Opinião

Opinião: O Covid-19 e a lógica destrutiva do capital

25 de março de 2020

Em tempos de uma trágica pandemia viral, ligada à família dos coronavírus, o mundo assiste catatônico, aos horrores que doenças podem nos causar. Situação alarmante, mas que nos permite uma reflexão, digamos, metafórica das mais profundas estruturas da sociedade de capital. Longe de ser uma teoria conspiratória sobre a crise humanitária do Covid-19, acreditamos poder fazer um percurso interpretativo que relacione os vírus e a lógica destrutiva do capital.

Sabe-se que o funcionamento básico dos vírus, tal como o Corona, consiste em se apropriar do corpo de um hospedeiro. Nele inserido, os vírus passam a reproduzir seu material genético em fusão ao material genético deste hospedeiro. Com isso, os vírus garantem a sua existência – destrutiva no caso do Covid-19 -, usando o hospedeiro não só como reprodutor de seu RNA, mas também como vetor para se propagar, se alastrar e assim vencer, por algum tempo, a entropia de todo ser vivo.

Ora, podemos imaginar que no lugar do vírus tenhamos um sistema lógico de produção de valores, materiais e simbólicos. Chamemos este sistema de a lógica do capital. O capital necessita de diversos hospedeiros para se reproduzir. Ele se reproduz não mais com seu material genético, mas sim com o seu material histórico-ideológico, incutindo nesses hospedeiros “ideias”, lógicas, formas produtivas, formas reprodutivas para assim se perpetuar em cada corpo/mente dos hospedeiros. Nas formas de luta de classe, o vírus, como definimos, é o capital e quem assim o detém, em suas formas de (re)produção. Mas, quem são os hospedeiros? Bem, temos aqui a outra ponta do funcionamento da lógica do capital: a classe trabalhadora.

É na classe trabalhadora que o capital visa a se reproduzir e precisa se reproduzir. É no corpo e na mente do trabalhador que o capital eterniza a sua hegemonia. Não por acaso é muito fácil encontrar trabalhadores, em diversos níveis sociais, a despeito da sua mais indigna expropriação, que defendem com unhas e dentes essa lógica do capital. É o caso de vetores ideais. Estes não precisam “trair” a classe. Eles, como reproduzem o material simbólico do capital no âmago de suas forças vitais, sequer se enxergam como uma classe antagônica a esse processo de esbulho possessório, para parafrasear o juridiquês do bom burguês.

Todavia, a história, assim como a linguagem da metáfora, não é transparente. Ela, pelas contradições inerentes às lutas de classe, está exposta ou latentemente opaca. Hospedeiros de vírus frequentemente criam anticorpos que os combatem e os matam. Mas e os trabalhadores? Sem dúvida alguma resistem, se organizam, lutam em muitas formas organizativas. Sim, caro raulzito, a classe trabalhadora organizada ainda existe, embora “todo jornal que eu leio me diz que a gente já era”.

É nessa resistência que se encontra a chamada lógica, ora, destrutiva do capital. Quando trabalhador hospedeiro não mais aceita ser vetor, o capital se reagrupa, se reorganiza e avança com toda sua tropa e se amplia. Aqui é o fim de qualquer “acordo”, formal ou informal, de civilidade; qualquer acordo de direitos e garantias fundamentais, ainda que mínimas ao trabalho. Antes mesmo do Corona, na verdade, ao longo de toda história, o capital tem buscado sistematicamente eliminar o hospedeiro resistente, não só com suas moléstias, mas como todo o aparato institucional disponível. Aqui encontramos todas as nomeações possíveis: do vagabundo improdutivo, passando pelo boêmio ou anarquista, até o tão famigerado comunista. Estes definitivamente não são bons hospedeiros.

Mas dissemos que a história não é transparente. O capital se reestrutura e se amplia na perversidade e ganância não só com o hospedeiro resistente, que não quer mais ser vetor. Ele busca avançar também quando os hospedeiros não entregam a produção necessária para a sua massiva reprodução. Aqui, o vírus capital também se reagrupa e, ou se desregula, sai de controle de si mesmo, causando uma forte destruição de seu ciclo lógico, regular e sistêmico, ou ele busca chegar a fronteiras nunca dantes exploradas. Até mesmo com uma inteligência artificial podemos perceber que este momento é corrente. Os vírus podem morrer. O capital não.

 

SAMUEL PONSONI, doutor, professor na unidade de Passos da Uemg