Opinião

“O estrangeiro”, um clássico de Albert Camus

POR ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO

4 de fevereiro de 2021

Eu vinha imaginando recentemente como seria realizar releituras de obras que li há muito tempo. O que percebemos décadas antes provável que adquira tons mais elevados com o transcorrer das experiências. Assim, o olhar atual sobre algo visto há décadas torna-se algo interessante.

Como o mundo dos livros é feito de inter-relações, estive e estou com “A peste”, de Albert Camus em mente durante esses árduos tempos de pandemia. “A peste” entra naquela imensa fila das tantas obras que me faltam. Feito o pedido e ainda no aguardo de sua chegada, lembrei-me de “O estrangeiro”, do mesmo autor, uma leitura que realizei na segunda metade dos anos 90. Lá se vão anos!

Albert Camus, o consagrado escritor franco-argelino nascido em 1913 na pequena Modovi, uma cidade costeira da Argélia, mas que adquiriu nacionalidade também francesa porque a Argélia foi colonizada pela França entre 1830 e 1962. Sua morte se deu de maneira trágica em 1960, num acidente de automóvel, enquanto se dirigia a Paris.
A obra e a vida de Camus são bastante ricas. A propósito, ele esteve no Brasil em 1949, quando manteve uma grande agenda de eventos culturais patrocinada pelo governo Francês. As ácidas observações que fez sobre a estada em nosso território estão em várias reportagens da imprensa.

Tendo a versatilidade como forte aspecto, escreveu ensaios filosóficos, romances, contos, crônicas, cartas, peças teatrais e textos jornalísticos, gêneros em que expõe toda a profundidade de seu pensamento. A admiração que despertou rendeu-lhe o Prêmio Nobel de literatura em 1957.

Justo por ser tão vasto, Camus demanda estudos. Além de escritor de talento inegável e talvez por isso, foi uma voz contra o arbítrio nas grandes guerras e no entorno dos poderes políticos durante boa parte do século XX, tudo em apoio às vítimas do stalinismo, do nazismo, do fascismo. Jamais aderiu, porém, a qualquer filiação ideológica, o que o fez discordar de seu grande amigo, o não menos famoso Jean Paul Sartre, este com tendências marxistas na década de 50.

Fui feliz então ao decidir reler “O estrangeiro”, um clássico extraordinário. Publicado originalmente no ano de 1942, em poucas páginas, não mais do que 122, é possível notar, no transcurso do enredo, uma de suas maiores características, o foco no absurdo, ou seja o absurdo que está sempre ao redor da nossa existência, detalhe ressaltado por todas as análises relativas à tal obra.

Exemplos? O absurdo sobre o qual não temos nenhum controle, uma vez que somos seres finitos e nada mais. Viver para morrer. O absurdo que nos conduz a notar, a qualquer instante, que as dúvidas e inseguranças da vida são sufocantes. O absurdo que nos impõe a única e absoluta certeza, a morte. O restante seriam meras ilusões ou válvulas de escape à realidade inescapável do fim, inclusive as de cunho religioso e moral.

Apesar da impiedade dessas reflexões que somente a filosofia pode explicar, Camus nos apresenta uma porta de saída: a revolta. Não a revolta tola e inútil, mas a revolta que se transforma em atos conscientes e nos impulsiona, sob limites, ao reparo das injustiças, das infelicidades, das hipocrisias, da miséria.

A revolta que nos leva, em paradoxo às incertezas e aos absurdos, a seguir a trilha da solidariedade e do prazer da vida enquanto possível. A revolta contra o desconhecido e a finitude implacável, a revolta que nos torna mais humanos. Daí ter escrito, em seus ensaios filosóficos, “O homem revoltado”.

Camus era essencialmente um humanista. Apesar de avesso a divindades e da força de sua consciência a respeito da morte, nada o fazia desistir da vida. Sua revolta consistia na pulsão da vida em oposição ao absurdo da morte, esta, como dito, a única certeza que possuímos.

São tais filosofias que dão sustento ao percurso do argelino Mersault, o protagonista de “O estrangeiro”. Mas, neste caso, estamos apenas perante um romance, e não outro ensaio filosófico. Torna-se útil, no entanto, conhecer as linhas mestras das ideias de Albert Camus mesmo quando sua criação é um romance e não um ensaio.

Mersault é um mero burocrata que vive sua rotina em Argel durante a metade do século XX. Gostava de cumprir a rotina e adorava se entregar aos prazeres que a vida oferece. Eis que um acontecimento surpreendente transforma toda a sua trajetória: o fato de ter assassinato a tiros um árabe que perseguia não a ele, mas a um de seus amigos, por pendências familiares anteriores.

A ocorrência se deu quando Mersault vagava só por uma praia deserta, para relaxar um pouco após um almoço na casa desses amigos, e se vê obrigado, pelas circunstâncias, a realizar uma ação até de legítima defesa, já que o árabe apareceu na praia com faca em punho e pretendia atacá-lo naquele momento. De tal episódio em diante, o livro entra na segunda parte, que narra seu período de prisão e julgamento, tudo sob os ritos do nosso conhecido tribunal do júri, com todos os seus conhecidos integrantes.

Mesmo nessas situações dolorosas, ele preserva uma espécie de aceitação ou indiferença por seu destino. Na realidade, sempre evitara polêmicas e jamais seguira o caminho das religiões, uma vez que era ateu. Aliás, nunca pretendera se envolver em nada, além de simplesmente viver sob o ritmo que a vida lhe permitia, no gozo dos amores e cumprimento do trabalho. Todo o restante lhe parecia absurdo, fruto de simples convenções humanas.

Mersault representa, portanto, esse estrangeiro que dá título ao livro, talvez no sentido de que os valores das instituições, principalmente os morais e os legais, lhe eram estranhos ou, no mínimo, não lhe tinham a importância dada pela sociedade e pelo Estado.

Condenado à morte, já que a pena capital integrava o arcabouço legislativo na Argélia daqueles anos, são espetaculares suas relações com o capelão que quer visitá-lo antes da consumação do ato derradeiro. Ressurgem célebres, nestas páginas, seus fluxos de consciência em razão do cárcere. Diga-se que a obra toda vem narrada em sua voz.

Tais fluxos, até quando narram situações comuns, nos fazem refletir junto com Mersault. Dono de comportamento surpreendente, ele fomenta um extenso espaço na imaginação do leitor, fazendo-o sempre mais imerso na obra.

O estrangeiro”, literatura genuína que é, demanda, afinal, que o leitor se entregue aos pensamentos e atitudes deste protagonista e, desta forma, tente compreender que ele representa uma criação literária lastreada pelos pensamentos filosóficos de Albert Camus. Para tanto, importante despir-se de verdades preestabelecidas de qualquer natureza.

Respondi que não acreditava em Deus. Quis saber se tinha certeza disso e eu respondi que não valia a pena fazer-me tal pergunta: parecia-me sem importância.” (pág.116)

ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna.