Opinião

O extraordinário “A montanha mágica”, de Thomas Mann

Alberto Calixto Mattar Filho

24 de junho de 2021

Em fevereiro deste ano, quando, em uma grande livraria, percorri os olhos por suas múltiplas fileiras, logo deparei com um daqueles que, desde muito, aguçava meus desejos, o clássico “A montanha mágica”, do alemão Thomas Mann, um calhamaço de não menos do que 848 páginas e em bela confecção de capa dura.

Para se trabalhar no atendimento ao público em livrarias de renome, não há dúvidas de que é necessário possuir boa experiência no terreno da leitura. Ao trocar ideias com o vendedor e até um pouco surpreso pelo tamanho da obra, ele me dissera que realmente era aquilo mesmo, porque, em sua visão, o intuito de Thomas Mann era o de levar o leitor a sentir ao máximo as situações narradas.

Mais curioso ainda e após folhear algumas páginas, não tive dúvidas e satisfiz meu desejo. Hoje, ao término de sua metade, já me sinto capaz de compartilhar com vocês quão extraordinária é esta obra. Assim que possível retornar ao local, vou dizer àquele mesmo vendedor que, de fato, Thomas Mann nos transporta para todas as minúcias do enredo de “A montanha mágica”. Nada, em absoluto, lhe é excessivo.

Nascido no seio de uma tradicional família do norte da Alemanha em 1875, Thomas Mann era filho de um comerciante e político germânico, casado, por sinal, com uma brasileira, Júlia da Silva Brunns, uma mulher de boa cultura e que também deixou seus escritos. Dados biográficos a apontam como uma escritora teuto-brasileira.

Falecido num vilarejo próximo de Zurique, na Suíça, em 1955, sua carreira literária, como normalmente ocorre aos grandes escritores, abrange gêneros diferentes dentre ensaios, discursos e romances. Uma vez oriundo da Alemanha, acabou se apondo, anos após a Primeira Grande Guerra, às ideias de Hitler, momento em que decidiu, em 1933, se expatriar para a Suíça, mas com passagens posteriores também pelos Estados Unidos, onde viveu por uma década.

Em termos literários, o reconhecimento maior à sua carreira está no Prêmio Nobel, que recebeu em 1929. Seu nome está, portanto, na galeria dos grandes escritores do século XX. Basta ler “A montanha mágica”. Cristalino o talento de quem escreve obra de tamanha grandeza.

Os que pretendem mesmo percorrer o infinito universo dos livros e da própria escrita não deveriam se esquivar deste romance, que significa, por certo, um grande alcance aos que amam as palavras e literatura. Uma enormidade não só em número de páginas, mas de condutas e conflitos humanos excepcionalmente bem retratados.

Na obra, temos o protagonista Hans Castorp, um jovem engenheiro naval alemão, que, nas duas primeiras décadas do século XX, em razão de seus sintomas de tuberculose, é enviado pela família para se tratar em um famoso sanatório típico para tal nos Alpes Suíços, o internacional “Berghof”, que ficava em uma linda região montanhosa dos arredores de Davos e abrigava pessoas de muitos países.

Em seguida, porém, aos primeiros relatos sobre a vida do protagonista, o autor nos conduz a algo semelhante a um diário das relações dele, Hans Castorp, já no sanatório, com uma série de personagens que ali estavam internados em busca do mesmo alívio para a tuberculose, uma doença de muita incidência à época.

Diga-se que os capítulos representam, sem prejuízos à coesão do romance, espécies de livros específicos quanto aos episódios que envolviam os enfermos, tamanha a profundidade de detalhes, inclusive seus males físicos. Há várias descrições de metabolismos, artérias e outros órgãos interiores.

A química orgânica, a biologia e até as teses da origem da vida se fazem então presentes, não como estudos apartados, mas na desenfreada busca de Hans Castorp por extrair o máximo de conhecimento, esperança e vida em um vale de doentes, muitos dos quais sob iminente risco de vida.

Surge, assim, uma autêntica viagem por questões relativas ao corpo humano, mas com o objetivo de elucidar os estados psicológicos advindos das enfermidades, numa tentativa de se compreender as inter-relações entre corpo e sentimento, corpo e atitudes, corpo e espírito.

Tudo nos jorra para um maravilhoso panorama de comportamentos, que se revela em um dos ápices da obra, os densos diálogos de Castorp com o interno e literato italiano Settembrini. Ambos penetram o mundo das ciências, da filosofia, da história, da morte, das doenças, das religiões, das observações cotidianas e das antíteses entre tradição e modernidade, razão e tirania, evolução e atraso, ética e deslizes.

Noutro ápice, há os relatos da fortíssima paixão de Hans Castorp pela interna russa Cláudia Chauchat, que já tomam, de início, a imaginação do leitor. Isso, no entanto, fica para um texto futuro.
Faltam-me 400 e poucas páginas. Resta-me a ansiedade do mergulho.