Opinião

O dia seguinte II

POR WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA

17 de fevereiro de 2021

Há exatamente um ano escrevi artigo aqui nesta coluna sobre como seria o comportamento das pessoas pós-pandemia do Covid-19. Mas, mesmo antes do fim desse mal que nos assola, bastou a queda momentânea dos números de internação e de mortalidade para que ocorresse o ‘estouro da boiada’.

As festividades de fim de ano, em dezembro de 2020, com aglomerações e falta de outros cuidados básicos de prevenção, o que vem se repetindo, também, nestes dias de carnaval em fevereiro de 2021, mesmo diante do seu cancelamento e das proibições de realização de festas, tornaram-se fatores agravantes da crise, com as consequências já previstas e sobejamente advertidas: o aumento do número de internações e de mortes e a sobrecarga do sistema de saúde. Tal comportamento não pode ser atribuído apenas aos brasileiros. Na Europa, a polícia também teve que se mobilizar para impedir aglomerações e festas clandestinas, como ocorrido na Inglaterra.


Relembrando

Então me disse: Não sele as palavras da profecia deste livro, pois o tempo está próximo. Continue o injusto a praticar injustiça; continue o imundo na imundícia; continue o santo a santificar-se”. Se você quer saber o que ocorrerá com a humanidade após o fim da pandemia do Coronavirus, esse pequeno trecho acima, do capítulo final do livro do Apocalipse, revela, de forma crua e direta, qual será o comportamento da quase totalidade das pessoas no pós-crise.

Quase totalidade porque, como exceção, uma minoria terá aprendido alguma coisa e passará a ver e viver a vida sob uma nova e melhor perspectiva, mas a esmagadora maioria retomará sua rotina em pouco tempo, esquecendo-se de todo o drama vivido e sendo tocados, tais quais animais irracionais, de forma impulsiva, automática e irrefletida, pelos pensamentos, sentimentos e hábitos primais que já antes os dominavam e dirigiam. Assim somos nós – desafio contínuo a ser superado. Ou crescemos como seres humanos ou nos repetimos ad eternum como infra-humanos.

Se não me mato, morro!” Não, não estou propondo o suicídio a ninguém, mas, sem o egocídio (morte do próprio ego), não há a possibilidade de inauguração da jornada em uma vida plena. A chamada é apenas o título de um dos inúmeros filmes estrelados por Burt Reinolds, em divertidíssima comédia protagonizada com outros dois grandes atores (Dom DeLuise e Sally Fields), na qual o solteirão inveterado Sonny (Reinolds) resolve dar fim à própria vida, após diagnóstico de doença fatal, tomando um frasco inteiro de soníferos. A tentativa fracassa e Reinolds é internado para tratamento em um hospício, onde conhece e se torna amigo de Marlon (DeLuise), um esquizofrênico que fica ‘louquinho’ para ajudá-lo a cumprir a sua ‘missão’ suicida.

Em cena marcante do referido filme, após fugirem ambos do hospício, Sonny se lança ao mar, na tentativa de morrer afogado e, já em alto mar, levado pelas ondas, arrepende-se e desiste do seu propósito. Começa a nadar de volta à praia, mas a distância é grande e vê que não vai conseguir, então faz um acordo com Deus: promete doar todos os seus bens aos pobres e se tornar um filantropo se conseguir retornar com vida à terra firme.

Recobra as forças e começa a nadar de volta. À medida que vai se aproximando da praia e aumentando a possibilidade de sobreviver, ele ‘renegocia’ com Deus, reduzindo a sua proposta inicial, de doar seus bens, a cada braçada que dá – a força do ego falando mais alto que a da consciência. Quando põe os pés na areia, o acordo já está zerado. Não deve mais nada a Deus. Livrou-se de tudo o que prometera quando estava à beira da morte. Só não contava com uma surpresa: Marlon, o seu fiel amigo de hospício, ali estava, com uma arma na mão, para recepcioná-lo e cumprir a promessa que fizera lá no manicômio, de ajuda-lo a pôr fim à sua vida.

Quem quiser saber o final, veja o filme. Aproveite esses dias de quarentena imposta pela nova onda do Covid-19 para refletir sobre isso. Pode fazer diferença entre a vida e a morte. Afinal, você decide em qual categoria quer “continuar”: a dos vivos-mortos, ou a dos mortos-vivos.

WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA, bacharel em Direito, ex-diretor da Justiça do Trabalho em Passos, escreve
quinzenalmente às quartas, nesta coluna