Opinião

“O amante”, de Marguerite Duras

POR ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO

18 de fevereiro de 2021

Marguerite Duras atuou como romancista, teatróloga e cineasta. Nascida em 1914, numa região chamada Indochina Francesa, à época, colônia da França, um território que abrange parte do Vietnã, da China e outros países, veio a falecer em Paris em março de 1996, cidade onde também se formou em Direito anos após, sem, contudo, jamais abandonar a carreira literária.

Sua vida, em meio às grandes guerras e aos conflitos políticos e familiares, foi repleta de acontecimentos fortes e dolorosos. Dados biográficos à parte, que podem ser pesquisados com facilidade, o que realmente importa, neste texto, é o foco a seu livro “O amante”, que, quando lançado na França, em 1984, logo se transformou em sucesso de público e crítica.

Não se pode dizer que títulos sejam determinantes para um bom texto, mas é plausível afirmar que apresentam importância para despertar o desejo de leitura. No caso, a simples palavra amante, por mais comum que pareça, adquire a capacidade de provocar imaginações. Amante, a palavra que sempre rompe padrões e traz em si as torrentes de amor, paixão e sexo.

É o que se dá na obra, que pertence ao período que, segundo os estudos literários, foi classificado de “o novo romance”. Em síntese, um estilo no qual o autor se permite um ir e vir no tempo, de modo a intercalar pensamentos sobre diferentes fases da vida, com mais liberdade para exercer o relato, sem que o enredo seja realizado sob os rigores de um contexto linear ou cronológico.

Independentemente, no entanto, das análises típicas dos críticos, o fato é que Marguerite Duras deságua, em apenas 127 páginas, todo o seu árduo percurso de vida, desde os anos da adolescência na colônia francesa, até as reflexões próprias de tempos bem posteriores, quando já vivia em Paris. Uma obra autobiográfica, em que a autora procura demonstrar, com alternância, os principais episódios que marcaram a sua existência.

Os dramas perpassam bastante as relações com a mãe problemática, inclusive seus atabalhoados negócios após a morte do marido, quando ainda moravam na Indochina Francesa. Em paralelo, ocorrem as histórias do irmão mais velho, um sujeito sem escrúpulos, que viveu à margem da lei e dos bons princípios, e a morte prematura do irmão mais novo, este sim, uma ótima pessoa.

Apesar dos detalhes dessas relações, o cerne da obra, como o próprio nome indica, reside em seu envolvimento, aos 15 anos apenas, com um milionário chinês, 12 anos mais velho, que a observava diariamente à saída da escola por já nutrir desejos de possuí-la. O poderoso empresário dirigia-lhe os olhares do interior de uma limusine preta. Um “caçador”, como a autora o define no texto. Marguerite, ao perceber aqueles primeiros sinais, assim os narra: “Na limusine está um homem muito elegante que me observa. Usa roupa europeia, o terno dos banqueiros de Saigon. Olha para mim. Já estou habituada a isso. Todos olham as meninas brancas.” (pág. 22)

Dos primeiros olhares entre ambos, surge, assim, pouco tempo depois, uma tórrida paixão, algo que durou por aproximadamente dois anos. Uma paixão, porém, às ocultas, por quartos também ocultos, nos moldes das relações não sacramentadas perante a sociedade. Mesmo vindo a amá-la em desespero, o “caçador” não seria capaz de assumir o relacionamento em razão de questões culturais e familiares.

O que há de tão diferente em mais um caso de amor clandestino? Absolutamente nada. O que vale aqui é enaltecer mais uma obra da literatura confessional e uma de suas maiores características, a própria coragem de confessar. Noutros termos, seria preciso, para além da capacidade indispensável à arquitetura do texto, nutrir a força interior e a disposição de tornar públicos fatos pessoais. Transformar vida em literatura, diga-se. Sem, portanto, incorrer em pieguices e banalidades, Marguerite Duras consegue transmitir uma história profunda e, sobretudo, madura, ao entrelaçar momentos tão íntimos de uma paixão com várias situações pungentes de toda uma vida.

Ele a observa. Com os olhos fechados, observa-a ainda. Respira o rosto dela. Respira a criança, com os olhos fechados respira sua respiração...” (pág. 108) Ao se mostrar inteira aos leitores, Marguerite praticou o ato que mais lhe movia, escrever. Tudo que lhe ocorreu veio em forma de subsídio para a literatura. Neste livro, à base de memórias muito estimulantes para o ato literário em si. Sempre válido finalizar com as próprias palavras de quem escreve. Talvez represente uma maneira de conhecer melhor o que se passa na alma de quem dedica a existência à escrita: Não há momento em que eu não escreva; escrevo o tempo todo, mesmo quando durmo.

ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna