Opinião

O clássico “Memórias de um sargento de milícias”

POR ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO

22 de julho de 2021

Das leituras que sempre nos faltam, resgatei mais uma. Quem não se lembra de “Memórias de um sargento de milícias” em seus tempos colegiais? Era, sem dúvida, um dos livros exigidos nos currículos de literatura. Nada, porém, como ler obras daquele período anos depois, quando, já maduros, possamos compreendê-las sempre mais, tanto em seus valores referentes aos padrões vigentes na sociedade em que ocorrem as histórias contadas, quanto em suas vertentes linguísticas, que também envolvem o fator tempo.

Memórias de um sargento de milícias” se enquadra perfeitamente em um dos propósitos da literatura, sua excepcional condição de código cultural de épocas. Este clássico nos oferece todo um panorama de acontecimentos corriqueiros na sociedade brasileira da primeira metade do século XIX no Rio de Janeiro, especialmente das classes média e baixa, e logo no período em que D. João e sua corte reinavam no Brasil.

Segundo os estudos, “Memórias de um sargento de milícias” integra o núcleo dos romances urbanos, que transmitem, em essência, a vida social e familiar dos personagens em seus dramas por dinheiro, amores e ascensão social. Classificações à parte, impõe-se dizer que seu autor, Manoel Antônio de Almeida, que, por sinal, viveu muito pouco – nascido em novembro de 1830, falece em novembro de 1861, vítima de naufrágio no litoral do Rio –, consegue elaborar um enredo admirável, que vai deter a atenção do leitor do início ao fim em não mais do que 143 páginas.

Foi o único romance de Manoel Antônio de Almeida. Alguns anos antes, ele chegou a concluir a faculdade de medicina, mas nunca exerceu o ofício. Em seu curto período de vida, viveu do jornalismo e de certos momentos no magistério, trabalhos com que obtinha recursos mais imediatos para o sustento de seus três irmãos, uma vez que ficara órfão dos pais muito cedo.

Na obra, surge a maluca trajetória tanto de Leonardo Pataca, quanto de seu filho, chamado somente de Leonardo, mas há outros personagens muito interessantes como o compadre e a comadre de Pataca, a dona Maria e sua sobrinha Luisinha, o major Vidigal, o militar das forças de segurança, além de outras criaturas bizarras das camadas inferiores da sociedade. O leitor se verá sempre entregue a uma intensidade de episódios cômicos que evoluem das travessuras infantis às tramas adultas e almejam retratar as peripécias em que se metiam constantemente, a princípio, o pai Leonardo Pataca, e, no decorrer do enredo, o filho Leonardo.

Ambos não resistiam, como se diria naqueles tempos, a uma “barra de saia”. Ambos possuíam espírito indisciplinado e libertário. Movidos pelos desejos, não dão a devida importância à seriedade da postura que se exigia aos olhos das regras sociais. Suas paixões hilárias e as consequências disso são, portanto, o fio que entrelaça os outros personagens no entorno do pai e do filho. Os acontecimentos se sucedem em forma de capítulos curtos, que vão desenrolando o volume de aventuras praticadas pelos Leonardos.

Todas as circunstâncias demonstram costumes então arraigados, como a forte presença do espírito religioso, em suas rezas, orações, procissões, as velhas beatas, a grande influência dos padres e até a superstição religiosa fora dos cânones eclesiásticos. Mas não faltam o espírito malandro, aventureiro e até hipócrita que o leitor poderá constatar no surgimento de outros personagens e nas relações entre todos.

A curiosa razão do título será desvendada ao final da obra, após toda uma série de tramoias aptas a concluir o relato. Estamos sob as diretrizes de um narrador onisciente em terceira pessoa, que a tudo conhece, e que dialoga com o leitor, algo que se pode observar também em obras de Machado de Assis. Manoel Antônio de Almeida, antes de esclarecer a série de imbróglios em que se metem o pai e o filho, parece bater um papo conosco, ao fazer brilhantes observações sobre os dilemas dos dois e daqueles que orbitavam a seu redor na ânsia de puni-los ou socorrê-los.

A viagem na memória que nos ocasiona este clássico abrange ainda o universo das palavras, ora dos padrões formais, ora do nível das gírias que não mais se usam com frequência nos dias de hoje. Tanta curiosidade gerou-me até uma pequena lista. Funçanata ou patuscada (folia, festejo), fortuna (sentido de sorte), desfeitear (nos lábios da dona Dulce me lembro bem), moafa (brasileirismo que significa embriaguez), catilinária (discurso acusatório contra alguém), saloio (grosseiro), estúrdio (esquisito), lambisgoia (até em novelas chegamos a ouvir), velhacos de quilate (malandros experientes), sujeito babão (quem fica idiota quando está apaixonado ou junto a mulheres) e por aí vai.

Da viagem na memória à viagem na língua. Da viagem a valores de época aos eternos conflitos humanos em forma hilária, em plena harmonia de situações e sob primoroso estilo de escrita. Justifica-se o reconhecimento que a crítica devota a este clássico. Feliz redescoberta.