perdidas ilusões é desaconselhável. Despiciendo, como gostam de escrever certos operadores do direito. O ideal que sempre nos acalentou, ao contrário da letra original, poderá voltar a qualquer tempo, não apenas em outros, mas em todos os corações. Então, assim aconteceu. O homem que queria ser biografado, biografado está. Na decência das impressões expressas de “Sebastião da Silva, às suas ordens”. Tenho dito.

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado trabalhista e previdenciário, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta coluna.