Opinião

O drama do Celular

POR LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO

2 de agosto de 2021

Não o aparelho de intercomunicação em si, que atua por ondas eletromagnéticas e diz respeito à estrutura da célula biológica. O celular existe porque, na origem, cada torre e mapa de cobertura pareciam essa célula biológica.
Essa a explicação científica para o início da geringonça, que, no inevitável, é o universo de muitos, de quase todo mundo, em suas respectivas necessidades, inclinações e desejos.

Eis que o desespero toma conta e se alastra, quando o aparelho se desliga dos olhares vívidos de seus consumidores. O ar se desprende de consumistas pulmões e dá pane até mesmo no sistema imunológico. Cadê meu celular!
O ‘aparelho móvel’ é conhecido menos por aqui e mais em Portugal. Já em outros lugares, como nos Estados Unidos, é “Cell Phone”. No Reino Unido, onde o povo é fortemente unido nos seus interesses – tem muito de sangue azul por lá – é “Mobile Phone”.

Por aqui é celular mesmo, ou smartphone, já que neste o sistema operacional é mais sofisticado. Assim: o primeiro, mais simples, o segundo mais complexo. Cheio de nove-horas. Muitos nomes para um aparelho que queriam me vender e o drama pelo qual passei.

Advogado maduro, ou, como dizem, cobra-criada, a princípio disse não ao vendedor de doces, sucos e salgados que diariamente visita o escritório.

“Só trezentos”, disse. – “Pô! Compra pra me ajudar. O senhor me ajuda muito”.  Pego no contrapé – nem olhara para o objeto – perguntei se deixava por duzentos. “Duzentos e cinquenta”, emendou, não sem antes dizer que precisava honrar uns compromissos com a venda do objeto.

De imediato, vi reprovação no olhar do parceiro Netto. No segmento profissional, Dr. Hélio Lemos Netto é bom no que faz, em especial quanto a medidas cautelares e a possíveis implicações em delitos do gênero receptação. Prudente ao extremo.

A preocupação maior para quem adquire produtos usados deve ser uma só: as operações ilícitas, como a receptação. Esse negócio de comprar algo que na origem pode ser produto de crime costuma não dar certo. Gera muita confusão.
Normalmente é assim: o vendedor fala que está em dificuldade, precisa vender algo que vale muito e pede relativamente pouco. Como também existe o comprador (fominha) que busca comprar mais barato para levar vantagem. Há muito disso por aí. Enquadrada a receptação, não dá outra: é coisa braba. Muita dor de cabeça.

De Baltazar, não. Dele compro tantas coisas e faz tempo. Por último, providenciais cachorros-quentes para tapear a fome. O suco que diz ser de uva e não é. Mas é bom. Refrescante. Passeio no prazer de tomar o suco que diz ser do fruto da videira. E faço gosto em sacrossantas trapaças.

Quanto ao celular usado – na verdade um smartphone – nem sei por que, no tradicional minuto de bobeira, nele mexo, no que percebo não tem chip de habilitação para se comunicar. Desativado.

Aperto botões aqui e ali e vejo fotos do velho Baltazar se imunizando. Engraçado. Muitos gostam de filmar o ato da imunização. Evento tão importante assim? De fato sim. Fico por entender. E se o vento estiver em desfavor? Não me lembro ter feito isso. Vacinar e contar com a prova material do elemento fotográfico. Interessante isso. Cada um com suas manias.

Pergunto se vai entregar o aparelho assim mesmo, com foto e tudo. Diz que poderia ficar. Já está imunizado.  Impaciente, percebo, quer mesmo é vender o aparelho e arranjar algum. Como não entendo de informática, tampouco de software – meu costume é agir dessa forma – regateio e ofereço duzentos.
Num jogo de chove-não-molha, no que ninguém sai ganhando ou perdendo, aceito pagar duzentos e trinta. O que tenho na algibeira. E mais dois reais que acho em meio à carteira da OAB.

E lá fiquei com o que achei conveniente chamar de objeto estranho e nem um pouco identificado. Não sabia marca, modelo. Bulhufas. Não sem razão. Mais parecia um ovni. Isso mesmo. Um ovni. Só faltava voar.

Afinal, o que iria fazer com mais um aparelho celular, sabendo que a vida útil de um produto eletrônico é cada vez menor em razão da velocidade high-tech?

De fato. Nem parei para pensar no fator obsolescência. Muito menos no impudor de acumular lixo urbano no planeta. Bem longe de pensar na função da dinâmica da evolução tecnológica. Literalmente, viajei na maionese.

Beirando o certo na inversão do errado, sinto-me agora como que um aparelho recém-possuído no impulso da imprecisão. Afinal, acabara de adquirir um aparelho obsoleto.

Meu filho Sérgio – inteligente e do ramo – por certo reprovaria incontinenti o ato. E o agravante está no que os especialistas chamam de lixo urbano. Fenômeno essencialmente ligado aos humanos. Vão amontoando coisas para os pósteros.

A natureza agrega renovação e reconstrução do lixo. Já os ditos civilizados, expressiva parte dos incautos, entre os quais me faço incluir, entram nessa barafunda.

Vejo-me, então, na condição de autêntico predador de ambientes sociais e urbanos. No ultraje de amontoar coisas de nenhuma serventia.

Pior de tudo para o meu desalento: a capa do aparelho celular. Toque meio abstrato do que representa o mau gosto e a feiura por si só. Fealdade explícita.

Em vez do negrinho básico que tanto aprecio, estava diante de um bordô cintilante, mais parecendo material de Folia de Reis ou carnaval pandêmico fora de época.

O brilho opaco de purpurina não biodegradável incomodava. O glitter e a purpurina levam-se 400 anos para se decompor na natureza. No elemento complicador: uma descolorida vestimenta de um paetê não de boa qualidade. Tenho comigo, de nenhum interesse para nenhuma fantasia, ainda que para a mais modesta das escolas de samba.
Enfim, péssimo enredo e desfecho para um pobre mortal. Publicamente, não me seguro e dou a mão à palmatória. Sou useiro e vezeiro em aquisições de até avião caindo.

No final, descubro. Aleluia! Trata-se de um modelo 6S, o mesmo que certa feita caiu de um avião a 300 metros de altura, voou, caiu em terra firme e continuou funcionando.

A história é do ambientalista Ernesto Galiotto, um defensor da natureza, que diz que a natureza protegeu. O aparelho caiu na localidade de Dunas, quando num sobrevoo na Praia do Peró, no Rio de Janeiro.

Já o meu, mesma marca e modelo (‘gigabyte’ não entendo), não. Veio pelas mãos de Baltazar mesmo. Por enquanto, segue em momento de funções indeterminadas. Quem sabe, a qualquer momento, poderá seguir um curso e voar. Ainda que em simples voo funcional. Como um zap para alguém, como a dizer que tudo está bem e em ordem, conforme manda o figurino.