Opinião

O aniversário de Eliana

Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho

26 de julho de 2021

Minha assistente no escritório de advocacia é Eliana. Não sei sua idade. A mim não cabe perguntar. Desde há muito – e bote tempo nisso – sei que não é civilizado perguntar a idade a uma dama, não importa a idade que tenha.

Acabo de reler uma crônica deliciosa de Carlos Drummond sobre Marieta. (Boca de Luar, pág. 93, Ed. Record, 1984).
No “fascínio duradouro” – segundo o crítico literário Fausto Fernandes da Cunha – ele quem cuida de puxar as orelhas da obra, ainda diz que uma crônica é uma “borboleta fugaz”, no que concordo e faço festa.

A verdade é que em malabarismo vocabular, Carlos Drummond, o maior dos poetas, lista meia dúzia de teorias sobre a idade feminina. De todas as hipóteses, a mais interessante “é que a mulher está sempre começando a contar de novo a mesma idade”.
É o que diz. Não me comprometam. Dirijam-se ao templário mundo ‘drummondiano’ e dele falem o que quiserem. Com certeza, não terão coragem.

Não sei se é o caso de Eliana, já  que insiste dizer que está na casa dos quarenta. E olhe que faz tempo isso. Melhor das dúvidas, vai dizer quarenta e uns. Quarenta e muitos, nunca! No provável, não sairá disso: quarenta e uns.
Essas mulheres!

Explico porque escrevo e trato dessa matéria. Não é falta de assunto. O leitor vai entender. Faz sentido. Nessa época de vacinação contra a pandemia da Covid-19, e por faixa etária, está havendo muita confusão no reino das vaidades. Absurdamente, fora de controle. No que posso assegurar e constatar: aguardadas contradições, mesmo com o risco de vidas no páreo.

Muitas mulheres vacinando fora do tempo e se expondo a perigo pela não aceitação no campo e jogo das imunidades. E haja alterações na saúde corporal, o que os médicos chamam de comorbidade. Expressão que veio a ser coqueluche, embora de forma dramática.
Talvez sabedoras em plenitude de que têm imunidade de sobra pela excelência de ser. Sim. Verdade. Na pluralidade, seres em natureza as definem e acatam em grata admiração.

Todavia, dias atrás constatei o fenômeno. Uma bela mulher – pouco acima dos sessenta –, não se apresentou no devido tempo na Unidade Médica para a imunização. Confesso – na hora – fiquei por entender, até me encontrar de novo com Marieta, na ótica de Drummond.

Aos 90 anos, penso que a personagem Marieta não teria tapume e barreira para não revelar sua idade. Ou teria? Vamos lá. De duas uma: ou não se lembrava mesmo de estar nonagenária – por motivos até compreensíveis –, ou não estaria nem aí para sua longeva condição na continuidade existencial. Então, por quê? Ah, extravagância de algumas!

Convenhamos, perguntar a idade a uma mulher não é de bom-tom nem aqui nem na China, onde se diz que um quinto de todas as pessoas idosas do mundo é de lá.

Lembro certa vez ter lido que certo chinês morreu com 197 anos. Chamava-se Li Ching Yuen. Não posso botar fé. Ainda que outros falem que erraram na data de nascimento. Vivera mais: chegou aos 256!

Do que o poeta mineiro escreve sobre Marieta chego à conclusão: a mulher pode ter a idade que quiser. Direito lhe cabe. E muito. Pouco importa. Se quiser ter vinte, trinta, quarenta, cinquenta ou noventa anos, querem saber? Todas as homenagens e sedimentados aplausos. Vou mais: que tenha a idade da alma.

Alguém mais xereta do que a própria razão insiste perguntar qual a idade da alma. Não propenso a teses evolutivas, não me meto em delicada seara. Deixo passar. Trata de estar aqui e depois em outro lugar por tempo progressivo.

Quando não resisto à tentação de retrucar: se não sei a idade de Eliana, como de resto das mulheres em geral, como vou saber a idade da alma?

Terreno áspero e caprichoso, que a mulher tenha a idade que bem lhe aprouver, no seu tempo e lugar: sinta, sonhe, navegue – bem firme nos anseios e propósitos.

Os muitos ésses são atributos da sorte e do sucesso. Um a mais para justificar a tese de Drummond: sândalo. A ver com óleo essencial e perfumado para  a graça de viver.

PS: Para Eliana, por todos os aniversários que muito torço louvar, embora, muito provavelmente, não venha saber o quanto na correspondência das folhinhas e almanaques.

Coisas de mulher!